"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


31.1.10

Poente branco

Andei pintando poesia nas palavras
Fingindo o tempo em sonhos impossíveis
Inventando premências sem sentido
Convivendo ausências
Medindo o porvir

Andei desperdiçando o rosto nas esperas
Sentindo o mundo em vazios inesquecíveis
Andei passando o sol despercebido
Bebi auroras
Embriaguei meus céus

Agora, traçam-me as letras tardiamente
Sonham-me versos tristes nos papéis
Tornei-me o silêncio da página vazia
O gesto sem toque,
O sentido sem forma

Pesa-me a inanidade branca do poente.

Lília Chaves

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

30.1.10

Persona

Eu,
Que nesta mutação vou me perdendo,
E no casulo destes poucos anos
Limitada - mente
Fico assim, acabrunhada, ardendo
Descontente
Todos os dias, ao recolher pedaços
Pistas,
Arroubos psicanalistas
Que encontrar-me é mais forte que viver
E completar-me, mais mágoa que morrer.

Lá longe tem um mar. E além mais outro.
Atrás desse universo tem eu mesma.
E fico assim
Feito estrela
Borboleta
Fechada aqui qual mapa de tesouro
No mar que tem lá longe do outro mar.

E nesta mutação vou me esquecendo
Num canto das minhas ternuras
Brinquedos
Fechada qual caminhante
Nesta noite que se afoga
Nas águas de si mesma.

Vera Muniz

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

29.1.10

Amor Proibido

Erma e árida a noite,
Árvores desfolhadas
Tua cabeça em meu ombro
Pousa aflita e pesada.

Ronda a raposa os campos,
Longe o inimigo a essa hora;
Astros alheios brilham.
Teus belos olhos choram.

Quebras um galho seco,
Vagamente, e me dás
Ambas as mãos - e não
Nos vimos nunca mais.

Detlev von Liliencron
(trad. Geir Campos)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.1.10

Tua mão

Com uma das mãos sobre o meu corpo
vais dormir em paz
não consigo dormir, por isso
o peso leve da mão
aos poucos passa a ser de chumbo
a noite é longa
permaneces no mesmo lugar
essa mão só pode ser afeto
talvez tenha outro significado secreto
Não ouso afastá-la
nem acordar-te de repente
quando me acostumo e me afeiçoo a ela
em sonho tu a recolhes, súbito
e ignora tudo.

Han Dong
(trad. Régis Bonvicino e Yao Feng)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

27.1.10

Sou sua pálida amante vaporosa
Na volúpia das noites andaluzas
Meu sangue ardente em minhas veias rolas
Minha alma é uma fonte sonhadora
Longe de ti bebo teus perfumes
Sonho com voce e me sinto seminua.

Ondina Castilho

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

26.1.10

Memórias de Dulcineia IV

Indecisa, seguro entre as mãos
a carta que um dia recebi:
sem remetente, sem data,
sem perfume.
Com uma haste de fogo
a queimar-me as pálpebras,
eu leio: dia da minha noite,
prazer da minha mágoa,
norte dos meus caminhos,
estrela da minha ventura.
Os meus lábios, lentamente,
tocando as letras, lambendo
o sonho impresso no papel.
Um aroma de jasmim
devassando o ar.

Graça Pires

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

25.1.10

Amalg(amados)

Eram dois
no mesmo passo
cadenciados

(às vezes meio tímidos)

consumidos
desconcertados
em metáforas construídos
e em antíteses
interpretados
seguiram...

depois
um único rastro
resumidos
interligados

(corações amalgamados)

Daufen Bach

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.1.10

Met_ades

a vida me faz em metades:
metade gente
metade bicho
metade natureza
metade alegria
metade tristeza

tem dias que carrego o mundo dentro de mim.
em outros, sou vazio sem fim.

tem dias que uivo noite adentro.
em outros gorjeio feito ave.
adejando-me por entre nuvens e ventos,
às vezes piso em marte.

tem dias que chovo,
ora fina, ora torrencialmente.
em outros broto-me semente.

já desabrochei flor,
já despontei sol,
já adormeci loba,
já amanheci rouxinol.

muitas vezes tento juntar as partes.
nunca consigo!

elas se rejeitam... sofrem de incompatibilidades.

assim me levo ... tempo que segue, pedaços-metades!

Ana Merij

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.1.10

Música

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.

Anna Akhmátova

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.1.10

Dias meus

Tem dias que brinco comigo
e busco um sorriso em algum fundo de traço,
talvez um caminho em que me encontre
ou algum outro no qual me perca.

Tem dias que dispo minha alma
e reviro-me criança fera de um não delírio.
Deixo a tristeza pintar um mar
e nuvens filmarem alegria.

Tem dias que cavalgo poesia
e planto palavras nos pés de meus anseios,
outros rasuro malícia e desmancho segredos
tatuados na ponta de alguns prazeres.
Nos dias escritos desencravo dores
destilo amores e afago torrentes.

Tem dias que saio de mim
olho de fora e queimo por dentro.
Tem dias nos dias férteis que viro semente
e de mim broto mulher alucinada
com minhas taras e meus frágeis medos.

Tem dias que esqueço de mim
e sem querer me acho, inteira.

Eliane Alcântara

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.1.10

De mim, tirei peça por peça:
As roupas
rotas que estavam de passado
O coração
para que não esperasse nenhum apelo
O sexo
entre silenciosas pedras de fogo
O amor
que se condenou à paixão
O sangue
pássaro vermelho jorrando assustado
As palavras
antes que fugissem pelos ouvidos
A pele
com estampas já desbotadas
Os braços
para que não mais aquecessem seu corpo
As pernas
que já não queriam me carregar nessa vida
Os cabelos
para que se renovassem como leve nuvem
Os olhos
para que não se nublassem à claridade do dia
As mãos
para que não mais buscassem o rosto desamado
O nariz
para esquecer o cheiro de imagens deslembradas
O pensamento
que me feria as madrugadas
Os ouvidos
para que não ouvissem os silêncios insones
Os pés que,
ave ferida, iriam te buscar sempre...
Os dedos
que nunca desataram meus nós
O meu canto
que me desliza triste ante à luz que se esconde
E finalmente,
finalmente o meu corpo
para que não se curve colhendo as conchas do tempo...

Nilze Costa e Silva

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

20.1.10

Recomendações

E se acaso você for à minha choupana e minha mãe disser:
- Como vai o meu filho?
Será que ele vai bem ou será que me engana?
Você não vai falar que ando assim, maltrapilho;
mas, lhe diga a sorrir:
- Fique à senhora em paz!
Ele vence brincando o maior empecilho!
Está outro, ninguém o reconhece mais!

Se minha irmã disser:
- Como vai o meu mano?
Ele é muito falado? Ele é muito querido?
E será que ainda vem para casa este ano?
Você não vá tocar no que tenho sofrido.
Mas, lhe diga a sorrir:
- O seu mano é um rapaz
Que tem prêmios de amor e glória recebido!
Está outro! Ninguém o reconhece mais!

Entretanto, se você chegar até a casa de onde um dia saí,
cambaleante e mudo,
- Asa que cai do azul com uma ferida na asa -
e uma voz lhe disser, branda como um veludo:
- Como vai o meu noivo?
(ouça bem, meu rapaz...)
Diga-lhe apenas isto, ela compreende tudo:
- Está outro... ninguém o reconhece mais...

Judas Isgorogota

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

19.1.10

Piano

Suavemente, na penumbra, uma mulher canta para mim;
Fazendo-me voltar e descer o panorama dos anos,
até que vejo
uma criança sentada debaixo do piano,
na explosão do prurido das cordas
e pressionando os pequenos,
suspensos pés de uma mãe que sorri
enquanto ela canta.
Apesar de mim, a insidiosa mestria da canção
atraiçoa-me fazendo-me voltar,
até que o meu coração chora para
pertencer
ao antigo entardecer dos domingos em casa,
com o inverno lá fora
e hinos na aconchegada sala de visitas,
o tinido do piano o nosso guia.

Por isso agora é em vão que a cantora irrompe em clamor
com o appassionato do grandioso piano negro. A magia
dos dias infantis está em mim, a minha masculinidade
é desencorajada no fluxo da lembrança,
choro como uma criança
pelo passado.

D.H.Lawrence
(trad. de Cecília Rego Pinheiro)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.1.10

Há sol na rua

Há sol na rua
Gosto do sol mas não gosto da rua
Então fico em casa
À espera que o mundo venha
Com as suas torres douradas
E as suas cascatas brancas
Com suas vozes de lágrimas
E as canções das pessoas que são alegres
Ou são pagas para cantar
E à noite chega um momento
Em que a rua se transforma noutra coisa
E desaparece sob a plumagem
Da noite cheia de talvez
E dos sonhos dos que estão mortos
Então saio para a rua
Ela estende-se até à madrugada
Um fumo espraia-se muito perto
E eu ando no meio da água seca.
Da água áspera da noite fresca
O sol voltará em breve

Boris Vian

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

17.1.10

Eu só confio nas pessoas loucas,
aquelas que são loucas para viver,
loucas para falar, loucas para serem salvas,
desejosas de tudo ao mesmo tempo,
que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira,
mas queimam, queimam, queimam,
como fabulosas velas amarelas romanas
explodindo como aranhas através das estrelas.

Jack Kerouac

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

16.1.10

Encontro

Amo-te
para lá das fronteiras do teu corpo.

Dá-me
os espelhos e as alegres libélulas,
a luz e o vinho,
o céu alto e o largo arco da ponte.

Dá-me os pássaros e o arco-íris
e repete o último caminho na tua pintura.

Amo-te
para lá das fronteiras do meu corpo.
Ali, na distância,
onde se acaba a missão dos corpos,
o sossego da chama e a paixão, os latidos
e os desejos,
e cada sentido deixa o clichê das palavras
como a alma que abandona o cadáver
no final da viagem para que desapareça
no festim dos abutres.

Amo-te
para lá das fronteiras do amor,
para lá dos lenços e das cores.
Para lá dos nossos corpos,
promete-me um encontro.

Ahmad Shamlú
(trad.Vasco Gato)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

15.1.10

Aula de pintura

Enquanto enrubesço
me ensina a pintar com o corpo
me ensina a perder os medos
e a poder sujar as pontas dos dedos
as unhas e as palmas das mãos
nas tintas de todas as cores
enquanto enrubesço em vinho tinto
sê meu mestre
amor.

Cyana Leahy-Dios

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

14.1.10

Entardecer

Amanhecem em mim
todos os dias quentes
de um tempo que já vivi.

Em que virgem me fiz mulher,
mãe-menina de mil solidões,
embalada no sonho
que é a vida aos turbilhões.

Amanhecem em ti
gaivotas no olhar,
plenas de liberdade
voando em dias serenos
de marés azuis e corais floridos
de águas profundas
longe das multidões…

Entardecem em nós,
momentos fulgurantes
em esvoaçares constantes
de ave roçando o azul
do imenso infinito
onde a eterna melodia
tocará até ao nascer do dia.

E da janela da vida
o sol quente, suavemente...
num mar calmo de ilusões
Entardeceu…

Otília Martel

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

13.1.10

Se eu morrer de manhã

Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.

Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.

Rosa Lobato Faria

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.1.10

Na sequencia do sonho

Hoje amanheci entre a incoerência do sonho e a realidade.
O eco dos meus passos passeiam sozinhos pela semi-desperta casa
onde janelas e portas abertas expandem letras em palavras
desunificadas.
Tacteio o telhado intacto pelas raízes e ninhos de longos cabelos
dos pássaros.

Talvez voe
Talvez paire
Talvez caminhe no deserto das areias que embalam
Ou me quede pelo silencio ou pelo nada
Se de ninguém o eco dos passos são parte

No interregno do sonho (in)acabado
bordo em azul, ervas, folhas e braços
nas árvores que me passam, em dolência, cantares
ritmados rimados
na suave sonoridade da harpa
no timbre certo que dedos alcançam

Por vezes amanhecemos no eco dos passos…

Reajo
E sob as vozes de Mendelssohn no piano sofisticada e
de Rachmaninov no violoncelo o equilíbrio da sonata,
me banho no lago das águas límpidas e claras

Apaziguada
desfloro sorrisos em pétalas de rosas brancas
e na sequencia do sonho danço o eco dos passos

Fátima Fernandes

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

11.1.10

Sem me desfazer procuro escutar o silencio

Chego em silencio
sinto o sol nas veias.

Uma brisa lava o meu rosto
tenho sede de mar.

Deito-me na areia
naquela frescura azul.

Caminho em palavras
ligada ao mar e ao sol.

O dia é um vazio entre os espaços
fico indecisa e ardente.

Sinto-me perdida entre os ventos
ouço vozes na penumbra desse vazio.

Sei o que amo
e amo num abandono total.

Sou alguém que espera,
a que pergunta e responde.

Uma esperança impossível,

A que caminha no repouso
do seu próprio silencio.
O meu.

Lena Maltez

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

10.1.10

Essência da saudade

Passaste por mim
de madrugada
etérea, levemente
e foste sombra
Assim te perdi
quando entraste
na luz da manhã
Sinal visível
da tua passagem
a rosa vermelha
deixada no chão
do meu peito

Manuel Martins Gaspar Tomé

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.1.10



¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Rebeldia

Odeio o uso do modo imperativo.
Se me dizem, cala-te! eu canto.
Se me dizem esconde-te! eu exponho-me.
Quando me ordenam que me vista, me desnudo.
Se me mandam expor, vou pro meu canto.
Quando me querem falante, eu sou muda.
Se me fazem gritar, eu silencio.
Se me tentam excitar, eu fico queda.
Se me querem gelada, fico em cio.

Sou égua de raça pura e alma leda,
Crinas ao vento e ventas de fome,
À espera de um jokey que me dome.

Quem julga que me domou, bem se engana.
Que eu só sonho... na minha própria cama.

Maria Seixas

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.1.10

A meias

Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo
um cigarro e tu fumas do
meu cigarro dizes
- tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha por isso
fumas do meu. Dá-te
gozo esse roubar
de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.

João Luís Barreto Guimarães

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

7.1.10

Aparecer

Rompes a casca
frágil
mostra-te

não há o que temer
além da tua imagem
aflorada

essa
já conheces
desde o início.

Pedro Du Bois

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

6.1.10

Luz do dia

- Não me olhes desse modo - pediu ela. - Já não sou jovem...
Kikuji atirou-se a ela como se a quisesse morder.
Enfim - a onda inicial retornava, onda de desejo e ternura - e ele, por um tempo, adormeceu tranquilo.
Depois, meio acordado, meio adormecido, ouviu o chilreio dos pássaros - e foi então tomado pela sensação de que as aves, pela primeira vez, o despertavam com o seu canto.
Uma neblina matinal umedecia as plantas na varanda. Kikuji sentiu que alguma coisa limpava os recantos da sua alma.
Assim se ficou sem pensar em mais nada...

Yasunari Kawabata

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

5.1.10

O sol da tarde

Este quarto, como o conheço bem.
(...)
Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.
... de tarde, quatro horas, tinhamos nos separado
por uma semana só... Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.

Konstandinos Kavafis
(trad. Joaquim M. Magalhães e N. Pratsinis)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

4.1.10

No côncavo da mão o sol nascia...

E agora: a tua pele.
Revejo: é manso o mar.
E sei que o vento corre e que por ele
se colam no teu corpo lembranças de luar.

Descanso: os teus cabelos.
Entrego: já é dia.
Os caules são serenos, e ao vê-los
no côncavo da mão o sol nascia.

Pedro Támen

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.1.10

Contra-senso

Oh! meu amor, escuta, estou aqui.
Pois o teu coração bem me conhece:
eu sou aquela voz que, em tanta prece,
endoideceu, chorou, gemeu por ti!

Sou eu, sou eu que ainda não morri
– nem a morte me quer ao que parece –
e vinha renovar, se inda pudesse,
as horas dolorosas que vivi.

Oh! que insensato e louco é quem se ilude!
Quis fugir, esquecer-te, mas não pude...
Vê lá do que os teus olhos são capazes!

Deitando a vista pelo mundo além,
desisto de encontrar na vida um bem
que valha todo o mal que tu me fazes!

Marta de Mesquita da Câmara

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.1.10

Mais um soneto para Helena

Quando chegar o tempo de teus últimos dias,
Ronsard o disse em verso e Neruda repetiu,
lerás tranquilamente um caderno de poemas
que em outras primaveras um tal Jorge te escreveu.

Tuas amigas indagarão: Quem te deu essas poesias
de aspecto envelhecido que sempre estas lendo?
O sol resplandecerá e entrará pela janela
e ainda as andorinhas em tua sacada aninharão.

Lembrarás sorrindo nossas cotidianas alegrias,
uma infinita tesura invadirá teu coração,
se encherão teus olhos de um brilho perspicaz...

E com um velho fogo reacendido nas veias,
e sentindo outra vez meus beijos acarinhando-te os lábios,
“um homem que me amou” simplesmente dirás.

Jorge Luis Gutiérrez

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.1.10

Primeira Hora

O ano desfolhou-se, dia a dia,
como uma flor cortada, um girassol,
e dia a dia a sua voz calou-se
como velha cansada melodia
de velho rouxinol.

Ontem, à meia-noite, a minha rua
abriu de par em par as portas, as janelas,
e deitou fora o lixo, as coisas velhas:
cacos, farrapos, latas e panelas.

Era a Primeira Hora
do ano que chegava.
-- E eu?-- pensei -- que posso deitar fora?
Que poderemos todos deitar fora?

Ai, Senhor, tanta coisa!
Nem cacos, nem farrapos,
nem latas velhas nem trapos
mas tanta dor,
Senhor,
mal empregada!
Tantos gestos errados,
as pequenas traições,
os pequenos pecados.
As calúnias subtis,
as flores venenosas
da alma envenenada,
e a cicatriz
da culpa inconfessada,
e as palavras que ferem como gumes
de afiadas adagas.

Ressentimentos, azedumes
que Te fazem sangrar as Cinco Chagas.
As larvas dos ciúmes
e as cobras rastejantes
dos pensamentos impuros.
Egoísmos sem fim
e os altos muros
das torres de marfim.
Descrença,
indiferença,
despeitos recalcados,
amassados com ódio, com rancor,
e o amargo sabor
da solidão.

Ah, Senhor, nesta hora de perdão,
nesta Primeira Hora,
quantas coisas podemos deitar fora!

Fernanda de Castro

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
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