"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


31.1.13


Underwater

Afundei-me na banheira e descobri que as lágrimas não se misturam com a água quente perfumada com sais de banho... a espuma fica por cima e as lágrimas caem como pedras em charcos de água. A água quente a correr na banheira não me aquece. Se o meu coração for já uma pedra vou ao fundo e sei que não me ouvirás chorar por ti. 

  Felisbela Fonseca 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

30.1.13


 
 Não sei se era aqui que era suposto chegar, se era este o lugar, se era este o tempo. Cheguei à esquina onde a vida dobra, à foz dos atalhos onde os caminhos novos se fazem e sei que tenho pouco tempo para dar o primeiro passo, o derradeiro, aquele que fará com que tudo o que fica para trás faça sentido, mesmo que sejam só atalhos menores. Não tenho tempo para pensar e o precipício que se adivinha em cada passo errado faz-me engolir em seco, faz-me fechar os punhos com muita força, faz-me inspirar lentamente para conseguir manter convicções. 

  Felisbela Fonseca

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26.1.13


Regresso 

Não vim à procura de nada
Nem de saudades que não tenho
Nem de carga do tempo perdido
Nem de conflitos sobrenaturais
Do tempo e do espaço

Amei desde criança
Certas coisas que não choro
Fui a pureza deslumbrada que não volta jamais
O vidro sem ranhura que o sol atravessa
A pureza
Que me deixou feridas imortais

Vim para ver
Para ver de novo
Para contemplar sem perguntas
Não vim à procura de nada
Não me perguntem por nada
Um rio não se interroga
O vento não se arrepende

 Alberto de Lacerda

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24.1.13


A furtiva alegria 

Acumulo
retratos desfocados
viagens dispersas danos
moratórias

Mas também a ciência animal
de lamber as feridas, a furtiva alegria
a caminho da noite para matar
a sede na corrente.

 Inês Lourenço

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23.1.13


Era música ao longe 

era música
ao longe
suave
penetrando em nossos
sentidos
nossos corpos
se misturando
transformando
num só corpo...

depois
quedamos
em silêncio
num abandono
lasso

ficou
o momento...

mesmo distante
sinto o calor
dos seus abraços
sua pele colada
a minha
seu suor
misturado
ao meu

seus toques
explorando
meus segredos
que deixaram
de ser...

 Angela Nassim 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.1.13


Fases 

Amanhece...
E o brilho do sol
Invade-me inteira
Despertando a mulher adormecida,
A criança marota,
A menina inocente...

Na tarde que desce
Por do sol no horizonte
A brisa calma
Entristece a mulher ferida,
A criança inquieta
A menina carente...

Na noite que avança
O escuro do nada
Domina minh'alma
E esconde a mulher selvagem
A criança perdida
A menina calada...

 Débora Böttcher 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.1.13


 
Estou sozinho de olhos abertos para a escuridão. Estou sozinho.
Estou sozinho e nunca aprendi a estar sozinho. Estou sozinho.
Sinto falta de palavras. Estou sozinho. Estou sozinho.
Sinto falta de uns olhos onde possa imaginar. Estou sozinho.
Sinto falta de mim em mim. Estou sozinho. Estou sozinho.

Estou sozinho.

José Luís Peixoto

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

17.1.13


Mulher ao espelho 

Hoje que seja esta ou aquela, 
pouco me importa. 
Quero apenas parecer bela, 
pois, seja qual for, estou morta. 

Já fui loura, já fui morena, 
já fui Margarida e Beatriz. 
Já fui Maria e Madalena. 
Só não pude ser como quis. 

Que mal faz, esta cor fingida 
do meu cabelo, e do meu rosto, 
se tudo é tinta: o mundo, a vida, 
o contentamento, o desgosto? 

Por fora, serei como queira 
a moda, que me vai matando. 
Que me levem pele e caveira 
ao nada, não me importa quando. 

Mas quem viu, tão dilacerados, 
olhos, braços e sonhos seu 
se morreu pelos seus pecados, 
falará com Deus. 

Cecília Meireles

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16.1.13


Mulheres à beira-mar

Confundido os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.

Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu
branco.

Com a boca colada ao horizonte aspiram longa
mente a virgindade de um mundo que nasceu.

O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.

E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de
ser tão verde.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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15.1.13


Amor 

 Era verdade que havia muito tempo - quanto, não seria capaz de precisar - superara a angústia de não poder ser mais do que era para ele. (...) Agora, ali estavam os dois, deitados lado a lado, banhados por uma paz maravilhosa, não a paz da resignação mas a paz da plenitude. Benedetta tinha tudo o que desejava dele. Não lhe importava que os outros pudessem pensar que era bem pouco: preenchia a sua vida e fora-lhe oferecido com uma generosidade tão absoluta como a do amor. (...)
- Não foi um beijo para uma esposa, uma amante, uma mãe, uma irmã ou uma filha - disse, por fim, extasiada.
- Não, foi um beijo só para vós. Para a minha doce amiga... do mais grato dos amigos, para a mais sincera e terna de todas as doces amigas.

   Edith Pargeter

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14.1.13


 
  A bicicleta 

O meu marido 
saiu de casa no dia 
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta 
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro, 
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde, 
blusão cinzento, tipo militar, e calçava 
botas de borracha e tinha chapéu cinzento 
e levava na bicicleta um saco com uma manta 
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo 
e uma panela de esmalte azul. 
Como não tive mais notícias, espero o pior.

Alexandre O'Neill

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

13.1.13


 
  Ai, Helena! 

Ai, Helena!, de amante e de esposo 
Já o nome te faz suspirar, 
Já tua alma singela pressente 
Esse fogo de amor delicioso 
Que primeiro nos faz palpitar! ... 
Oh!, não vás, donzelinha inocente, 
Não te vás a esse engano entregar: 
E amor que te ilude e te mente, 
É amor que te há-de matar! 
Quando o Sol nestes montes desertos 
Deixa a luz derradeira apagar, 
Com as trevas da noite que espanta 
Vêm os anjos do Inferno encobertos 
A sua vítima incauta afagar. 
Doce é a voz que adormece e quebranta, 
Mas a mão do traidor... faz gelar. 
Treme, foge do amor que te encanta, 
É amor que te há-de matar.

Almeida Garrett 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.1.13


 
  Retrato de mulher triste 

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

  Cecília Meireles

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

11.1.13


A Tout Seigneur 

No teu pescoço esbelto de morena
Usas, às vezes, um decote em vê.

Essa letra, porém, é tão pequena
Que mal se lê,
Que mostra apenas, dentre o que escondeu,
Uma nesga inestética e minúscula.

Ora um colo como o teu…
Merece letra maiúscula.

 Augusto Gil

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

10.1.13


   Três rosas 

Sempre, mas sobretudo nas brumosas
Horas da tarde, quando acaba o dia,
Quando se estrela o céu, tenho a mania
De descobrir, de ver almas nas cousas.

Pendem deste gomil três lindas rosas;
Uma é rosada, a outra branca e fria,
Rubra a terceira; e a minha fantasia
Torna-as humanas, vivas, amorosas.

Sei que são rosas, rosas só! mas nada
Impede, enquanto cai lá fora a chuva,
Que a minha mente a fantasiar se ponha:

Por ser noiva a primeira, é que é rosada;
Branca a segunda está, por ser viúva;
A vermelha pecou... e tem vergonha!

Eugénio de Castro

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.1.13


 
  Versos de amor 

Ergo os olhos
apuro os ouvidos
escuto o tempo
apanho o batom
Meço as palavras
conto as letras 
acanhada desenho-as

... Uns cem versos
de amor por amor 
suspiram no espelho

  Valentina Diadory

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.1.13


 
  Terror

(…)

Não sei se são os trinta anos, a chuva,
o sabor de mais um dia derrubado
nos transportes coletivos,
a queda maligna das primeiras folhas;
não sei o que é, talvez o teu amor
comece, pouco a pouco, a civilizar-me.
Agora, se chego em casa e tu não estás,
corro a pôr música, abro janelas,
agarro-me ao telefone, como um náufrago,
incapaz de suportar por um segundo
o terror emboscado debaixo da cama,
atrás das estantes, dentro de mim.

 José Miguel Silva

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

7.1.13


não lido bem com silêncios
palavras não ditas
me consomem
como fumaça quente na garganta

o pio preso de um pássaro
é um verso não dito

o silêncio
arrasta correntes nas multidões
e você
dorme o sonho dos justos

é justo
ser livre
para sonhar bonito
assim

seu ronco inesperado
é prenúncio de novo dia

alegria estar à seu lado
e te ouvir poesia
no travesseiro ao lado

 Juliana Hollanda

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

6.1.13


 Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
... As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti.

  Rui Costa 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

5.1.13


 Eu não voltarei. E a noite
morna, serena, calada,
adormecerá tudo, sob
sua lua solitária. 

Meu corpo estará ausente,
e pela janela alta
entrará a brisa fresca
a perguntar por minha alma. 

Ignoro se alguém me aguarda
de ausência tão prolongada,
ou beija a minha lembrança
entre carícias e lágrimas. 

Mas haverá estrelas, flores
e suspiros e esperanças,
e amor nas alamedas,
sob a sombra das ramagens. 

E tocará esse piano
como nesta noite plácida,
não havendo quem o escute,
a pensar, nesta varanda.

  Juan Ramón Jimenéz

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

4.1.13


 
  Segredo 

É este o meu segredo -
fechar-me, calar-me, adormecer espantosamente.

Sem mover os dedos,
sem abrir os lábios,
irei devagar, mais tarde, à hora do sol que se
apaga,
à beira de um rio negro,
quando o coração pára.
Serei apenas um homem sem nome,
caminhando ao acaso, pelas ruas de uma cidade
que devora a sua luz.

Não quero ser mais nada.
Sou a estátua cega, sou de dentro, e por dentro
me perdi.

 José Agostinho Baptista

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.1.13


Mas eu gostava dele,
dia mais dia, mais gostava. 
Digo o senhor: como um feitiço? 
Isso. 
Feito coisa-feita. 
Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. 
Era ele fechar a cara e estar tristonho,
e eu perdia meu sossego.

 Guimarães Rosa

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.1.13


O silêncio dos amantes 

Valentim era, como eu, sozinho. Eu tinha sido traída por uma pessoa, ele pelo destino. Mas, ao contrário de mim, não conseguia deixar partir de verdade quem se fora.
Eu sabia que era preciso tempo. Cada perda tem sua hora de acabar, cada morto seu prazo de partir, e não depende muito da vontade da gente. Ele não estava curado.
(…)
Acordo com Valentim ao meu lado. Passo de leve a mão em seu rosto adormecido, acompanho com o dedo o contorno de sua boca, beijo seu ombro e me aconchego mais nele: aqui é o meu lugar no mundo. E o dele também. Do nosso jeito, estamos construindo – mais uma vez – a vida.
A dor faz parte.

 Lya Luft

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1.1.13


 
 Claraboia VI

Estava só. O cigarro ardia lentamente entre os dedos. Estava só como três anos antes, quando conhecera Paulino Morais. Acabara-se. Era preciso recomeçar. Recomeçar. recomeçar...
Devagar, duas lágrimas brilharam-lhe nos olhos. Oscilaram um momento, suspensas da pálpebra inferior. Depois, caíram. Só duas lágrimas. A vida não vale mais que duas lágrimas.

José Saramago  

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
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