"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


9.12.16


a banalidade e o despropósito

todo dia acordo do mesmo lado,
desço a mesma escada, e o som dos meus passos repetitivos me diz:
  onde...? onde...? onde...?
todo dia atravesso a mesma praça,
na partida e na chegada, e o canto dos pássaros nas árvores me diz:
  quando...? quando...? quando...?
todo dia eu pego o mesmo ônibus, que me leva e me traz, e o murmuro das pessoas nos bancos me diz:
   como...? como...? como...?
toda noite, eu durmo e sonho com as múltiplas possibilidades
 para os muitos onde, quando, como...
quando acordo pela manhã, os sonhos se recolhem ao esquecimento,
 para que a vida possa recomeçar de novo, sem onde, quando e como.

Margoh Werneck
(photo Gloria Swanson) 

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2.12.16


Cansada de mim

Foi domingo e não descansei.
Foi domingo e não dancei.
Foi domingo e não amei.
Louvei deus nenhum.
Mortal comum,
cruzei dois dedos
e fingi acreditar.
Passou a manhã,
passou a tarde,
anoiteceu.
Os segundos como grainhas
de romãs, difíceis de descascar.
De chinelos e pijama de flanela
jantei com o gato
e flores na mesa,
dálias amarelas
a envelhecer devagarinho.
E o dia esteve bonito,
apesar do frio,
é dezembro, que se lhe há-de fazer.

 Raquel Serejo Martins
(photo Jane Fonda)

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1.12.16


A solidão

A solidão
de Adão
antes da criação
de Eva
devia ser
terrível
mas a minha
é bem pior
os homens
que escreveram
o Génesis
não pensaram
que Adão
em vez de saudar
Eva
com um grito de júbilo
a mandasse embora
com sete pedras na mão
mas eu acho
que foi
o que me aconteceu
temendo isso
Deus
não me deu
o papel de Eva
nem o de Maria
porque também
S. José
me tinha corrido
a pontapé.

 Adília Lopes
(photo Shelley Fabares)

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30.11.16


Sobre espelhos

Em menino, eu tinha medo dos espelhos. O meu temor era que a imagem reflectida se movesse sozinha ou, por exemplo, que o meu corpo fizesse coisas que eu não lhe ordenava. (…) Deste temor insuperável a cegueira libertou-me. 

 Não me agradam nada ou agradam-me demais. Agora, claro, livrei-me deles. Porque a cegueira é um modo drástico de apagar os espelhos. 

  Jorge Luís Borges
(photo Buster Keaton)

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29.11.16


Restaurante 

Leva-me outra vez para a mesma mesa
onde fico de costas para a janela
onde o tempo me esquece
onde nada me toca
o teu gesto protege
o teu corpo separa
a água que me dás
interrompe a memória

Só à porta da rua
o tempo reaparece.

Yvette Centeno
(photo Fred MacMurray and Carole Lombard)

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28.11.16


Os dias normais

Chegam
e vão-se
sem deixar rasto,
e tu ficas a vê-los
a afastarem-se sobre os telhados
- e com eles, os anos -
e apenas sentes nada
ou sentes algo, vago,
que não sabes
decifrar.

São os dias
normais, os de sempre,
os que parece que passam
à distância,

os assassinos
do amor.

 Karmelo C. Iribarren
(photo Jean-Paul Belmondo)

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11.11.16


Classificar 

 Avento farinhas de mesmos sacos, desfaço o bolo ainda quente, minhas mãos crispam a forma na fornalha da ignorância: não aprendo a lição da humanidade no esforço de me lançar ao centro da controvérsia; sou o resumo do jornal de domingo em cadernos imensuráveis; talvez me anuncie em econômicos classificados: terça-feira estou ofertado ao nada. Compareçam.

  Pedro Du Bois
(photo James Dean)

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9.11.16


Vida é caleidoscópio. 
De nada adianta girarmos o cilindro devagar. 
Tanto cuidado para quê? 
Quando menos esperamos os cacos de vidro desabam uns nos outros e formam o imprevisível desenho. 

  Francisco Azevedo 
(photo Audrey Hepburn)

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8.11.16


3x4

Passar a limpo os cinco sentidos. 
Apagar com sono e borracha
 para usar -todos- 
 novos em folha
 de novo: 
 sem luvas, óculos, fones, 
 perfumes de meio ambiente 
 e com a boca livre de lembranças. 

  Armando Freitas Filho
(photo Gene Tierney)

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5.11.16


Sempre-viva

Quando nasci tive sete irmãos 
Enquanto vivi sete amores 
 Ao longo do caminho carreguei sete chaves 
E abri sete portas 
Quando chegar a hora, morrei como quem teve sete vidas.

  Beth Ameida
(photo Claudia Cardinale)

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4.11.16


Desejo-te Tempo 

Não te desejo todos os bens do mundo,
Apenas te desejo aquilo de que gosto mais:
Desejo-te tempo – para sorrires, para rires.
Usa-o bem – podes vir a conseguir.

Desejo-te tempo para acções e pensamentos,
Não só para ti, mas também para os outros.
Desejo-te tempo, não para pressas e correrias,
Mas para te instalares, ai, onde pertences acima de tudo.

Desejo-te tempo, não para esbanjares,
Mas para teres e conservares, deixando algum de sobra
Para te emocionares perante a vida, para confiares no seu curso,
Em vez de seguires o ritmo inflexível das horas.

Desejo-te tempo para alcançares as estrelas
E tempo para cresceres, para seres quem és.
Desejo-te tempo para esperanças novas, para amares de novo.
Pois não adianta deixar esse tempo para depois.

Desejo-te tempo para te encontrares,
Para encher cada dia, cada hora, de alegria.
Desejo-te tempo para esqueceres o que precisas.
Desejo-te: tempo para viveres!

  Elli Michler 
(photo Maude Fealy)

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29.10.16


Parti

Sim, 
há uma ausência. 

 E como quem procura a lógica 
saio ao encontro da possível 
existência de mim. 

 Sem mais, 
parti. 

  Taninha Nascimento
(photo Carole Lombard)

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22.10.16


Mora em mim um silêncio confuso. É engraçado como ele ultrapassa os limites e passa de delicado para saudoso, insano, raivoso, intempestivo, contemplativo, resoluto e egoísta. Mora em mim um silêncio banal, exagerado, distraído, sutil. Meu silêncio é catarse, libertino. Meu silêncio é um grande palavrão. 

  Ita Portugal 
(photo Paulette Goddard)

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14.10.16


Parti[tura] 

 Afino os sentimentos 
Orquestro as palavras 
No silêncio busco a melodia mais pura 

 Quando minha alma se parti[tura]... 
Toco a poesia 

  Wania Victoria
(photo Grace Kelly)

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13.10.16


Nudez indesejada

Rompo o branco desta paisagem com tinta preta, em gel. Preto e gelatinoso tem sido também o meu pensamento desde que o vi completamente nu, sem o seu cavalo branco. Uma linda e frágil silhueta surgiu: a força, a imponência, a altivez cederam espaço. Onde estaria a armadura medieval, o aparato de guerra? O que fazer com a ausência de roupas? Eu já não as uso há um bom tempo, sei bem lidar com a minha nudez; não com a sua. Melhor vestir-se! Faz frio - não saberia como protegê-lo, sei apenas rezar. 

  Lou Vilela
(photo Yul Brynner)

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3.10.16


Desmistificação

Não sou um ser macio como a água distraída sem um som em que me apoie na lâmina dos ventos ou do vago rumor entre duas ondas; não sou um ser gentil, dizia. 
Sou uma guerreira. 

  Olga Savary 
(photo Sophia Loren)

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1.10.16


Cicatriz

Uma ferida fala 
o doloroso e lento 
idioma das esperas.
 
 Na noite azul de oferendas 
o corte no sorriso 
cansado de só… 

 A solidão é uma cicatriz 
que anda pelo corpo. 

  Wender Montenegro
(photo Greta Garbo)

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28.9.16


medo

eu tenho um medo. guardado na gaveta de baixo, bem no fundo, com corrente e cadeado. eu tenho um medo trancado. debaixo das revistas velhas. dos cadernos usados. dos livros já lidos. dos papéis amarrotados. eu tenho um medo escondido. pior que de escuro, lugar alto, homem do saco. um medo segredo. o mesmo, desde pequeno. desde a oração cochichada. da febre sob as cobertas. do sinal da cruz no meio da noite. o mesmo desde sempre. um medo que me persegue. me atormenta. me atrapalha. que aparece no canto do quarto. no abrir dos armários. em vulto pelos corredores. em visão pela casa vazia. miragem pela praia deserta. ruído no meio do silêncio. grito durante a madrugada. eu tenho um medo morto. ressuscitado. um medo tantas vezes enterrado. mas que sempre volta. que cava a terra ao contrário. para acabar comigo e ser mais uma vez trancado. escondido na gaveta de baixo, com corrente e cadeado. um medo que sempre escapa. foge. eu tenho um medo que sempre espera minha chegada, sorrindo. bem no meio da sala. 

  Eduardo Baszczyn
(photo Buster Keaton)

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26.9.16


Monotonia

Começar, recomeçar, interminantemente repetir um monótono romance, o romance da minha vida. Com palavras iguais, inalteráveis, semelhantes, in- sistir sobre o cansaço e a pobreza disto de viver... Andar como os dementes pelos cantos a repisar o que já ninguém quer ouvir. Levar o meu desprecioso tempo à deriva. Queixar-me, castigar e lamentar sem qualquer esperança, por desfastio. Pôr a nu uma miséria comum e conhecida, chã- mente, serenamente, indiferente à beleza dos temas e das conclusões. Monotonamente, monotonamente. Monotonia. Arte, vida... Não serei ainda eu que te erigirei o merecido altar. Que te manejarei hábil e serena. Monotonia! Gume frio, acerado, tenaz, eloquente. Sino de poucos tons, impressionante. Mas se te descobri não te vou renegar. Tu ensinas-me, tu insinuas-me a arte da verdade, a pobreza e a constância. Monotonia, torna-me desinteressada.

  Irene Lisboa
(photo Monica Bellucci)

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