"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


17.12.17


A cada palavra que te digo, surpreendo-me. 
E sinto por mim o desprezo que deveria ser teu. Odeio-me. Mas não consigo parar de falar, forço-me a continuar. Porque sei: quando parar, restará apenas o silêncio. Nada mais nos unirá. Na verdade, estas palavras são tudo o que temos, o que ainda nos une, a nossa única possibilidade. Nada mais existe, nada mais somos. 
Apenas palavras. 

  Paulo Kellerman
(photo Georg Wilhelm Pabst & Louise Brooks)

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14.12.17


Não ando na rua. 
Ando no mundo da lua, 
falando às estrelas. 

  Helena Kolody
(photo Hedy Lamarr)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.12.17


Rebeldia 

 Soltem-me as algemas
 Quero a minha alma livre
 meu corpo livre
 meu pensamento livre 

 Esbofetear o mundo 
 e cuspir na vida. 

  Manuela Amaral 
(photo Katharine Hepburn)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

4.12.17


Constatação

Constato a solidão,
inteira, completa,
que, por desleixo,
nunca havia notado,
embora ela sempre
tenha sido minha
mais fiel companheira.

Alfredo Rangel
(photo Olivia de Havilland)

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30.11.17


Xeque mate 

Caem-lhe as peças de xadrez do tabuleiro derrubadas por movimentos mal calculados. Ouvem-se no andar de baixo a embaterem no soalho e calarem-se num som trémulo, quase um lamento. Ele apanha-as e volta a colocá-las nos lugares de que se lembra. Sabe que erra os lugares, principalmente quando cai mais do que uma peça. Sabe também que não importa. Como não importa quem ganha ou quem perde, ele ou o outro que com a sua mão joga do outro lado. Importante é não parar de jogar.

Cansar a noite, cumprir a vida, deitar-se para amanhã recomeçar.

 Jorge Roque
(photo James Dean)

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28.11.17


Metade 

O que se vê em mim
não é o todo:
escondo gestos.
O que se sabe de mim
(ainda) não é tudo:
escondo datas
Metade que nem eu mesmo sei
mais corrói do que vive e cresce:
e silenciosamente é uma doença
(e não me esquece).

Convivo como caça e caçador
dentro de mim:
uma hora me acho
a outra não me aceita
e sou metade do rosto desenhada
a outra metade desfeita.

 Nirton Venancio 
(photo Sylvia Sydney)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.11.17


Oração da dança

Louvada seja a dança
porque ela liberta o homem
do peso das coisas materiais,
e une os solitários
para formar sociedade.

Louvada seja a dança,
que tudo exige e fortalece,
saúde, mente serena 
e uma alma encantada.

A dança significa transformar
o espaço, o tempo e a pessoa,
que sempre corre perigo
de se desfazer e ser ou somente cérebro, 
ou só vontade ou só sentimento.

A dança porém exige
o ser humano inteiro
ancorado no seu centro,
e que não conhece 
a vontade de dominar
gente ou coisas, e que não sente
a obsessão de estar perdido 
no seu próprio ser.

A dança exige o homem livre e aberto
vibrando na harmonia de todas as forças.

Ó homem, ó mulher, aprenda a dançar
senão os anjos do céu
não saberão o que fazer contigo.

Augustinus (Santo Agostinho) 
(photo Ginger Rogers & Fred Astaire)

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22.11.17


clarice

quando saio de mim
por aí
encontro
o outro
eu, e os outros
eus,
including clouds

 Karina Rabinovitz
(photo Vivien Leigh

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21.11.17


Numa tarde nublada de Novembro

Eu desmaio e perco os pés,
mas tu já sabes.

Então, abro os olhos
e te sorrio.

Os dias não mudam mais,
mas o calendário avança
e eu sei.

A tarde, tu perguntas
se estou bem;
A noite, tu me vês.

Tu sabes, da varanda
as nuvens encharcadas
alcançam o outro lado
do espelho.

As horas crescem.

E tudo isto faz dos teus cabelos
uma lembrança terrível, para onde
eu espero que este vento me carregue.

Victor Prado 
(photo Louise Brooks & Michael von Newlinsky)

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20.11.17


Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos. 
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas. 

  Mário Quintana 
(photo Bette Davis)

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18.11.17


Tu eras o vento 

Sou um barco
sem vento.
Tu eras o vento.
Era esse o rumo que eu devia seguir?
A quem importa o rumo
com um vento assim!

 Olav H. Hange 
(photo Marcello Mastroianni)

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17.11.17


Cantos para Helena (XXII)

De todas as suas roupas, Helena
guardei as que não me serviriam
as que trariam, perpetuado
o desenho do teu corpo

as verdadeiras heranças
não são moedas de cobre

são mantos tecidos
entre os nós dos seus dedos
 - as pequenas colchas de retalhos
que nos cobrem

 Andrea de Godoy Neto
(photo Bobby Breen and Louise Beavers)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

14.11.17


Absurdo! 

O meu coração é um absurdo
bate forte
bate fraco
bate surdo-mudo
bate por nada
bate em vão
bate por tudo
o meu coração...

 Itamar Assumpção
(photo Dolores Costello) 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.11.17


Sem minha mãe, acho que jamais teria me saído bem na pantomima. Ela possuía a mímica mais notável que já vi. Às vezes, ficava durante horas à janela olhando para a rua e reproduzindo com as mãos, os olhos e a expressão de sua fisionomia tudo o que se passava lá em baixo. E foi observando-a assim que eu aprendi não somente a traduzir as emoções com as minhas mãos e meu rosto, mas sobretudo a estudar o homem… 

  Charles Chaplin
(video Metamorphosis of Charlie Chaplin) 

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11.11.17


Fuga 

Era noite e o céu estava em mim.

Quando olhei para dentro de mim mesmo
-só vi o rasto de meu próprio espírito,
só ouvi o eco de meus passos perdidos. . .

Aonde fui que não me lembro?

 Christovam Colombo de Souza 
(photo Frank Sinatra)

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10.11.17


Eu leria Drummond ao teu ouvido

olha...
quem sabe eu possa ser mais chão
menos vastidão
quem sabe tu possas ser mais asas
menos casa

e, então, eu convido
tua língua a me provar em grego
enquanto leio Drummond ao teu ouvido

Andrea De Godoy Neto
(photo Kirk Douglas & Lauren Bacall)

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8.11.17


A minha memória não é uma fonte de sofrimento. Certas partes são como uma loja de penhores, outras como um aquário, outras como uma despensa. Julgo que há um sítio onde a memória se distorce como as imagens nos espelhos de feira e é essa a área que mais me interessa. 

  Tom Waits
(photo Carole Lombard)

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7.11.17


Me dê as flores em vida; o carinho, a mão amiga, para aliviar meus ais. Depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidade, quero preces e nada mais. 

  Guilherme de Brito
(photo Buster Keaton)

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6.11.17


As rosas 

 Quando à noite desfolho e trinco as rosas 
É como se prendesse entre os meus dentes 
Todo o luar das noites transparentes, 
Todo o fulgor das tardes luminosas, 
O vento bailador das Primaveras, 
A doçura amarga dos poentes, 
E a exaltação de todas as esperas. 

  Sophia de Mello Breyner Andresen 
(photo Lily Elsie)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

5.11.17


Velho retrato 

Ah... aquela imagem difusa,
quase apagada, quase esquecida,
teus olhos quase sombrios,
o sorriso ainda claro,
o mistério, eterno,
tão presente.

Ah... aquela falsa realidade,
aquela ausente presença,
hoje,
só um borrão...

Alfredo Rangel
(photo unknown)

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4.11.17


tristeza 

fosse apenas saudade não
seria a
cama tão fria nem tão
curtas as
madrugadas

esta dor pelo corpo
inteiro sem começo nem
fim

 Adair Carvalhais Júnior
(photo Pola Negri)

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3.11.17


é um tempo de cinza, este que vivo sem ti. é um tempo nulo, este que atravessa os dias de espera. tempo de cardos no coração. tempo que se amachuca numa folha de papel escrita. nada, a não ser a respiração que acredito ser minha. 
o mundo desfaz-se apressadamente. 

  Al Berto
(photo Buster Keaton)

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2.11.17


Sem ti

Se te contarem que me viram muito bêbado,
não é por ti.
(por ti embriago-me belo,
depois do vinho escrevo versos sobre a liberdade
e de noite,
canto, e todo deserto fica longe)
Orgulhosamente
diz-lhes que é
sem ti.

 Ana María Oviedo Palomares
(photo Marlon Brando)

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1.11.17


Cortar o cabelo

Esta é a melhor altura do ano para cortar o cabelo – profere Sandy, remexendo com a ponta dos dedos alguns fiozinhos na testa. A porra da lua atrai as marés, cria tsunamis, invade o Japão, provoca uma crise nuclear, porque é que não haveria de fazer crescer o cabelo? 

  Golgona Anghel 
(gif Audrey Hepburn)

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