"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


21.10.17


Lamentos de outono

Eu suspiro para mim mesma. 
Paixão demais traz sofrimento. 
Tanto vento e lua no pátio, 
que se enche de outono. 
O guarda marca horas no tambor 
bem debaixo de minha janela. 
Noites e noites com a candeia acesa, 
meus cabelos quase brancos. 

 Yu Suanji 
(photo Anna May Wong)

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20.10.17


Vestido 

El mejor vestido para mi cuerpo
es tu cuerpo desnudo.
El mejor vestido para tu cuerpo
es mi cuerpo desnudo.

Vestido así
no tengo ganas de desnudarme
nunca.

Jorge Riechman
(photo Maria Félix)

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19.10.17


Passava todos os dias pela mesma margarida. No começo a admirava com olhos encantados, mas com o tempo, o amarelo da flor se tornou comum. Deixou de percebê-lo. Não foi a cor, entretanto, que desbotou. Eram os olhos que haviam apagado. Cuide para a rotina não te descolorir! 

  Lucas Lujan
(photo Brigitte Bardot)

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18.10.17


Abro o jogo! 
Só não conto os fatos de minha vida: sou secreta 
por natureza. Há verdades que nem a Deus eu 
contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo fechado a sete chaves. Por favor me poupem. 

  Clarice Lispector
(photo Brigitte Bardot)

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17.10.17

Amigos e visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco, agora o blog poderá ser visto no Facebook. Aguardo sua visita!



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16.10.17


Ritmos 

Danço...
Quando cai chuva,
Quando o céu fica fechado
Quando há tempestades
Quando tudo é caos
É o ritmo da vida
Por isso... danço

Leslie Holanda 
(photo Arlene Dahl)

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13.10.17


Diálogo mudo

olho o mar

é um diálogo mudo 
tão fecundo 
que se confunde 
com o mundo 
meu mundo 
me entranha 
estranho 
diálogo mudo 
mundo 
em que me fundo

 Rui de Morais
(photo Grace Kelly)

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11.10.17


Tempo

Sei de um recanto 
na margem da ribeira 
onde à tarde me sento 
e fico só olhando 
o lento passar do tempo 
ao som dos pássaros 
e da água corrente

 Isabel Solano 
(photo Marilyn Monroe)

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10.10.17


Ponto de suspensão 

O homem do violino 
toca à porta do mercado. 
Transporta a gente que passa 
ao som de outro destino. 
Volteia o arco nas cordas, 
acorda o povo que dorme 
e que vem saciar a fome 
de outras frases, musicais. 
Pára o tempo, 
cessa a máquina da urbe. 
Tudo fica suspenso, 
tudo.

  Isabel Solano
(gif Charlie Chaplin)

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9.10.17


Você diz que ama a chuva, mas você abre seu guarda-chuva quando chove. Você diz que ama o sol, mas você procura um ponto de sombra quando o sol brilha. Você diz que ama o vento, mas você fecha as janelas quando o vento sopra. É por isso que eu tenho medo. Você também diz que me ama. 

  William Shakespeare
(photo Leila Hyams)

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5.10.17


Nessa cena

Imensa saudade. E nunca seremos personagens de qualquer nouvelle vague. Jamais sumiremos de madrugada, fugidos de casa; jamais. Sonho em preto e branco, e a lua prateada mata, e a água do lago, e o meu cabelo solto e tua camisa larga, tudo, tudo naufraga. Imensa saudade: eu nascer de novo, na madrugada, ao te ver, após muitas vezes ter visto sem perceber; mon'amour em Dijon: sinto tua boca descer e me levar ao mundo maior; uma pena não entrares nessa cena. Eu só. 

  Ângela Vilma
(photo Jean-Marc Bory & Jeanne Moreau)

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4.10.17


Carne imortal

Eu tenho horror da morte.
Mas às vezes, quando penso
que sob a terra hei-de tornar-me
alimento de raízes,
seiva que subirá por caules frescos,
grande árvore que centuplique talvez
a minha pequena estatura,
digo: – Meu corpo:
és imortal.
E toco com prazer
coxas e seios,
o cabelo e as costas,
pensando: Acaso apalpo
os ramos de um cedro,
as palhas de um ninho,
a terra de um sulco
tépido como carne feminina?
E extasiada murmuro:
– Corpo meu: és feito
de substância imortal!

 Juana de Ibarbourou
(trad. Soledade Santos)
 (photo Marilyn Monroe)

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3.10.17


Às vezes escondo-me no corpo e ninguém me vê. As pessoas falam comigo e não notam que eu não falo com elas. Posso até dizer algumas palavras, posso até exprimir-me num longo discurso, mas a verdade é que não falo com elas. Estou escondido algures no meio do meu corpo.
 (...) 

  Gonçalo M. Tavares 
(photo Sharon Tate)

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2.10.17


Às vezes me vejo sem rumo, mas me lembro do quanto gosto de mim e me faço minha companhia mais perfeita. Nem me trato tão bem, mas relevo-me. Nem me amo tanto, 
mas atenuo- me. 

Entre erros e acertos, alegrias e tristezas eu vou. Sou-me fiel, e meus erros contam sempre com meu sorriso de compreensão. Nessa jornada caminho comigo. Vez por outra tropeço num amor... 

  Gilson Froelich 
(photo Marlene Dietrich)

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1.10.17


Senhor
 A gaiola se tornou pássaro 
 e devorou minhas esperanças. 

 Senhor 
A gaiola se tornou pássaro 
 que farei com o medo. 

  Alejandra Pizarnik
(photo Louise Brooks)

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30.9.17


Força, autenticidade e poder de uma mulher não estão nas suas roupas, fotos, caras e bocas; sua beleza e sensualidade não se resumem a um traje da moda, em quantos homens seduzem, nem por generosos decotes. O poder de uma mulher vem de dentro, a química está no seu olhar e a magia que seduz, atrai e encanta está na simples forma de ser ela mesma na mais profunda verdade de seu ser. 

  Carolina Salcides
(photo Anna Karina)

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28.9.17


Momentos

Finjo que estás
presente... e me habitas,
como quem sente
esta saudade
em mim...

Finjo que me
abraças... e me envolves,
como quem sonha
um arco-iris
distante...

Finjo que não sei,
o que já sei,
só não finjo
esta saudade
que me habita e me envolve!

 Luz Lopes
(photo Desi Arnaz & Lucille Ball)

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27.9.17


crime passional 

 você eu fui matando aos poucos. um dia depois do outro. bem devagar. deixei de perguntar. deixei de dizer. deixei de avisar. dobrei cobertores, empilhei discos, escondi travesseiros e fotografias. separei o que havia em dupla. livrei-me do que era único. usei as costas de bilhetes essenciais. varri todos os pelos pra debaixo dos lençóis. abafei as minhas vontades com mãos postas em desespero. o telefone se esganando por um fio. fumei páginas e páginas da tua Bíblia. mudei horários. recolhi documentos. mandei recados. voltei aos ovos fritos e às notícias. comecei a passar reto onde fazia curva. fui matando você assim. devagarzinho mesmo. agora você está completamente assassinada. 

  fernando bonassi
(photo Truman Capote)

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26.9.17


Sou um fanático do excesso. Um doente pelo tudo. Ou então pelo nada. Gosto de sentir o topo e odeio sentir o fundo. Mas se me dessem a escolher entre o fundo e a média altitude eu preferia o fundo. Sem hesitar. Sem pensar duas vezes. Sem sequer pensar. Ou pensavas que não? 

  Pedro Chagas Freitas
(photo Marlon Brando)

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24.9.17


 Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim 

Adília Lopes
(photo Jean Simmons)

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22.9.17


não ser, para existir

entre o perto e o longe. entre o olá e adeus. entre o agora e o nunca. entre ganhar e perder. entre o doce e o amargo. entre acordar e adormecer. entre o sim e o não. entre o beijo e o abraço. entre partir e voltar. entre a luz e a escuridão. entre recordar e esquecer. entre a ficção e a realidade. entre o tudo e o nada. 

 despi o ser e deixei-o pendurado no armário do limbo. o cabide está velho. 

  Josephine 
(photo Louise Brooks)

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20.9.17


Dá-me tua mão 

Dá-me tua mão e dançaremos; 
dá-me tua mão e me amarás. 
Como uma única flor seremos, 
como uma flor, e nada mais.

O mesmo verso cantaremos, 
no mesmo passo bailarás. 
Como uma espiga ondularemos, 
como uma espiga, e nada mais.

Chamas-te Rosa e eu Esperança; 
porém teu nome esquecerás, 
porque seremos uma dança 
sobre a colina, e nada mais...

 Gabriela Mistral 
(photo Paul Newman & Joanne Woodward)

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19.9.17


Anúncio de entardecer 

Procura-se um sonho.
Ele andou fatiado de medos,
Iludiu-se, imiscuiu-se,
E chegou a flertar com a utopia.

Quem o encontrar,
Diz a ele que o perdoo por tudo.
Que o meu peito, em cicatrizes,
É hoje até mais bonito que antes.

Que aprendi que a força se desdobra
Em indizíveis fraquezas.
E que enquanto ainda chorava de inércia
Meus olhos colheram do sol
A força de desabrochar o meu mundo.

Diz que a solidão me consome os espaços.
E a vizinhança inteira me ouviu 
a gritar por seu nome.
Diz que sangro a sua ausência
E os seus silêncios me transbordam.
Diz ao meu sonho que ele venceu.
A minh’alma não se vendeu.

 Nara Rúbia Ribeiro
(photo Maude Fealy)

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