"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

24.2.18


 Oiço a mesma música que então
escutara a se lado.
Aqueles olhos
já não estão hoje a olhar-me, e não sinto
no peito o amor.
Mas alguma coisa viva
desse tempo regressa e os acordes
daquela música fazem-me sofrer.

 Eloy Sánchez Rosillo
(photo Claudia Cardinale)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.2.18


 Procuro o lento cimo da transformação
Um som intenso. O vento na árvore fechada
A árvore parada que não vem ao meu encontro.
Chamo-a com assobios, convoco os pássaros
E amo a lenta floração dos bandos.
Procuro o cimo de um voo, um planalto
Muito extenso. E amo tanto
A árvore que abre a flor em silêncio.

Daniel Faria 
(photo Audrey Hepburn)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.2.18


Máscaras

É por trás de máscaras
Que escondo meus alumbramentos;
É por trás da alegria
Que escondo meus desalentos; 
É por trás da tristeza
Que escondo meus arrebatamentos;
É por trás dos sonhos
Que escondo minhas máscaras.

Só não consigo mesmo
É esconder de mim 
E de minhas máscaras,
Os meus olhos.

Pelo efêmero brilho deles
Minha alma escapa de meu corpo
E vai a cata de outras fantasias.

Das máscaras cuido eu,
Mas quem cuidará
De minha alma?

Sempre há para elas, almas,
Um perigoso jogo de fantasias,
Um perigoso baile de máscaras.

 Oswaldo Antônio Begiato
(photo Elizabeth Taylor)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

15.2.18


Beijo

sua boca
uva rubra
roça meus lábios
e por segundos
somos murmúrios úmidos
seiva cósmica
de línguas
púrpuras

 Virgínia Schall
(photo James Dean & Julie Harris)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

14.2.18


Anúncios 

Oferece-se desespero 
em excelente estado, 
e espaçoso beco-sem-saída. 
A preços vantajosos. 

Vende-se terreno 
baldio e fértil 
por falta de sorte e disposição. 

E tempo 
totalmente por utilizar. 

Informações: no beco. 
Horário: sempre. 

 Kiki Dimoulá
(photo Jean Harlow)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

11.2.18


Trobar o Amor

Dizem-me que me case eu;
... não quero marido, não.

Mais quero viver segura
nesta serra, livre e pura,
que sujeitar-me à ventura
se casarei bem ou não.

 Dizem-me que me case eu;
... não quero marido, não.

Madre não serei casada
por não ver vida cansada,
ou quiça mal empregada
a graça que Deus me deu.

 Dizem-me que me case eu;
... não quero marido, não.

Não será nem é nascido
quem possa ser meu marido;
e pois que tenho sabido
que a flor de todas sam,

 Dizem-me que me case eu;
... não quero marido, não.

 Gil Vicente
(photo Ethel Warwick)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.2.18


Graças te rendo... 

Graças te rendo aqui, preciosa Senhora,
Que, num simples olhar de ternura, tiveste
O dom de me elevar, assim como o fizeste,
Entre os brasões do amor e as púrpuras d'aurora...

O dom de me fazer acreditar que veste
O humano coração, como acredito agora,
Não o lodo, porém, o linho; que se adora,
O linho que fulgura em pleno azul-celeste...

Sei que os votos que são trabalhados com arte
Hão de os deuses cumprir, ó luz maravilhosa:
— Sê, pois, bendita, sê bendita em toda parte!

Que onde fores pisar, que por onde tu fores:
A lama se transforme em pétalas de rosa,
As víboras em fruto, os espinhos em flores!

Emiliano Daví Perneta 
(photo Clark Gable & Vivien Leigh)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.2.18


Ilha 

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias

David Mourão-Ferreira 
(photo Marilyn Monroe)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

6.2.18


Eu me sinto tornar dia a dia mais sensível e mais emocionável. Um nada me põe lágrimas no olho. Há coisas insignificantes que me pegam pelas entranhas. Eu caio em divagações e distrações sem fim. Eu me sinto sempre um pouco como se eu tivesse bebido demais. 

  Gustave Flaubert
(photo Gregory Peck)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

5.2.18


 Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.

Intuito de ter.
Intuito de amor não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

 Natália Correia 
(photo Desi Arnaz & Lucille Ball)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.2.18


Misturança 

Quero o abraço...
o descompasso
o beijo molhado
o corpo suado
pedaço de mim...
quero a mistura
de amor e aventura
força e candura
princípio e fim

mistura pouca
mistura louca
mistura tanta
Que se agiganta
E sigo bebendo
do teu veneno
me embriagando
e te sorvendo

Alice Daniel 
(photo Ava Gardner)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

31.1.18


Estar só 

Estar só já não me espanta—
A solidão hoje me é
Contígua.
(Um vaso e a sua sombra).

Companheira espelhada das horas magras, 
Sempre muda, reflexiva. 
Ouso dizer? Meio
Amiga.

O que temo, justamente, é:
Me acostumar de vez
Com essa tímida
Rapariga.

 Lavínia Saad 
(photo Louise Brooks)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

30.1.18


Amor e Medo

Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.

Affonso Romano de Sant'Anna
(photo Phyllis Barry & Ronald Colman)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.1.18


Olhas-me 

Olhas-me 
e as palavras multiplicam-se nas palmas das minhas mãos 
nos teus cabelos fundos viaja a minha voz.

Falas-me
 e mares abrem-se 
que se arrepiam de beijos e carícias dos ventos.

E amo-te no infindável meio-dia.

 Dímitra Mandá
(photo Greta Garbo)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

27.1.18


Exegese 

Pobres lágrimas minhas entrando
na esponja sombria do Mistério,
sem tua boca dorida de sedento
abrir em flor como copa de árvore!

Pobre meu coração sangrando
como clepsidra trágica em silêncio,
sem o milagre de bálsamos inefáveis
na venda tremente de teus dedos!

Pobre minha alma tua, arrodilhada
no pórtico em ruínas da memória,
de costas para a Vida, esperando
que um dia talvez o Tempo volte atrás!...

  Delmira Agustini 
(photo Ingrid Bergman)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

25.1.18


Eloquência 

o silêncio fala
às vezes
fala demais
e até fala
o indizível
o que não há
o que não deve

o silêncio por vezes cala

Rosana Chrispim 
(photo Buster Keaton and Rosalind Byrne)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.1.18


Canção de embalar 

Dorme
em teu sono.
Por teu coração
passará imperceptível
a noite

levando consigo
as sombras matutinas da hesitação,
os pergaminhos das mágoas diárias,
os flocos da angústia noturna.

De manhã
haverá de novo luz
em teu coração.

 Viatchesláv Kupriyanov 
(photo Frances Dee)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.1.18


A ideia do fim 

Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só

o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante

que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago as portas abertas no coração:

se ainda não sabias, és muito bem-vindo.

 Maria do Rosário Pedreira
(photo Madeleine Carroll)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.1.18


Pequena prece

Pedi-te que partilhasses
pão
e sal comigo.
Assim aos domingos jamais tornaria a temer
o salgado.

Tu porém cantaste na tua solidão
obscuras incompreensíveis
notas.

Apenas te ouvia dizer
o corpo,
o corpo
(da alma casa).

Marigo Alexopoulou 
(photo Melva Cornell)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.1.18


Sonho 

Penso que devo ter adormecido por algum tempo;
Pois quando acordei tinhas vindo e partido.
Apenas algumas flores permaneciam -
Flores que não podiam sequer dizer quem eram...
E uma fragrância vaga e suave no ar.

Esta noite tenho de sonhar um sonho mais longo
Para que as flores falem
E a sua fragrância estenda um trêmula ponte
Ente nós.

 Purushottam Shivaram Rege 
(trad. Cecília Rego Pinheiro) 
(photo Marlon Brando & Maria Schneider)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

19.1.18


Força

Desmancha o nó,
tira a ferrugem,
espana o pó.
Empurra o pesado,
cola o quebrado,
abre o dobrado,
cerze o rompido,
coça a coceira,
gruda o trincado,
pensa o ardido
e faz brincadeira do verso
chorado;
que a vida é rendeira
de sedas ou trapos,
de rendas, farrapos
ou fios de algodão;
que a fibra é comprida e o mundo
artesão.

Flora Figueiredo
(photo Ingrid Bergman)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.1.18


 Não te quero só pra mim
e nem poderia.
Quero-te para ti mesmo
E para a tua própria vida.
Quanto mais fores
O que quiseres
Mais serás o que eu queria.

 Luis Poeta 
(photo Virna Lisi)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

16.1.18


O teu desenho 

Aprendi a desenhar-te,
a ouvir-te
sem ver-te
sem saber-te.

A tua voz
adivinha-me os traços,
revela-me as linhas,
projecta-me as sombras,
enche-me os espaços.

E sem falares
apareces-me,
em figura esboçada,
silhueta,
esfinge,
como beleza desenhada.

 José Gabriel Duarte
(photo Marilyn Monroe)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

13.1.18


guarda-chuva

meu coração tem
forma de guarda-chuva
sob 
ele
es
tás
a
sal
vo

 xilre 
(photo Mickey Rooney & Judy Garland)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.1.18


 Se me deixares, eu digo
O contrário a toda a gente;
E, neste mundo de enganos,
Fala verdade quem mente.
Tu dizes que a minha boca
Já não acorda desejos,
Já não aquece outra boca,
Já não merece os teus beijos;
Mas, tem cuidado comigo,
Não procures ser ausente:
- Se me deixares, eu digo
O contrário a toda a gente.

 António Botto 
(photo Mirna Loy)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

11.1.18


As coisas lentas

Fumo demasiado depressa o meu cigarro apagado. Os cigarros fumam-se lentamente ao espelho fixando um único dos nossos rostos. Pois bem: na casa só nos cacos há reflexos. Os rostos suspendem-se entre nós e nós, as letras das palavras. Os rostos aguardam-se, observam-se, ao longe. E não há fumo que os evole. Talvez por isso: nunca aprendi a acender um cigarro por ser absolutamente desnecessário aprender a aprender a acender um cigarro. Na casa onde tu fumavas cada cigarro era uma letra. De cada vez que o filtro te tocava os lábios eu perguntava: como te chamas? À superfície do espelho, o teu vagar respondia-me até ao esquecimento de nós. Talvez por isso: tento acender um cigarro. Apago-o antes que me chegue aos lábios.

Está frio neste lugar. A boca abre-se como uma coisa lenta em forma de espanto.

Inês Fonseca Santos
(photo Julie London)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.1.18


Só eu me posso julgar. Eu sou o meu passado, eu sou o motivo das minhas escolhas, eu escolho o que tenho dentro. Eu sei quanto sofri, eu sei quanto sou forte e frágil, eu e mais ninguém. 

  Oscar Wilde 
(photo Humphrey Bogart) 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.1.18


Quem ama ama. Quem ama só ama. É essa a sua missão, a sua ocupação, a sua função: amar. Sem olhar a como. Sem olhar a porquê. Aliás: geralmente amar, quando é amar, é sem porquê. É simplesmente porque é. Amar, quando começa a concentrar-se em porquês e em comos e em quandos, já não é amar. Amar racionalmente é o começo de não-amar. Se pensas sobre como amas, quando amas e porque amas: então é porque já não amas. 

  Pedro Chagas Freitas
(photo Ramon Novarro & Norma Shearer)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.1.18


Minha matur(a) idade

Na minha idade madura, 
a vida a escorrer pelos dedos
Vejo no tempo antigo
Mares em que naufraguei
Fogo em que já ardi
Veredas que já pisei

Na minha matur(a) idade,
alma a transbordar no peito
Sonho o tempo que virá
Lagos de águas tranquilas
Chamas de terno langor
Caminhos de sol e sombra

Sempre eu
Inteira
No tempo de ontem
Ou de amanhã

 Lique 
(photo Brigitte Bardot) 

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.1.18


Assim será 

Um dia, minhas mãos 
Não vão mais um gesto esboçar... 
Um dia, meus pés 
Não mais tropeçarão no meu andar... 
Um dia, 
Não mais meterei os pés pelas mãos, 
Na vida que me foi dada, 
tirada... 

Um dia, 
Restarão (ainda) os toques sonhados, 
Os passos imaginados, 
A vida que andou 
Pelos meus pés, 
Pelas minhas mãos deslizou... 

Depois de tanta escuridão, 
Assim será – um dia... 

 Dora Brisa
(photo Bulle Ogier)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.1.18


Surge a manhã de um novo ano. 

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade 
(photo gif Marilyn Monroe)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨