"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


31.5.10

Entardecer

Hoje entardeci mais despida do que antigamente.
Não sei se pelos bosques tão devastados
se pelas bagas que colheste do meu dorso.

À tua sombra todos os amores são silvestres,
só as amoras são frutos impossíveis.

Catarina Nunes de Almeida

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

30.5.10

Que mais eu te posso dar?

Trago-te um ramo de rosas
e um pote de framboesas.
Um pôr-do-sol depois da chuva
junto com as minhas tristezas.

Que mais eu te posso dar?

Dou-te a relva da campina
ainda fresca e orvalhada.
Te trago a primeira estrela
que nascer na madrugada.

Que mais eu te posso dar?

Dou-te uma salva de prata
cheia de conchas do mar;
um bando de borboletas
... ou um raio de luar?

Que mais eu te posso dar?

£una

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

29.5.10

boneca

dentro da velha casa de bonecas
minha predileta está meio desconjuntada
braços de pano pendentes
cara de nada absoluto

bobagem ou contradição em termos
não pode ser o nada absoluto se ainda é uma boneca
mesmo quase desfeita
mas penso :
parte dela virou pó
não é mais a boneca que foi
porque começa a navegar no nada

triste e um pouco assustada
olho o espelhinho da casa e percebo que
o nada absoluto está em meu rosto também

adelaide amorim

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.5.10

Idílio

Entre notícias antigas e muralhas
construí com você
um amor feito alucinadamente de palavras
Meus versos seduzem os seus
seus versos aliciam os meus

Coloquei nossos livros juntos na estante
para que se toquem
e se amem clandestinamente
durante as madrugadas

Iracema Macedo

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

27.5.10

Mulheres

As minhas três irmãs estão sentadas
numa rocha de obsidiana preta.
Nesta luz, pela primeira vez, posso ver quem são.

Minha primeira irmã costura um traje de procissão.
Vai como uma Senhora Transparente
e todos os seus nervos ficarão visíveis.

Minha segunda irmã também cose sobre
a ferida do coração, que nunca cicatrizou inteiramente,
espera, por fim, tornar impermeável o seu peito.

A terceira contempla uma crosta de púrpura
que se espalha para fora do mar.
Suas meias estão rasgadas, mas é bela.

Adrienne Rich
(trad. de J.T. Parreira)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

26.5.10

Dois destinos

A fruteira pro canto afastada
Refaz todo o silencio do ambiente
Numa agonia atroz e renitente
Das vidas por aqui passadas

E os móveis num mudo segredo
Guardam de tudo o pouco que restou
De duas vidas que o tempo levou
E que agora vivem no degredo

Duas vidas, duas sinas, dois destinos
A viver estranho desatino
De estarem sob o mesmo teto

Duas vidas, duas sinas, dois destinos
A viverem mundo peregrino
De sentimentos inquietos

Osvaldo Pastorelli

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

25.5.10

... ah, aquele tempo de tua longa ausência!
(...) Em tuas cartas, que agora recordo com tão viva lembrança,
me amavas tanto, me adoravas, me engrandecias.

Vias em mim sensibilidades de que eu mesma não suspeitava.
E mais: induzias-me, quase que me imploravas, para que eu
fosse feliz, apesar da tua ausência.

Através da distância me sublinhavas.
Pelas cartas, o nosso amor era um tão grande amor!

Elisa Lispector

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.5.10

Sobre meninas e sonhos

Casou cedo, menina ainda.
Na mala - rendas, cambraias, cetim.
E um pouco de algodão - puro.
No coração - sonhos.

As rendas, cambraias e cetim, pouco usados, continuam lá.
O algodão, agora manchado, resiste bravamente.
Os sonhos, quase esquecidos, dormem no fundo da alma.

Vera Abi Saber

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.5.10

Apago cigarro após cigarro,
a chávena ainda quente do café,
e o corpo todo à escuta.
No sono entrevi o teu olhar e
ao visitar-te, excessivamente te beijei.
Entre temor, entre comas, os lugares
que habito são apenas pontos
de esquecimento e fuga.

Tenho medo, por vezes, de estar em casa,
outras, de sair, não sei o que me persegue
ou persigo, movo-me apenas
por entre odores, escombros, e aflita
com perigos indefiníveis.

Helga Moreira

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.5.10

Velando

Junto dela, velando… E sonho e afago
imagens, sonhos, versos comovido…
Vejo-a dormir… O meu olhar é um lago
em que um lírio alvorece reflectido…

Vejo-a dormir e sonho… Só de vê-la
meu olhar se perfuma e, em minha vista,
há um céu de amor a estremecê-la
e a devoção ansiosa dum artista…

Nuvem poisada, alvente, sobre a neve
das montanhas do céu - ó sono leve,
hálito de jasmim, lírio, luar…

Respiração de flor, doçura, prece…
- Ó rouxinóis, calai! Fonte adormece,
senão o meu amor pode acordar!

Augusto Casimiro dos Santos

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.5.10

Tudo dorme

Amanhece e tudo dorme.

Dorme o cão, guardando a casa.
Dormem meus músculos, meus ossos.
Dorme a chuva fina e o tempo.
Dormem os medos de meu pai,
dorme a fome de meu filho.
As roupas e as palavras de ontem
dormem preguiçosas.
Dormem os amores e os amigos.
Dorme a vida embaixo do travesseiro.

Enquanto amanhece,
dormem o pão, a água, a brisa.
Enquanto amanhece
insone
a dor
me morde.

Marcia Cardeal

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

20.5.10

Agora sou...

Agora sou
porto de silêncio que conhece
a rota da madeira,
porta do sótão
e turbilhão de folhas
que, pela cozinha, arrasta o vento.

Agora sou
a casa que conhece
múrmuras colméias,
unhas do gato prateado,
o desatino matinal dos pássaros
e o amor das janelas pelas nuvens.

Ao perfume da erva
após a chuva
une-se o do café.

Do tempo passado
a decifrarmos juntos paredes
de granito e cal
vem-nos doce a fadiga.
Repousemos.

Flor Campino

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

19.5.10

Ando firme num chão que não tenho

Entrando ou saindo
Sem face me movo
Deambulando em cores minhas
De fogo ou terra

Sem face, procuro ver para além daquilo
que o além for
Saindo de mim espalho-me pelo espaço
que não é meu

Procuro o chão que não sinto
Procuro o sentir que me queime

Que me doa
Quem me ame
Que me pise
Me segure...

Insegura no passo
vou
deambulando em cores tão só minhas

Não sei sentir o que será
para além de além

Piso-o
Não escorrego
Ando firme num chão que não tenho

Teresa Maria Queiroz

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.5.10

Dias inúteis

Ficarão perdidos os dias que
não tivemos juntos.

Dias inúteis encostados a paredes
e muros envelhecidos.

Dias sem calendário, hora evasivas e fugidas,
desperdiçadas, afundadas
em rios sem margens nem pontes,

Noites, noites e mais noites deitadas fora
como casa desabitadas.

Carlos Lopes Pires

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

17.5.10

Eu fico abraçada aos discos antigos.
O violão me espia, mudo.

Espalho papéis no chão
e passeio entre todas essas letras caladas.

Me debruço sobre versos já tantas vezes lidos
e me alugo para sonhar, como o poeta da solidão.

O incenso queimou.
Já não lembro teu cheiro.

Jaya Magalhães

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

16.5.10

palco

invento-me.
(re)invento-me.

instalo-me em cada criação.
como se fosse a definitiva.

como se… canso-me.
perco o sentido do rosto que criei.

esvazio-lhe a alma.
procuro outro palco.

outra personagem que sou eu
e não sou.

não sei bem quem sou.
saberás tu?

ou apenas conheces
a minha personagem para ti?

Maria Laura

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

15.5.10

Melodia

Ele me olha... provocante... Eu me aproximo, rendida!

Estendo minhas mãos... meus dedos passeiam-se nele, primeiro devagar... com a timidez de uma virgem. O toque é suave... apenas ensaiado! Depois, com a fúria devassa de quem passa e tem pressa de sentir o ser pulsar dentro e fora de si! Sons se elevam aos céus... todo ele vibra, de prazer!

Os dedos, sôfregos, procuram cada tecla em obediência total à partitura. Em cada sustenido... um gemido, em cada fá menor... a expressão da dor... que se quer sentir!

É assim o fazer amor quando o piano chama e ateia a chama da paixão que perdura nas chaves que abrem as portas do dia...

Dia... que se quer pleno de melodia!...

BlueShell

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

14.5.10

Canção Violeta

Amo o roxo. E vai que fazes?
A luz tamisas de malva
E roxa desponta a alva
Sobre a colcha de lilases.

Roxos alastram os razes.
E tu das-te nua e alva
Lírio roxo numa salva
Sobre a colcha de lilases.

Com suas pestanas pretas
As tuas pálpebras roxas
São duas grandes violetas.

E, por mais gosto da vida,
Depois que a lâmpada afrouxa,
Fez-se a alcova de ametista.

Jaime Cortesão

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

13.5.10

Existimos de forma concisa

num gomo de laranja, no feixe
de luz oblíquo ao parapeito da janela,
nas superfícies das paredes que sobem
até ao tecto da casa, no vidro outrora
e na gota de chuva e quando cessa a chuva
no troar das andorinhas, existimos de forma concisa
não tendo o mundo outra forma de existir.

Sandra Costa

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.5.10

Andrógina

Meu caminho é inverso
ao caminho das coisas
penso andar
na contramão do mundo
em mim repousa
mistério profundo

não sei se quero partir
não sei se me dou
se devo sorrir
se arrisco voo de condor

quisera ir
quisera voar
para bem distante da dor
sem rumo, sem ter onde chegar

se hoje sou silêncio
já fui estrondo
voz de cachoeira
se hoje me rendo
já mergulhei rio adentro
canto de lavadeira

Úrsula Avner

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

9.5.10

Livre

Eu gostava de sentar no chão e ver mamãe tocando piano...
Enquanto ela tocava, eu sonhava...

Adorava quando eu perguntava:
- Mamãe o que vou ser quando crescer?
Ela dizia: "Livre, livre, livre"...

Enquanto ela falava eu sorria e no terceiro livre já estava
atravessando a porta de vidro em direção ao mar.
E eu corria, corria muito.

De modo que quando mamãe me alcançava eu já estava no mar.
Então... ela me abraçava e a gente ria...
Depois eu voltava a correr.

Eu nunca soube porque mamãe demorava a me alcançar...

Será porque eu era boa pra correr,
ou mamãe que era boa pra deixar eu voar?

Dafne Stamato

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

8.5.10

Pré-História

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.

Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!

Cai no álbum de retratos.

Murilo Mendes

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

7.5.10

Choram as Marias

Por quem choram as Marias
das Graças, do Parto, das Dores?

Choram por outras Marias
de todos os cheiros e cores,
que vagaram e nascerão
na infinita imensidão
de séculos, terras e ilhas,
que de ser mãe, vastidão,
espalha-se em forma de filha.

Elane Tomich

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

6.5.10

Anoitecer

A noite anseia o toque
Brilho presente no olhar
De quem contempla o luar

Ainda não anoitece aqui
(Mas já se contam estrelas)
Ainda não chegou a hora
(Mas já a pinto a aquarelas)
Ainda espero por ela ali
(Mas já lhe acendi as velas)
Ainda sei que demora
(Mas aguardo entre janelas)

A noite aguarda serena
Cabelos soltos ao vento
De quem ousa um momento

Ridufa

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5.5.10

Pensamento primaveril

O medo mistura-se ao prazer
enquanto ela sorri ao pensar que vai ao seu encontro
A caminho do lago o orvalho da montanha
refresca-lhe as mangas de seda
Quem se habituaria a estas coisas ilícitas?
Somente o receio de faltar ao juramento secreto
leva com passos cautelosos ao quiosque de perfumes de brocado
Espreita, procura nos ruídos do vento
Esconde-te à espera do amor perfumado
Ao pé do muro branco uma flor brinca com a sua sombra
Sob as persianas vermelhas o brilho disfarçado da lua
Docemente
com um sopro, a lâmpada apaga-se.

Zhang Kejiu
(trad. Albano Martins)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

4.5.10

Estranho-me

Estranho-me
Quando de negro me visto
E de silêncio me calço...

Nasceram-me ilusões
Nas pontas dos dedos...
Escreveram um castelo
Alto demais
Não lhe chego...

Abraço-me ao cansaço
Que me ampara
Na curva redonda
Do nada...

Invadem-me
Insignificantes sensações
Alma submersa
Em constante desassossego

Rendo-me
Descanso-me...

Lurdes Dias

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.5.10

Notas no caderno de viver

… e naqueles dias em que o sol parecia iluminar recantos
que nem ela sabia que existiam?

Passeava a doçura que sentia no corpo pelas ruas da ternura.

Sabia que o sol não era eterno, provavelmente nem duradouro.

Sabia a muito que pedimos impossíveis, precisamente porque
são impossíveis.

O realizável reside em nós e começa na decisão do que queremos.

Para ela, naqueles dias, era apenas aquele sol que lhe fazia pulsar
o sangue no corpo, acelerado.

No caderno escreveu só:

- Hoje o sol brilhou. Por todo o meu corpo.

Maria Laura

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.5.10

Cor mutável

Olho três vezes a imagem no espelho.
Nunca idêntica. O que muda é a cor.
Não a dos olhos, a dos cabelos ou da pele.
A cor de mim.

Já não procuro identidade.
Camaleão adaptável num labirinto sem saída.
Chocando com as paredes em tons de arco-íris.
Rasgando a pele a cada mudança.

Alice Daniel

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.5.10

Frágeis sílabas de março

Ouço a tua voz nas folhas do jardim
que ainda existe por detrás da casa,
as tuas frágeis sílabas gravadas nas flores,

onde os pássaros vêm pela manhã pousar
e cantar no estendal das cores...

sou simples como a chuva ou como o vento,
não me peças pensamentos,
apenas sei florir

Maria Azenha

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
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