"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


31.12.14


vem aí alguém 

 disseram-me que foste visto, agora mesmo, numas escadas quaisquer, de uma rua qualquer, a fumar um cigarro e a olhar para o céu. esperas alguém? uma voz? uma estrela? uma gota de chuva? um foguete fora de hora? um balão vadio? ah! não, já sei... esperas que o ano acabe, e não queres dar nem mais um passo. esse cigarro é o último do maço, é o sabor que queres ter na boca, é o silêncio com que me recebes, é a espera em si. 

 meia-noite: cheguei. podes apagá-lo sem o terminar. dá-me a mão, o mundo espera-nos, o novo ano também. 

  Josephine

Feliz Ano Novo, amigos e visitantes!
Que os anjos do Criador cerquem suas vidas de paz, esperança, amor, saúde e alegrias.

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

30.12.14


Sou lunar de duas sombrias luas 

 Eu não penso, nem me queixo, 
nem discuto, nem durmo. 
Não desejo nem sol, 
nem lua, nem mar, nem barco. 

 Não penso no calor que faz entre estas 
paredes, 
nem como o jardim está verde; 
e esse presente, que tanto desejei,
 já não o espero. 

 Não me anima nem a manhã, nem
 o eléctrico o seu tilintar alegre, 
vivo sem ver o dia, esquecendo-me, do tempo, 
o ano e a hora. 

 Sobre uma corda estragada, 
eu danço – pobre dançarina. 
Sou a sombra de uma sombra. Sou lunar 
de duas sombrias luas. 

  Marina Tsvétaïeva 
(trad. António Mega Ferreira)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.12.14


connect the dots 

 acordar todos os dias com o nó na garganta. deitar todos os dias num pleno vácuo de força anímica, esgotada em ansiedades. entre cá e lá, não me encontro em lado nenhum. um lápis, de carvão macio. que me junte, finalmente, os pontos. transforme as reticências em linhas sinceras. e me trace os caminhos na palma da mão. eu depois preencho os espaços com tinta da china e aguarelas de cores vivas.
 
(desconheço autoria)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

27.12.14


Devo dizer, para ser franca, que já várias vezes tinha acedido a sair com ele. Não para ir ao baile. Ele dizia que não gostava de dançar. Na realidade, não sabia. Mas não me impedia que o fizesse. Eu também não gostava por aí além de dançar(...) Preferia ir até ao campo com ele. Ora me levava a Saint-Germain, ora a Fontainebleau, ora à beira do Sena ou do Marne. Alugávamos um barco. Ele remava. Eu ficava sentada à sua frente sem dizer nada. Ele também não dizia palavra. Olhava para mim enquanto remava e de vez em quando sorria-me. Eu então também sorria para ele. À volta, tomávamos um “panaché”, com umas batatas fritas, numa tasquinha lá do sítio e voltávamos de comboio, ou numa camioneta à pinha, com os braços atafulhados de flores do campo. Flores que cheiravam bem. De regresso a Paris, quase me sentia asfixiar. Gostaria de ter lá ficado, em Athis-Mons ou em Gagny, uma semana inteira deitada na relva ao pé dele, a olhar para o céu. 

  Raymond Guérin

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24.12.14


Sonhos de Natal 

 Aquele velhinho sempre povoou os meus sonhos! 
Ao acordar, eu olhava e não o via... 
O saco de brinquedos era minha adoração! 
Ao acordar, eu procurava e não o encontrava. 
O sapato, na janela, continuava vazio... 

Em cada aniversário dele, eu sonhava e buscava. 
E os sinos repicando na torre da Igreja 
Blém-blom... blém-blom... blém-blom 
Pareciam me dizer: desilusão... desilusão... desilusão... 

O tempo foi passando, a dor eu acalentando, 
Até que entendi que o brinquedo era simbólico 
Que o velhinho não existia
 Que aquele, era o dia da Salvação! 
Que Maria deu seu filho Jesus 
para a nossa Redenção! 

Com alegria percebi 
que os sinos mudaram o som 
que em mim agora ecoava 
a palavra coração... coração... coração... 

E o espírito do Natal, eu comecei a viver! 

  (Desconheço autoria) 

Feliz Natal, amigos e visitantes! 
Que vocês possam ter a alegria de viver o espírito natalino em sua plenitude!

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.12.14


Percentagens 

 Sou 100%. 
5% de lágrimas, 
5% de sensatez, 
1% de prudência, 
2% de dúvidas, 
4% de ilusão, 
3% de calma, 
15% de expectativas, 
25% de ansiedade, 
20% de loucura, 
20% confiança. 
Isso basta? 
Não. 
Algo falta... 
Quem sabe uma pitada 
 De 150% de imaginação? 

  Gisa

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20.12.14


Dentro da caixa

Ao abrir...

 Reparo sempre que ela própria não consegue dar à corda a sua própria manivela de bailarina de caixinha-de-música. Reparo sempre que as mãos não chegam às costas, estão sempre na mesma posição: levantadas para o tecto, como as pontas dos pés e dos cabelos. Reparo sempre que é um corpo esticado em "i" que roda com as notas musicais e faz rimas de coisas que ouve da boca de quem abre a caixa: sonho, senha, ranho, lenha, canto, acanto... - Que são folhas de acanto? Pensará ela, mas nunca me diz nada, só se olha ao espelho da tampa da caixinha que a engole no escuro sempre que ninguém lhe dá à corda. Reparo sempre que é uma cariátide no vazio, sem nada que segurar para além da imensidão do nada quadrado duma caixa que a melodia do xilofone martela. Reparo sempre que é um corpo rotativo de pés presos onde só a cabeça e o coração voam em sonhos.

 Ao fechar...
 Reparo sempre que me pareço a ela e por isso volto a abrir a caixa e faço-lhe companhia.

  Bruna Pereira

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19.12.14


Usos repetidos

Olho 
pelo vidro 
da janela 
o passar intermitente 
da vida

 Pausado
 mas contínuo 
o ritmo do ritual 
avança incessante 
em busca do amanhã 
que depressa 
será ontem

 E pergunto 
à sabida janela 
o porquê 
de tantos usos 
repetidos 

O vidro
 não responde
 com palavras 
mas incha 
e embacia de rotinas 
que me respondem

 Baixo a persiana 
para esconder o óbvio 

  Francisco J. Picón
(trad. Albino M.)

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

18.12.14


O rosto (...) apresentava uma imobilidade semelhante a uma máscara, característica da maquilagem perfeita e discreta. Entrou no quarto protegida pelo manto da perfeição artificial com que as mulheres que já são bonitas costumam se armar contra o mundo. 

  Josephine Hart

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17.12.14


Mas, afinal, quem sou eu, esta pessoa que se encosta ao portão e observa o nariz do cão que a acompanha? Às vezes penso (ainda não cheguei aos vinte) que não sou uma mulher, mas antes a luz que incide neste portão, no solo. Por vezes, penso ser as estações do ano, Janeiro, Maio, Novembro; a lama, o nevoeiro, a alvorada. Não posso ser empurrada para o meio dos outros sem me misturar com eles. Contudo, apoiada ao portão, sinto um peso que se formou junto a mim e me acompanha. 

  Virginia Woolf

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14.12.14


Vamos ser felizes por um tempo, vida minha, embora não haja razão para sê-lo, e o mundo seja um balão de gás letal, e nossa história um filme B de bruxas, zumbis e vampiros. Felizes porque sim, para que um dia gravem em nossa sepultura o seguinte epitáfio: “Aqui descansam os ossos de uma mulher e de um homem que, não se sabe como, conseguiram ser felizes dez minutos seguidos” 

  Fabiano Calixto

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12.12.14


Um amém de santo...

Que o palco nosso de cada dia nos dê hoje 
alimento aos sonhos e fome aos medos, 
 verdade aos pés e beijo à boca, 
 maciez aos olhos e mágoa pouca, 
 um Amor com histórias, 
 um aroma às memórias, 
doces vinhos e glórias, 
e certeza aos amanhãs,
 o saber do tempo, 
o sabor do intenso, 
o calar do vento, 
o calor do outro, 
celebrar o pranto 
de um milagre pronto, 
festejar o encontro 
com qualquer imenso.
 E um amém de santo. 

  Guilherme Antunes

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11.12.14


Procuro

Procuro saber como flutuar. Saber como se lêem as ruas plenas de trânsito quando o que queria era só ... [como colocar os pés nos caminhos que ...] saber como respirar. Saber como silenciar a sofreguidão [como silenciar o silêncio] ... como parar de doer. Como ... procuro uma viagem que não termine antes do seu fim. Uma árvore que fale dos ventos que lhe mudam a direcção [ainda não a conheci] ... procuro ser simples e fazer parar o tempo. Só. [ser simples] ... Procuro à noite as cores e não me importo de adoecer em ti. Procuro o meu coração. 

  Francisco Vieira

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10.12.14


O gosto das almas

Gosto de xícaras 
Gosto de xícaras brancas 
Com beiradas bordadas de jasmim 
Que abrigam o chá de almas 
Fluído das lágrimas, mares de sal. 

 Xícaras brancas com beiradas de rosas 
Que envolvem o conteúdo 
Do calor de almas que se abraçam 

 Gosto do silêncio das xícaras brancas 
E do calor saltam dançarinas 
O bordado de jasmim sorri. 

 O chá das almas exala fadas brancas, diáfanas 
Que dançam no ar por segundos e morrem 
Espalhando o perfume das frutas e das flores. 

  Luciana Montechiari

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8.12.14


Hoje soltei os pássaros 
fechei a porta da gaiola 
e voei com eles
 Fui-me embora

  Luísa Veríssimo

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7.12.14


Fútil 

 Recolhi minha insignificância 
Num dia de domingo 
Guardei a sete chaves 
Sete canções
 Sete senhas

 Não, meu caro, não espere nada de mim 
Não me espere 
O tempo 

 Não, meu caro, não poderei servir-te 
Ando muito ocupada
 Decorando a minha casa 
Com minha insignificância 

  Magna Santos

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6.12.14


Inspirei durante tanto tempo o aroma de um chá quente, feito de sonhos. Um vapor morno, respirado como um incenso e absorvido como um elixir. Uma nuvem branca, preenchida com as partículas revigorantes necessárias para ganhar energia a cada passo de um caminhar inconstante. Um chá encorpado, que dava vontade de olhar para o céu e percorrer o mundo de nuvem em nuvem. Mas hoje a vida entornou-me uma chávena do precioso líquido. No meu interior, um mesmo mantra repete-se agora em forma de interrogação: como poderei acreditar novamente?

  Ana

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5.12.14


A dança... 

 O que nos pode fazer mudar? Uma simples dança… de outros tempos, em que o devolver do toque nos faz bem, nos apresenta ao outro corpo e reconhece um estranho bem-estar. O aperto é como me lembrava, de firmezas e gentileza envergonhada, última defesa para não exagerar. Eram poucos minutos, mas ondularam em sintonia, o que me faz pensar… na próxima vez… 

  Miak

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4.12.14


A liberdade é azul

(…) quando uma pessoa permanece traumaticamente ligada a uma relação passada, idealizando-a, elevando-a a um nível que todas as relações futuras nunca atingirão, podemos estar seguros de que essa idealização excessiva serve para ofuscar o fato de haver algo muito errado nessa relação. O único sinal fidedigno de uma relação verdadeiramente satisfatória é, após o falecimento do outro, o sobrevivente estar pronto para encontrar um novo parceiro. 

 Slavoj Žižek

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.12.14


Nunca me interessei por homens bonitos. Isso não se deve ao fato de que eu acredite que eles sejam necessariamente vaidosos; tampouco que sejam incapazes, como com freqüência se conclui, de amar profundamente. Não. Sei que a natureza não é pródiga em sua generosidade, e, tendo provido de beleza, certamente não sentirá a necessidade de ser generosa com outras qualidades. 

  Josephine Hart

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.12.14


um tempo... 

 peço ao tempo que me conduza 
num tempo que desejo 
 dentro de mim 
do meu ser para mim mesma 
de paz e harmonia 
de encontro 
de conhecimento 
de luz. 

  cecilia vilas boas

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

30.11.14


o meu sorriso faz um parêntesis. 

 tudo o que sai da minha boca são apartes. tudo o que fica por dizer é o que realmente interessa. 

 a língua não sabe articular o essencial, deixa-se seduzir pelos artifícios dos lábios... que só querem sorrir, que só querem 'fazer parêntesis'.

  Josephine

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29.11.14


Metade sou grito e voo; a outra, pouso e silêncio. A parte mais fecunda guarda a certeza de que está impregnada de antigas histórias que ninguém nunca leu. E tu existes nesta página silenciosa. No inacabado, nas reticências, nesse lado abissal e intangível que é a distância mais próxima que me sabe... 

Eliane Reis

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.11.14


Olhos de adeus 

 E tudo parecia tão diferente do que sempre fora. Nunca havia notado as sapatilhas de bailarina, penduradas no teto daquela loja que fora tantas vezes comprar cadernos bonitos. Talvez, apenas talvez, nunca vira antes o teto pois agora ela enxergava tudo com olhos de adeus. 

  Vanessa Souza

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27.11.14


Geografia 

 estar em 
algum lugar 

 sempre 

 deixar o 
corpo 
posto 
em algum lugar

 porto 
onde voltar 

  Eunice Arruda

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

26.11.14


Estendi lençóis de
 linho e flores 
deitei meu corpo 
e vi-me 
pela primeira vez... 

  Tbonito

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.11.14


Ponho-me à janela, 
do lado de fora,
 
 enquanto passo, 
fechada, 

 do lado de dentro. 

  Regina

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23.11.14


Pouco... 

 Tenho levado uma vida pouca. Pouco vivida. Vivida aos poucos. 

 Vida nem de poucos inimigos, tampouco de muitos amigos. De amor que pouco passa de furor. De felicidade que pouco causa torpor. 

 Vida onde pouco sofrimento é bobagem. E bobagem é ter pouco sentimento. 

 Por isso pouco gosto do pouco. Por isso tendencio um pouco ao muito. Ao muito sofrer, muito querer, muito temer. Ao muito pouco ter. Pouco muito a receber. 

  João Célio Caneschi

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.11.14


chamada livre

- olá. liguei para falar de cinema.
 - em que filme deixaste hoje o coração?
 - num que não fala de amor. 
- e esse filme existe? 
- as pessoas vêem sempre amor em tudo, por isso já não sabem distinguir as linguagens. se um filme fala do vento, logo vem a tese de que o vento aproxima os amantes. o vento é o vento, e a sua matéria é tão ou mais complexa que o amor. 
- e tu, vais à procura do quê no cinema? 

 - de mim. 

  Josephine

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.11.14


hoje estou líquida. 
tento fechar-me em copas, 
copos... 
mas me derramo em quartos e camas.
 inundo travesseiros e poemas... 
transbordo com as canções. 
ainda ontem eu era sólida, 
em pensamentos e posturas, 
atos e convicções. 
na firmeza das idéias,
 na certeza das conquistas. 
existia. 
anteontem fluía etérea. 
sem forma ou peso. 
sem rumo. 
ocupava todos os espaços. 
no frescor, sonhava. 
hoje estou líquida... 
... porque os estados do espírito mudam 
com a força - ou ausência - dos ventos. 
com a alternância das marés. 
com os ciclos da lua. com o tempo. 
é chegada a hora de cortar os cabelos. 

  paula quinaud

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

20.11.14


... 

 recolho-me 
ao ovo 

 entre as cascas 
do poema 

 sem ser clara
sem ser gema 

 escondo-me 

  Almma

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

19.11.14


Mesmo que o fim esteja plantado 
Rego algumas sementes 
Olhem! 
Começou a desfolhar as margaridas... 

  Carmen Silvia Presotto

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

14.10.14


Quem?

Felicidade? 
Conheço 
Pelos passos 
Porta afora 
Quando 
Vai embora. 

  Dário Banas

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

12.10.14


pontaria

equilibrada sobre o pé direito, mais uma vez, a menina desistiu da brincadeira. nunca. atirada de sua mão, a maldita pedra nunca caía no céu. no pequeno espaço, para poucos, desenhado com giz, no final da amarelinha. 

  eduardo baszczyn 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

7.10.14


como se costuram os sonhos 

 entre agulhas, dedais, carrinhos de linha, bainhas que se fazem e desfazem... há conversas que adocicam o tempo. fala-se de tudo um pouco: os assuntos são como uma manta de retalhos que se vai cosendo com linhas variadas e coloridas. esta manta é como a vida, diversa e pitoresca, não se repete uma linha. existem linhas paralelas, mas não são da mesma cor. eu sou um dos retalhos da manta, sinto a picada da agulha que trespassa o tecido... 

 ai! piquei-me! esqueci-me de pôr o dedal. 

 as conversas não têm fim. a máquina de costura não cessa o seu chilrear. há bainhas para fazer. há palavras sábias para escutar e sonhos a partilhar. hoje falei de um desejo que tenho. esse desejo coloriu o meu retalho. hoje fui um retalho mais garrido. um dia o meu desejo vai realizar-se. o tempo é a melhor costureira.

  Josephine

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.9.14


Uma garotinha foi ficando cada vez mais paralisada por causa das brigas frequentemente violentas de seus pais. Às vezes ela ficava horas no banheiro em pé e completamente imóvel, simplesmente porque era lá que por acaso ela estava quando a briga começava. Por fim nos momentos de calma, ela começou a pegar garrafas de leite da geladeira ou da porta de entrada e as deixar em lugares onde mais tarde ela poderia ficar presa. Seus pais não conseguiam entender por que achavam garrafas de leite azedo espalhadas pela casa toda. 

  Sarah Kane

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27.9.14


Faça amor nu 

 Quando for fazer amor. 
Faça nu. 
Tire os diplomas. 
O status. 
Sucesso profissional. 
Suas etiquetas de grife. 
Tire a chaves do carro. 
Os cartões de crédito. 
Tire tudo. 
Até só sobrar a deliciosa. 
Apimentada humanidade.

  Zack Magiezi 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

26.9.14


Extrasístoles 

O meu coração
teima em
lembrar-me
que ainda
está
aí.

 Begoña Paz

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.9.14


5 minutos 

Você tem 5 minutos pra ficar triste
5 minutos pra duvidar 
se deus existe 
5 minutos pra chorar 
pelo que resiste 
depois ponha tudo no lugar
a lágrima no bolso 
a face no rosto
e jogue sorrisos 
pra quem estiver disposto

Marilia Kubota

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.9.14


Medo 

 Surgiu 
Por detrás 
Da nuvem escura 
Que tapou a lua. 
Escorregou 
Sobre a planície, 
Negro, 
Envolto 
Em longas 
Chamas. 
Era meu. 
Pertencia-me. 
Era o medo. 

  Maria Amélia Neto

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.9.14


vai

a mulher senta-se na beira da cama, no final do dia, 
e pensa... 

 o que é que fiz hoje? 
 o que foi o meu dia? 
o que é que fiz por mim? 
como é que posso mudar a minha vida? 

vai para a casa de banho, lava-se, inventa um pijama e vai dormir. 

  Ana

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

20.9.14


Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possível, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstrói entre cacos e silêncio. 

  Roberto Piva

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

19.9.14


co(ração)
 
cachorra & carente
procura:

pessoa que alimente
any mais
dia & noite

 Valéria Tarelho

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18.9.14


 o mundo não é um lugar agradável
para se estar sem
alguém para defendermos ou que nos defenda

um rio só deterá
o seu fluir se
uma corrente lá estiver
para o receber

um oceano nunca escarnecerá
se as nuvens não estiverem lá
para lhe beijarem as lágrimas

o mundo não é
um lugar agradável para se estar sem
alguém

Nikki Giovanni

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17.9.14


Salmo pela distribuição 

Senhor,
na Rua nº 8
entre a 6ª Avenida e a Broadway
em Greenwich Village
há tantas sapatarias
com tantos sapatos
que me pergunto
por que há tanta gente descalça
na terra.

Senhor,
tens que despedir o Anjo
que tem a tarefa da distribuição. 

Jack Agüeros

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14.9.14


Não sei ao certo porque eu deito na cama no meio de uma tarde enquanto poderia estar fazendo milhares de outras coisas por ai. Dificilmente eu estou cansado nesse horário, mas eu sinto uma vontade de ficar lá olhando pra cima por um momento, sem música, sem luz, sem barulho. E pode acreditar, não é sono. Talvez eu tenha encontrado um lugar que eu consiga desistir sem que ninguém veja, escute ou perceba. Nem mesmo eu. Ando fazendo muita coisa escondido de mim.

  Sean Wilhelm

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12.9.14


Convite para uma xícara de chá de jasmim

Entre, dispa a
tristeza, aqui
pode 
nada dizer. 

  Reiner Kunze

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11.9.14


Nunca te esqueças que te amo com todas as forças que tenho, e que estou contigo sempre e em todos os momentos. É horrível ver a orquestra a tocar, para uma sala cheia de tipos fardados, afundados nas cadeiras numa melancolia sem remédio: sinto-me tão arrependido de não termos ido dançar mais vezes, e apetece-me tanto dançar contigo, sinto-me tão arrependido dos momentos em que discutimos, e apetece-me tanto pedir-te desculpa, de lágrimas nos olhos juro, e dizer-te que gosto sempre e tudo de ti.

  António Lobo Antunes

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10.9.14


 Entra pra ver
como você deixou o lugar
E o tempo que levou pra arrumar
aquela gaveta
Entra pra ver
Mas tira o sapato pra entrar
cuidado que eu mudei de lugar
algumas certezas.

 Cícero

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9.9.14


Dentro da gente

Mas acredite nisto que eu lhe digo, as pessoas aguentam muita coisa. Somos capazes de suportar tanta coisa, até quando achamos que não vamos conseguir, depois acontece a vida continua mesmo que dentro da gente tenha morrido qualquer coisa. Estou sempre a dizer isto, a dor também faz parte da vida. Não há nada a fazer. Podemos lutar contra isso, claro, mas depois acabamos por perceber, a certa altura, que a vida foi inútil! Gastaram-se forças que podiam ter sido mais úteis noutras coisas. 

  Rainer Werner Fassbinder

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