"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

20.10.09

Eu e meus botões...

Tanto pra admirar!
mar, lua, estrelas, firmamento...
outro tanto para provar:
amor, saudade, liberdade... sentimentos;

Cá com meus botões - o que faço aqui?
escassas emoções geram tormento:
se nadar, caminhar posso... porque não posso voar?
porque não posso tocar o céu, se posso sentir o vento?

Jorge Arildo

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Fissuras

Não me olhes com esses olhos
De despir a alma alheia
Não te disse com meus olhos
Que em minh’alma ninguém passeia?

Posso ter-te confundido
Na tentativa de ser clara
É meu olhar, esse bandido,
Que minhas fissuras escancara.

Porque em meu peito amor palpita
E por olhos menos intrusos
Que os teus, que me põem aflita.

Portanto, desvia esses olhos, rapaz,
Que a rapariga que te fala
Já tem alguém a esperá-la no cais.

Rachel Rabello

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O sol está no meio do trajeto:
- esparge raios lúcidos e quentes
que vão arder nas várzeas adjacentes
onde o silêncio é ser e a sombra é teto.

O sol aos poucos deixa tudo quieto
e vai tombar nas áreas silentes
em meio aos cânticos das almas crentes,
em meio aos cânticos de amor e afeto.

E nós, amada, vamos sempre andando
sem perdermos a força da partida,
sem perdermos o amor que vai passando.

O sol não morre nunca em nossa vida:
- em nossa frente vai iluminando
o resto da existência tão querida.

Artemio Zanon

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Agora que as palavras secaram
e se fez noite
entre nós dois,
agora que ambos sabemos
da irreversibilidade
do tempo perdido,
resta-nos este poema de amor e solidão.

No mais é o recalcitrar dos dias,
perseguindo-nos, impiedosos,
com relógios,
pessoas,
paredes demasiado cinzentas,
todas as coisas inevitavelmente
lógicas.

Que a nossa nem sequer foi uma história
diferente.
A originalidade estava toda na pólvora
dos obuses, no circunstanciado
afivelar
dos sorrisos à nossa volta
e no arcaísmo da viela onde fazíamos amor.

Eduardo Pitta

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Perdeu-se o teu retrato
apagou-se como se apaga
aquilo que se esquece.
Eras jovem, um caule vigoroso
vinhas de longe, chegavas
de um lugar fantástico
- nunca cheguei a saber
qual era esse lugar: se tinha casas
e jardins
se tinha verão, se tinha mar
se era longe ou perto esse lugar.
Um vento raso cobriu de esquecimento
o teu retrato
- era da infância que vinhas?

Nuno Higino

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Vem hoje um cheiro tão bom lá de fora do mundo!
Um cheiro a esponsais de primavera
com deusas de astros na fronte
e enlaces de folhas de hera
no cabelo voado...

(Ah! se eu encontrasse a ponte
que vai para o outro lado!)

José Gomes Ferreira

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se me perguntares por
que fugi, talvez te diga

que os dias contados para trás tão depressa
fazem doer o coração e

apenas acrescentam
a incomparável morte das
palavras não mais proferidas

João Ricardo Lopes

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O que desejei às vezes
Diante do teu olhar,
Diante da tua boca!

Quase que choro de pena
Medindo aquela ansiedade
Pela de hoje - que é tão pouca!
Tão pouca que nem existe!

De tudo quanto nós fomos,
Apenas sei que sou triste.

António Botto

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À flor da pele

Fogo na pele,
Pele em flor!
Flor que fere,
Fogo de amor!

Flor da pele,
Pele em cor.
Pele a pele
É pleno ardor!

Flor impele
Dor de amor.
Dor que fere
A flor do amor!

Pele pede,
Aflora em flor.
Mela a pele,
Doce amor!

À flor da pele,
Trêmulo fervor!
À flor da pele,
Atração em furor!

Paixão elevada,
Rasgada em ardor!
Pele indomada,
Fervente de amor!

Marcos Woyames de Albuquerque

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Sou

Sou o que a vida me faz a cada dia
um tanto de tristeza, outro de alegria
uma lágrima que cai doida
um sorriso que vence ao fim da lida

Sou mulher, sou menina, pouco sei
ora dona de mim, de tudo e de ninguém
segura, insegura, tantas vezes relutei
tentando me encontrar também

Sou o que sou a cada hora
não busco fatos nem razões
sou apenas um ser experimentando
todas as suas emoções

Não me conheço, podem dizer
mas só eu sou o que eu posso ser
e sou tudo que posso em cada tempo
tentando ser sempre eu, a todo momento

Célia Jardim

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Fazer um céu

Fazer um céu, com pouco a gente faz
basta uma estrela
uma estrela e nada mais.
Pra ter nas mãos o mundo
basta uma ilusão
um grão de areia
é o mundo em nossa mão.
Sonhar é dar à vida nova cor
dar gosto bom às lagrimas de dor
o sol pode apagar, o mar perder a voz
mas nunca morre um sonho bom dentro de nós.

Mário Lago

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Flauta Doce

hoje eu só quero um som de flauta doce
como se fosse a minha amada irmã
a poesia solta que me vem na brisa
e assim desliza, ao sopro da manhã

eu quero ver asas de borboleta
uma opereta, compondo no jardim
e o jasmim que exala o seu perfume
no claro lume de calor sem fim

quero besouros e os seus zumzuns
girando em meio ao vento com alarde
por um momento ouvir os passarinhos
voltando aos ninhos no final da tarde

participar da festa no arvoredo
contar segredo para a passarada
saber que nada pode causar medo
e descansar na rede, na sacada

hoje eu só quero ter um dia lindo
quadro perfeito de grande pintor
e melodia clássica, aspergindo
à minha volta, a mágica do amor

Hoje só quero som de flauta doce
a embalar meus sonhos de poeta
que me fizesse esquecer o amargo
desta saudade, amiga predileta...

Lisieux

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Vou catar conchas pra você
Pequenas e grandes
Coloridas e translúcidas
Onde possas escutar a voz do mar
Conchas que reflitam o teu olhar
De brilho raro e encantador
Olhar meio sonhador
Vou catar sonhos pra você
Descortinados e dourados
De braços abertos à vida
Enquanto me banha a luz da lua
Algas roçando meus pés descalços
Seguindo sozinha na noite nua
A trilha dos teus passos.

Maria Jania Teixeira

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19.10.09

Beba-me!...

Sou tua água
Seca-me com tua boca
Lábios sedentos
Bebe-me até a última gota
Acabe com este meu tormento
Que de tanto desejar-te
Faz-me louca!
Não me deixes
Nem se escondas
Quero-te bem vivo
Pois sou a água que
Para sempre jorrará
Eternamente em tua fonte!
A cachoeira que banhará
Teu lindo corpo nu!
E com beijos secarei as gotas
E nos mares me deliciarei
Tirando-te o sal da boca
Alimente o desejo dos meus olhos
E acalma com teu ardor
A inquietação desta alma louca!

Helena Lins

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Não cantes o meu nome em pleno dia
não movas os seus ásperos motivos
sob a luz dolorosa sob o som
da alegria

Não movas o meu nome sob as tuas
mãos molhadas do choro doutros dias
não retenhas as sílabas caídas
do meu nome da tua boca extinta

Não cantes o meu nome a primavera
já o ameaça hoje principia
a vida do meu nome não o cantes
com a tua alegria

Gastão Cruz

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Uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmônica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora

Mário Dionísio

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Menina de Saia Encarnada

Menina bonita
De saia encarnada
Que passas na rua
Correndo apressada
Corre contente
Que a vida é ligeira

Menina bonita
De saia encarnada
Os teus pensamentos
E os teus caracóis
Parece que bailam
Contigo na lua,
E a tua cabeça,
ligeira doninha
Parece mais leve
Que uma andorinha

Corre menina
De saia encarnada
Que a vida p'ra ti
É sonho e mais nada

Vivaldo Beldade

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