"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


31.10.11



as pessoas morrem nunca partem de nós, eu separei-te
de mim, cortei-te-me. em cinemas imaginários filmados por
mãos iluminadas usei teu corpo. coloquei o deserto do teu
coração rente à minha boca. lavaram-me o desespero as
lágrimas que choravas no escuro. parti-te.
estou a fazer-te luto. desejei-te tanto. discuti-te tanto
contigo. agora percebo que te atirei demais contra tantos
poemas. agora encontramo-nos. eu tenho de colar-te os restos
para conseguir ver-te para além do que trago molhado nos
olhos, acabou o passeio no meu jardim interior, pleno de estatuas quebradas, as noites acabo sempre assim, abraçado ao rosto restos da pedra, agradecendo-lhe as imagens.

Pedro Sena-Lino

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30.10.11



Houve um tempo em que eu era capaz de mexer na luz. Agora abro os olhos e nunca encontro nada. Há esta escuridão. Que invadiu tudo. Houve um tempo em que, mesmo sem te tocar, te desfazias na luz. Eras a ideia. A casa. A pessoa. O lugar. O nome. Para as coisas. Para a vida. Estavas nas minhas mãos. Como eu nas tuas. Abertas sempre. Houve um tempo em que acendias a luz. Só para ver se eu ainda estava lá. Confirmavas-me. Houve um tempo em que pusemos feitiços nas mãos um do outro. Depois apagamos a luz. Guardamos a magia nos bolsos. E esquecemo-nos. E eu. Há dias destes. E eu. Não sei ainda o que faço aqui. Com esta luz nas mãos. Sem as tuas.

Elisa

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29.10.11



À morte pertencemos. Desde sempre. Devíamos viver por camadas. Para escapar à morte. A essa morte que nos custa mais. A morte dos outros. A morte sem máscaras. Ou explicação. A morte crua. A profunda escuridão. Devíamos viver por camadas. Aqueles que se conhecessem, se falassem ou se amassem morreriam todos juntos. De uma vez só. Seria mais humana. Essa ausência do vazio que enche tudo quando nos morre alguém que amamos. Porque o que nos custa, o que nos entranha esta tristeza insustentável, não é pertencemos nós à morte. Mas é ficarmos vivos, carregando a morte dos outros.

Trista

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25.10.11



Resquício

Às vezes
a dor de chuvas passadas
cai em mim fina,
reelaborada,
a tanto de não ser eu
assim mais que uma bolha
na espuma da tarde
molhada.

Fernando Campanella

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23.10.11



Sem porto
Sem norte
Cheia do nada
Sem som
Sem dimensão
Silêncio invernal
Coração frio
Esperanças perdidas

Você se foi... Nada restou...

Silvia Costa

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22.10.11



A dor e a saudade

A dor e a saudade
são dois pássaros em voo
tentando
alcançar o galho mais alto
do esquecimento

Mariza Alencastro

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14.10.11



Na tua morte

De repente, o disco parado.
O copo vazio, a torneira fechada.
De repente, o som desligado.
No silêncio da casa gelada
ainda o cheiro breve da tua mão
na t-shirt caída no chão.

Viajas-me por dentro - e sobe em mim
a maré da saudade, o desespero,
o sem gosto do amargo gosto
de que é feito o não retorno.
O nunca mais. O fim.

Guilherme de Melo

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9.10.11



Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas

I
Cubro-te de beijos. Percorro-te. Desenfreadamente. A maciez da pele, o respirar tosco, o olhar sibilante. Sou das tuas mãos. Do teu amor. Aconchego-te a roupa, enrosco-me no teu calor. Sou um gato, uma bailarina doida. Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas. Sou do teu amor. Deixo-me estar. E um rio? um silêncio? uma forma de música invade-me o corpo. Sou o sol. E tu a luz.

II
Pinto-te as cores. Peço-te os minutos, as asas e os pés. Mio. Quero ser um gato. Enroscar-me no teu calor, pertencer ao teu carinho. Peço-te os minutos, as asas e os pés. Sou uma bailarina, numa dança tosca, onde percorro a maciez da tua pele, onde me perco no teu olhar. E sonho o sol. Os dias de sol ao quadrado.

Agripina Roxo

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2.10.11


Há tanto tempo não usado, encontrei o amor, sem querer. Ontem. Jogado debaixo da cama. Empoeirado. Sem caixa, bula, manual. Um amor, assim, abandonado. Sujo. Rasgado. Fóssil soterrado. Navio afundado há anos. Casarão com tábuas pregadas nas janelas. Lençóis brancos sobre os móveis. Um amor acostumado com o escuro. Com o frio do quarto fechado. Com a passagem rápida de um inseto no meio da madrugada. Um velho amor largado. Pronto pra ser reciclado. Procurado por toda casa nos lugares errados. Nos armários limpos. Entre taças. Louças. Dentro de caixas fechadas com laços. Sob tapetes varridos. Cantos desinfetados. Um amor chamado no grito. No gemido da febre. No cochicho da oração. Um amor sumido. Necessitado. Um amor que apareceu quando quis. De repente. Em um lugar inesperado. Há tanto tempo não usado, eu, ontem, tropecei no amor. Empoeirado. Sujo. Rasgado. Abandonado debaixo da cama. Um amor que talvez nem funcione mais.

Eduardo Baszczyn

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