"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

21.10.10

Mais nenhuma foto

Mais nenhuma foto, de certeza que há suficientes.
Mais nenhuma sombra de mim atirada pela luz para pedaços de papel, para quadrados de plástico.
Mais nenhuns dos meus olhos, bocas, narizes, humores, maus ângulos. Mais nenhuns bocejos, dentes, rugas.

Eu sofro da minha própria multiplicidade.
Duas ou três imagens teriam sido suficientes ou quatro ou cinco.
Isso teria permitido uma idéia firme. Isto é ela.

Assim, sou aguada, enrugo, de momento em momento dissolvo-me nos meus outros eus. Vira a página: tu, a olhar, estás novamente confuso. Conheces-me bem demais para me conhecer. Ou, não bem demais: a mais.

Margaret Atwood

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20.10.10

Busca-se um guarda-chuva

Ainda não consigo viajar aos sonhos de um gato.
Nem dormir no centro de um furacão.

Este é um tratado sobre ratos.
Pela esquerda afugento o roedor da insônia.
Pela direita oculto o rastro de uma lembrança.

Se os ratos fecham um olho, escrevo.
Se abrem, levam o que calo.

Há virgens encarnadas que habitam a ratoeira do vazio.
Discurso metódicos que não fazem ninguém feliz.

Amanhece na boca da sede que amanhece na mirada.

A palavra encharca como um guarda-chuva
sob um dilúvio de abraços perdidos.

A solitária palavra se diz sozinha
entre os solos de novembro.

Yadi Maria Henao

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19.10.10

Suposição

Eu não sei ao certo, mas suponho
que uma mulher e um homem
um dia se amam,
vão ficando sozinhos pouco a pouco,
algo em seu coração lhes diz que estão sós,
sós sob a terra se penetram,
vão-se matando um ao outro.

Tudo se faz em silêncio. Como
a luz se faz dentro dos olhos.
O amor une corpos.
Em silêncio vão-se enchendo um ao outro.

Qualquer dia acordam sobre braços;
pensam então em tudo.
Vêem-se nus e sabem tudo.

(Eu não sei ao certo. Suponho-o)

Jaime Sabines
(trad. José Bento)

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18.10.10

Tarde

Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.

Vasant Abaji Dahake
(trad. de Pedro Amaral)

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17.10.10

trago no peito uma saudade antiga
eterno segredo de embalar a ternura num berço de névoa

tenho um pomar que não cheiro
e uma música que não decifro

lá fora mora o medo e uma guitarra despenhada

trago no peito a saudade citrina de amar.

Isabel Mendes Ferreira

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16.10.10

No sótão

Ainda que soubessemos agora
que a tua roupa não seria mais
necessária guardamo-la,
lá em cima, numa arca fechada.

Às vezes lá estou eu, ajoelhado,
segurando-a, tentando reviver
o tempo em que a usaste, recordar
o tamanho real de braços e pulsos.

As minhas mãos descem por dentro
de mangas invisíveis, vazias,
hesitam, depois exibem
amostras da memória:

um feriado verde, um batismo vermelho,
todas as tuas vidas incompletas
definhando através dos verões sombrios,
entrando na minha cabeça como poeira.

Andrew Motion

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15.10.10

Prelúdio

te encontrei como por encanto
num desses acasos
num dia triste de outono

te encontrei assim
numa estrada qualquer

e quando percebi
já caminhava ao teu lado

minhas mãos já eram as tuas
e o peso da solidão havia acabado

os meus passos seguiam em cadência com os teus
tu eras o abrigo, o leite morno, a cama quente
e a vida era um eterno gargalhar.

mas isso foi no outono...
e o inverno não tardaria a chegar.

Lou Witt

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14.10.10

Regresso

E, contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi à aventura de partir e de chegar.

(...)

Manuel Alegre

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13.10.10

Da minha janela

Gentis borboletas coloridas
migraram dos meus sonhos despertos
para a janela de onde contemplo
a vida que escorre pelas narinas do tempo

No núcleo das vontades adormecidas
algumas boboletas em voos incertos
ainda estão a bailar aqui e ali
Ora na janela, ora dentro de mim

Úrsula Avner

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12.10.10

Grapefruit Moon

Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.

Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida — chamemos-lhe
assim — separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.

Manuel de Freitas

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11.10.10


(...) Eu já sou muitas.
Meus olhos, é verdade,
ainda se mantêm amorosamente
indiscretos, e minha alma busca
da palavra as seduções segredosas
que me ardem no peito.

Mas já não me deixo
possuir.

Arriete Vileta

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10.10.10

Esta noite

Esta noite
no silêncio destas paredes sombrias
cheias de palavras consumidas
a lua dança com gestos de encantamento
e as estrelas sorriem de prazer

Esta noite
invento-te nesta distância magoada
onde as palavras repousam
nos lábios ausentes que riem e se alimentam
de sabores sonhados

Esta noite
arde uma fogueira de nostalgia
e o mistério absorvente da tua luz
entra em mim mansamente

Aqui
longe de ti e de tudo
sinto-me bem dentro de ti
e deixo-me ficar

António Sem

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9.10.10

Reencontro

E os meus olhos
redescobriram-te
através dos séculos.
E as minhas mãos,
conchas vazias,
encheram-se de sonhos
perdidos nos seixos
lapidados de teu
corpo amado.

Regine Limaverde

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8.10.10

Flores & Frutos

Compre na passagem
um ramalhete simples
e enfeite
a sala de visitas

tenha a visão
do jardim de ontem

aspire o perfume
como sonho encontrado
de situações futuras

refaça as flores no vaso
retire as hastes
diminua o tamanho
equilibre a disposição
entenda a beleza
decorrente da combinação

a sala resplandece nas cores
silvestres das flores
e o jardim se faz breve
na efemeridade
da vida e morte.

Pedro Du Bois

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7.10.10

Aritmética

... e a maciez de tudo:
um lápis entre os dedos,
dois cigarros,
quatro colheres de
açúcar,
que me amargava o chá
(mesmo de nervos)

Assim já está
melhor: amarga a vida
mas o chá docinho:
luminosa cidreira
entre pregas e rotas
interiores.

Caminho certo
para o coração

Ana Luísa Amaral

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6.10.10

Abismo

Vens a mim, te aproximas, te anuncias
Com tão leve rumor, que meu repouso
Não perturbas, e é um canto milagroso
Cada palavra que tu pronuncias.

Vens a mim, e não tremes, não vacilas,
E há ao nos olharmos atração tão forte
Que tudo desdenhamos, vida e morte,
Suspensos só no brilho das pupilas.

Penetras calmamente em meu viver,
E te sinto tão perto do que cismo,
E há nessa possessão tão funda calma

Que interrogo ao mistério em que me abismo
Se somos dois reflexos de um só ser,
A dupla encarnação de uma só alma.

Enrique González Martínez
(trad. de Renato Suttana)

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5.10.10

Passam ventos de morte...

Passam ventos de morte, passam ventos
Pelos jardins outrora perfumados.
Flores pendidas, mortas, laceradas,
Abrem no chão feridas silenciosas.

Passam ventos de morte. E tudo é tão gelado
E tudo é triste e tudo é desconsolo.
A chuva desce sobre os cemitérios
E leva frio aos mortos esquecidos.

Passam ventos de morte. Trazem velhos
Perfumes de esperanças já vencidas.
Vozes distantes, vozes do passado.

Teu sorriso... Tuas mãos às minhas presas.
Amada... Teus cabelos, teus cabelos...
Teus carinhos que nunca foram meus!

Hélio Pellegrino

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