"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

17.9.10

Os cisnes

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

Júlio Mário Salusse

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16.9.10

Lena

Dentro do valle, ao lado de uma penha,
de onde caindo um fio de água canta,
a casinha de Lena se levanta
ficando bem de frente para a brenha.

Mira de longe quem na estrada venha
entre a verdura da fecunda planta.
Alli, a voz de Lena em tom que encanta,
esconde o som monótono da azenha.

A água que escorre pelo valle a dentro,
vae na ravina humedecer as flores;
e eu só para escutá-la, me concentro.

Amo-a e fujo-lhe a medo... Disse alguém
que ella, uma vez, falando-se de amores,
jurou nunca na vida amar ninguém.

Álvares Bezerra

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15.9.10

Colecionador de quimeras

Quando as minhas angústias
começam a morder-me
ponho-lhes a trela
saio à rua a passeá-las
e deixo-as ladrar
ao tédio transeunte.

Depois ponho-lhes asas
e deixo-as voar
como pássaros
em busca de primaveras
imprevisíveis.

António Tomé

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14.9.10

Lembrança

Só ela compreendia o som
dos meus silêncios. Temia
às vezes que o tempo hostil
fugisse enquanto conversávamos.
Depois disso esvaiu-se a memória
e vejo-me agora a falar
dela contigo, entre espirais de fumo
que anuviam a nossa comoção.
Esta é a parte de mim que encontro
mudada. O sentimento em si informe
neste agora que é apenas saudade.

Eugénio Montale
(trad. de Ivo Barroso)

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13.9.10

escondida na toalha, o vagar da tesoura mordendo afinada, ela cortou parte de seus cabelos na pia larga do banheiro maior – os fios acabados engolidos com a água. na porta entreaberta, nossas vidas se encontraram e um espelho embaçado (desvio de olhar fixo) uma lágrima de vapor escorrendo no reflexo. escutei o toque do aço no mármore, o ruído da chave dando voltas, o ímpeto da ducha quente estalando o chão.

Victor da Rosa

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12.9.10

Deitados lado a lado, envoltos nas fadigas do dia. Paisagem fresca e calma onde passam histórias irrealizáveis, o sono repousava sobre nós. Nenhuma espada precisava de nos separar.

Um peso delicioso, pesando na minha perna, despertou-me. Reconheci o teu pé. Soube então, por um homem e uma mulher que se conhecem, o que era estar deitado lado a lado.

Ernesto Sampaio

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11.9.10

Passagem

Entre fantasia e realidade
invento cores
entre solidão e a lágrima
eu canto.

Se a verdade queima meus sonhos
e a dor arde insuportável
eu choro até a noite acabar.

Depois eu lavo o rosto,
tomo meu café
e saio de bicicleta
à procura de outros caminhos.

Flávia Menegaz

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10.9.10

Melodia apenas
- sem caveiras de fogo
a iluminarem o pensamento das pedras.

Melodia apenas
- sem o suor das mãos dadas
no guiar dos labirintos.

Melodia apenas
- sem as lágrimas por dentro das flores
a queimarem o coração dos mortos.

Melodia apenas
dos pássaros ocos
a cantarem nas árvores
a repetição emplumada
do cio do primeiro mundo...

Vem, melodia!
Melodia apenas.

José Gomes Ferreira

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9.9.10

Primeira Pessoa

Eu preciso dizer
coisas que não posso
eu preciso ser
coisas que eu sou
eu preciso ser melodia

eu preciso viver
a vida que vive
em mim
desatinada
desarvorar que nem
coisa ruim
e depois
voltar
com aquele sorriso
nos olhos

e preciso destruir os medos
romper as correntes
rasgar elo por elo
Paralelamente
a minha própria
pessoa

Eu preciso amar incondicionalmente
sem neuras e
apelos...
desvencilhar-me dos fantasmas
que insistem
na alma toda

Ser gota
mulher e verdade
eu preciso ser
EU
Nem que seja só agora.

Lúcia Gönczy

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8.9.10

Da impossibilidade

Sempre um de nós
foge. Sombria água
trépida e contínua
água em céu diverso
como diversa eu sou
chão sem flor.

Vã palavra, múltipla
palavra, longínqua
semente entre o arco
e a corda. Nada sara
em meu cego corpo
eu que imagem sou,
não alegoria.

Tremor antigo, árvore
sem fruto, nada resiste
nesta cidade sem casa
- só a garça chega em seu
liso voo porque o tempo
nunca é longo.

Ana Marques Gastão

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7.9.10

A vingança dos objetos

alforriei
os teus canários
primeiro
depois
soltei os laços
do vestido
voei

Sandra Regina S. Baldessin

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6.9.10

Breve instante

Sussurra o vento nas folhas....
Eis-me aqui em irreversível instante!
Eis-me aqui numa espera instigante!

Caem sobre mim, folhas dos teus versos,
Nos dias de sol ou nos dias que se vão sem ele.
Eu desejo o sonho mais puro,
Mantendo-me viva nele.

Brotam em ti as gotas do orvalho noturno.
Brotam em mim literárias falas.
Nos teus olhos, então me descubro,
Na verdade, onde tu calas.

Eritânia Brunoro

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5.9.10

Tiro de novo a fotografia do envelope e ela fixa-se logo
em mais realidade na ficção da sua imagem.

Está de perfil como sempre a vejo e olho-a tão intensamente.
Temo que ela se volte e vá falar – e que é que iria dizer?

O nosso encontro é no eterno, meto de novo a fotografia no envelope.

Nunca a amei assim.

No absoluto da imaginação. No vazio da inexistência.
Na pureza do existir que é igual ao seu nada.
No amor em si.
E a ternura que me toma é tão. Ternura de nada.

Absurda estúpida.
Na ficção interna, virada para dentro de eu ser terno.
E a sua imagem aérea.
E a reconstrução súbita de tudo quanto nela aconteceu.

Vergilio Ferreira

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4.9.10

A sua água

O que ele amava nela era a sua água - como a de uma pedra preciosa. É afinal de contas o que é realmente amado numa mulher - não a bainha de carne que a reveste - mas a sua assinatura.

Lawrence Durrel

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3.9.10

Tem na maneira de olhar
Aquela dúbia certeza
De quem pretende fixar-se
Numa doce realidade...

E o seu vulto quando passa,
Parece deixar no espaço,
A graça de uma saudade!

Há no seu riso -
Uma nota
Que lembra um laivo de sombra
Nessa beleza tão séria
Onde tudo quanto é belo
Desgraçadamente existe.

Ah!, meus amigos, a vida!...

- Falei de amor, pus-me triste.

António Botto

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2.9.10

Persona

A princípio
acreditei
que fosse flor.
A haste flexível
a sustentar
a corola
imantada
de sol.

Depois,
no corpo breve,
pressenti
a ave.
Asas inquietas
em desferir
o vôo
mais alto.

Hoje sei bem.
Ave-flor-alada
é você.
Mais que isso.
Mulher
em sua têmpera
de aço.

Ivanira Bohn Prado

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1.9.10

... umas vezes o meu amor é longínquo
outras vezes à beirinha.
Umas vezes brisa calma
outras vezes movimento inquieto das levadas
a desabar em cascatas nas encostas escarpadas.
O tempo a escorrer e eu não penso em medi-lo.
Por hoje amanhã também podia ser noite...

E o amor ali pendurado
naquele cacho de buganvílias.

Antonio Paiva

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