"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

5.6.10

Fumaça

Quando o medo abre a janela
e se esconde em meu armário
pego a bolsa
fecho a porta
saio para fazer as unhas

Sozinho em casa
o medo vira fumaça

Adelaide Amorim

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

4.6.10

Soneto a Helena

Quando fores bem velha, à noite, á luz da vela
Junto ao fogo do lar, dobando o fio e fiando,
Dirás, ao recitar meus versos e pasmando:
Ronsard me celebrou no tempo em que fui bela.

E entre as servas então não há de haver aquela
Que, já sob o labor do dia dormitando,
Se o meu nome escutar não vá logo acordando
E abençoando o esplendor que o teu nome revela.

Sob a terra eu irei, fantasma silencioso,
Entre as sombras sem fim procurando repouso:
E em tua casa irás, velhinha combalida,

Chorando o meu amor e o teu cruel desdém.
Vive sem esperar pelo dia que vem;
Colhe hoje, desde já, colhe as rosas da vida.

Pierre de Ronsard
(trad. de Guilherme de Almeida)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

3.6.10

Vincos

A luva no bolso
do antigo casaco de inverno
atravessou inerte todas as estações.

Tantas vezes entrou pela janela
o som da água molhando o passeio
enquanto nos vincos do forro de lã reteve
a memória íntima das mãos.

Inês Lourenço

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

2.6.10

Mentiras em tempo de groselha

(...)
Esta noite estive acordada, fazia vento,
chuvas fustigavam o castanheiro,
enquanto já vinha o dia,
a noite não tinha trazido paz.

Eu sabia como eram as coisas,
fui dormir e acordei numa manhã de silêncio,
lívida de tristezas.

Não se pode continuar com lamúrias.
As ameixas baqueiam podres das árvores,
no frio quintal as cores envelhecem velozes.

Experimentar tudo sem anestesia, pôr a postos
as panelas e o açúcar, gerir os arquivos, guardar os cacos.

Anna Enquist
(trad. de Fernando Venâncio)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

1.6.10

chá em chávena chinesa
lençóis de linho
jardins ingleses
sonatas em pianos tristes
damas trágicas

dispenso o cenário da realeza
a nobreza inteira
se resume em uma criatura
- meu chá, lençol, jardim e sonata

o vento do desejo assola
meus pêlos e alma
secretos caminhos
em chama clamam:
o chá, o jardim e a sonata.

Bárbara Lia

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

31.5.10

Entardecer

Hoje entardeci mais despida do que antigamente.
Não sei se pelos bosques tão devastados
se pelas bagas que colheste do meu dorso.

À tua sombra todos os amores são silvestres,
só as amoras são frutos impossíveis.

Catarina Nunes de Almeida

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

30.5.10

Que mais eu te posso dar?

Trago-te um ramo de rosas
e um pote de framboesas.
Um pôr-do-sol depois da chuva
junto com as minhas tristezas.

Que mais eu te posso dar?

Dou-te a relva da campina
ainda fresca e orvalhada.
Te trago a primeira estrela
que nascer na madrugada.

Que mais eu te posso dar?

Dou-te uma salva de prata
cheia de conchas do mar;
um bando de borboletas
... ou um raio de luar?

Que mais eu te posso dar?

£una

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

29.5.10

boneca

dentro da velha casa de bonecas
minha predileta está meio desconjuntada
braços de pano pendentes
cara de nada absoluto

bobagem ou contradição em termos
não pode ser o nada absoluto se ainda é uma boneca
mesmo quase desfeita
mas penso :
parte dela virou pó
não é mais a boneca que foi
porque começa a navegar no nada

triste e um pouco assustada
olho o espelhinho da casa e percebo que
o nada absoluto está em meu rosto também

adelaide amorim

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

28.5.10

Idílio

Entre notícias antigas e muralhas
construí com você
um amor feito alucinadamente de palavras
Meus versos seduzem os seus
seus versos aliciam os meus

Coloquei nossos livros juntos na estante
para que se toquem
e se amem clandestinamente
durante as madrugadas

Iracema Macedo

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

27.5.10

Mulheres

As minhas três irmãs estão sentadas
numa rocha de obsidiana preta.
Nesta luz, pela primeira vez, posso ver quem são.

Minha primeira irmã costura um traje de procissão.
Vai como uma Senhora Transparente
e todos os seus nervos ficarão visíveis.

Minha segunda irmã também cose sobre
a ferida do coração, que nunca cicatrizou inteiramente,
espera, por fim, tornar impermeável o seu peito.

A terceira contempla uma crosta de púrpura
que se espalha para fora do mar.
Suas meias estão rasgadas, mas é bela.

Adrienne Rich
(trad. de J.T. Parreira)

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

26.5.10

Dois destinos

A fruteira pro canto afastada
Refaz todo o silencio do ambiente
Numa agonia atroz e renitente
Das vidas por aqui passadas

E os móveis num mudo segredo
Guardam de tudo o pouco que restou
De duas vidas que o tempo levou
E que agora vivem no degredo

Duas vidas, duas sinas, dois destinos
A viver estranho desatino
De estarem sob o mesmo teto

Duas vidas, duas sinas, dois destinos
A viverem mundo peregrino
De sentimentos inquietos

Osvaldo Pastorelli

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

25.5.10

... ah, aquele tempo de tua longa ausência!
(...) Em tuas cartas, que agora recordo com tão viva lembrança,
me amavas tanto, me adoravas, me engrandecias.

Vias em mim sensibilidades de que eu mesma não suspeitava.
E mais: induzias-me, quase que me imploravas, para que eu
fosse feliz, apesar da tua ausência.

Através da distância me sublinhavas.
Pelas cartas, o nosso amor era um tão grande amor!

Elisa Lispector

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

24.5.10

Sobre meninas e sonhos

Casou cedo, menina ainda.
Na mala - rendas, cambraias, cetim.
E um pouco de algodão - puro.
No coração - sonhos.

As rendas, cambraias e cetim, pouco usados, continuam lá.
O algodão, agora manchado, resiste bravamente.
Os sonhos, quase esquecidos, dormem no fundo da alma.

Vera Abi Saber

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

23.5.10

Apago cigarro após cigarro,
a chávena ainda quente do café,
e o corpo todo à escuta.
No sono entrevi o teu olhar e
ao visitar-te, excessivamente te beijei.
Entre temor, entre comas, os lugares
que habito são apenas pontos
de esquecimento e fuga.

Tenho medo, por vezes, de estar em casa,
outras, de sair, não sei o que me persegue
ou persigo, movo-me apenas
por entre odores, escombros, e aflita
com perigos indefiníveis.

Helga Moreira

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

22.5.10

Velando

Junto dela, velando… E sonho e afago
imagens, sonhos, versos comovido…
Vejo-a dormir… O meu olhar é um lago
em que um lírio alvorece reflectido…

Vejo-a dormir e sonho… Só de vê-la
meu olhar se perfuma e, em minha vista,
há um céu de amor a estremecê-la
e a devoção ansiosa dum artista…

Nuvem poisada, alvente, sobre a neve
das montanhas do céu - ó sono leve,
hálito de jasmim, lírio, luar…

Respiração de flor, doçura, prece…
- Ó rouxinóis, calai! Fonte adormece,
senão o meu amor pode acordar!

Augusto Casimiro dos Santos

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

21.5.10

Tudo dorme

Amanhece e tudo dorme.

Dorme o cão, guardando a casa.
Dormem meus músculos, meus ossos.
Dorme a chuva fina e o tempo.
Dormem os medos de meu pai,
dorme a fome de meu filho.
As roupas e as palavras de ontem
dormem preguiçosas.
Dormem os amores e os amigos.
Dorme a vida embaixo do travesseiro.

Enquanto amanhece,
dormem o pão, a água, a brisa.
Enquanto amanhece
insone
a dor
me morde.

Marcia Cardeal

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

20.5.10

Agora sou...

Agora sou
porto de silêncio que conhece
a rota da madeira,
porta do sótão
e turbilhão de folhas
que, pela cozinha, arrasta o vento.

Agora sou
a casa que conhece
múrmuras colméias,
unhas do gato prateado,
o desatino matinal dos pássaros
e o amor das janelas pelas nuvens.

Ao perfume da erva
após a chuva
une-se o do café.

Do tempo passado
a decifrarmos juntos paredes
de granito e cal
vem-nos doce a fadiga.
Repousemos.

Flor Campino

¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨