"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

22.11.09

A feminina nuca

Os cabelos
enrolados
despiam-lhe a nuca
expondo a penugem
e a raiz das melenas.

Vislumbrei
o pescoço de uma garça
e o seu branco córrego,
vórtice sensual.

Altiva e grácil
a silhueta
tornara-se
deleite e súplica.

E o que mais fosse
seria despenhadeiro;
e o que mais falasse
era rubor, era entrega.

Waldir Pedrosa Amorim

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21.11.09

Relíquias

Nesta velha caixinha abandonada,
que a ação do tempo fez mudar de cor,
retalhos de minh’alma emocionada
guardei, outrora, com carinho e amor...

Relíquias... Eram cantos de alvorada,
e hoje traduzem nostalgia e dor.
Restos mortais de uma ilusão dourada,
vago perfume de sidérea flor.

Ai, tudo o vento do destino leva:
A luz se apaga e, a divagar em treva,
erram lembranças que doridas são!

Na vida é tudo assim! Tudo envelhece
mas, dentro d’alma o sonho não fenece
e o coração... é sempre o coração.

Emiliana Delminda

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20.11.09

Saio da cama pela fenda do lençol e
fecho-a sobre ti. Toco o chão ao de
leve, como uma ave pousa na pele
das ondas. Visto-me às escuras - tão

mais discreta a blusa do avesso, a saia
tão distraída nas costuras. Vou
para a cozinha de sapatos na mão e

escrevo-te um bilhete: deixei-te um
beijo sobre a tua almofada antes
de sair. Não preciso assinar.

Maria do Rosário Pedreira

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19.11.09

Ardo-me

Ardo-me por um tango de Piazolla
um soneto de Neruda
um poema de Lorca
encolho-me sob os personagens
de Guimarães
exibo-me às palavras de Luiz
ser não é viver o desejo
é ser o próprio desejo
respirá-lo
expirá-lo
senti-lo no baixo ventre
destilando nas veias
para bebê-lo ardente
direto da boca da alma.

Márcia Leite

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18.11.09

Teu vulto leve, ao fundo do passado,
Volve-me, ás vezes, um olhar maguado,
Que lembra o luar, por entre nevoas finas.
Ainda tenho, no espelho das retinas,
O parque familiar, e os velhos bancos,
entre tanques azues e jasmins brancos,
Onde a vida juntou, em dias vãos,
As tuas lindas mãos ás minhas mãos.
Onde estás, minha doce companheira?
Como a rosa, que tomba da roseira,
Ficaste numa curva do passado.
Como dóe recordar o tempo andando
Nas manhãs de illusão, nas noites calmas!
Uma lagrima a abrir dentro das almas,
Como um pallido sol num céo de outono,
Um gesto, um longo gesto de abandono,
Um desconsolo, um pouco de saudadinha,
E nisso está toda a felicidade...

Alberto de Oliveira

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Bordados

Hoje,
teço
um estranho manto
para os dias de solidão
a
pérolas de desencanto

(a paixão,
foi um pássaro que emigrou
para os lagos de Avalon)

Cubro-me sem luto
do coração até à alma
com um pouco de tristeza
Recortada a diamante

eterno foi o instante
quase tecido de beleza
lhe coso uns pontinhos
de Amor incrustado
e almiscaradas saudades

Belo manto - desencanto
como o da Senhora do Lago
a ponto-cruz bordado
com as linhas da magia

Tenho a chave!
Tenho o mote
para chegar à outra margem

Tenho a força
e a energia

Sagrada
Tenho também
minha espada de Lancelot

Luiza Caetano

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Amar de Amor, Amor de Amor (III)

Pouco sabeis de mim. Hoje percebo
que o segredo mais puro do que sou
vos é desconhecido. É um arremedo
apenas do que sinto o que vos dou.
Se é receio vos largar o coração,
talvez eu tema. Sei o que é silêncio,
a magia de compor a solidão
uma outra vez. E sei que não convenço
vossa distância em minha entrega. Perto
ou longe, sois limite próprio. Surda
é em vós essa paixão em que desperto
um arrepio que vossa paz perturba.
E intensa me contenho e mais não faço
para atrair-vos ao céu que vos disfarço.

Lupe Cotrim

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Fragmentos

Nada lhe entreguei
do que em mim é puro.
Nem minhas noites insones
nem meus dias inseguros.

Nada lhe falei
de meus temores,
nem dos desabraços,
nem dos desamores.

Ocultei-lhe,
um a um,
os meus fracassos
Dissimulei,
com um sorriso,
o meu cansaço.

Fragmentos de mim
eu lhe entreguei...
E por me camuflar
e me esconder
eu,
que só queria ser amada,
fragmentos de amor colecionei...

Henriette Effenberger

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Sopra um vento entre mim e ti
nascido como todos
quando escavávamos dentro de nós
escavando a distância

foi já tempestade fechada em nevoeiro
hoje é apenas brisa
afrouxada na distância

recebo esse sopro suave como uma carícia
de quem ao largo me acena
enquanto parte

sempre entre nós um vento
ar com que te respiro
enquanto o longe nos escava
a distância

Ana Viana

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Um dia talvez...

Um dia...
quem sabe tenhamos tempo...
Tempo para estar no mesmo lugar,
e pensar os mesmos pensamentos...
Um dia...
quem sabe...
Ainda teremos tempo para nos olhar
e ver quem realmente somos...
E só depois disso,
nascerá em nós a certeza
do que estamos buscando um no outro...
quem sabe...

Enquanto isso não acontece,
fique com um pouco de mim...
o meu poema para você...
Medite sobre ele...
Me sinta por ele...
Me espere... Com ele...

Vilma Galvão

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Em vam apuro a minha fortitude,
Senhora, por vencer o meu Amor.
Debalde o vosso olhar, que assi me illude,
Ao meu denega o bem de seu fulgor.

Que quanto mais de vós se desilude
Meu tino vam, mais eu chego a suppor
Que tal fereza hum dia se desmude,
E que peneis tambem da mesma dor.

Mas he sem cura o mal que anda a pungir-me:
Que, si agora padece este meu ser,
Porque eu vos vejo contra mi tam firme,

O dano de querer-vos sem vos ter,
Em vos sentindo minha, ha de ferir-me
O mal de ter-vos sem vos merecer.

Abgar Renault

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Deixe-me escrever poesias nos azulejos de teu banheiro,
terá a assinatura do meu momento
Quando você tomar banho e o vapor beijar as palavras
talvez restem poucas letras
E talvez estas letras desgarradas formem outras palavras
E assim outros poemas.

A cada visita, uma nova poesia.
Se me faltar criatividade
elejo outro poeta para narrar o momento
E se não encontrar, faço um desenho.
Mas prometo nunca deixar vazios teus azulejos.

Autoria desconhecida

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Desprotegida a noite foi assaltada por memórias
Azul profundo
Carmim
Amarelas
Seus braços abertos se encheram de sono
Seu cabelo solto de vento
Seus olhos de silêncio.

O. Elytis
(tradução Mário Cláudio)

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17.11.09

Azáfama

Na direção dos pássaros
O caminho se faz descalço

Na dimensão dos pássaros
O ninho se faz encalço

O rugido das asas
É que alça a lealdade que alheia

O sentido das asas
É que calça a liberdade que anseia

Cris de Souza

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16.11.09

Morro todos os dias

O dia de morrer vive aberto dentro de mim.
Copio das rosas a resignação
Com as hortênsias ensaio tons de roxo que tecerão minha manta
Busco nas árvores a dignidade dos fortes quando tombam
Na alvura dos lírios recolho o branco que há de cobrir minhas faces
Ouço sabiás para escolher a melodia dos prantos
Leio os gemidos das matas agonizando em chamas
Cato semelhanças!
Quero morrer...
com a serenidade de um gerânio...
com a leveza de uma avenca...
com a elegância de um outono...
Apenas um dó... bemol!
Sem sustos
Sem espantos
Sem escândalos
Quero cerrar as pálpebras
com o apaziguamento contido de uma dorme-maria.
Por isto... treino mortes todos os dias!

Ana Merij

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15.11.09

A cor dos meus dias

Cinza leve de fundo
com um pingo vermelho
de paixão acesa.
Manchas descontínuas
de verde esperança.
Um pouco de azul
em tom de ilusão.
Pinceladas negras
em horas incertas.

Esta é a cor dos meus dias
tinta de óleo em mim pintada
que escorre lenta na tela da vida.

Alice Daniel

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14.11.09

Deixa que eu te toque
Com um só acorde de guitarra
Deixa que eu te componha nas minhas letras
E os meus dedos percorram a pauta da nossa música
Com uma só voz
com uma só vontade
Deixa que eu cante sussurrando
A melodia mais bela de amor
E te veja dançando nas minhas mãos
Deixa que eu te ouça
Com uma só nota musical
E te agarre,
te envolva e
te toque
Com um só toque
com o acorde da minha guitarra.

Vera Jesus

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