"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

13.11.09

Pensamentos mágicos
que viajam na solidão
feito sombras bailarinas,
fogo preso em lamparinas,
a desvendar palavras sem rimas,
até te achar em minhas noites
entre sombras sensuais,
de uma ausência tão presente,
que me visto de luar
e vivo sonhos irreais.

Sônia Schmorantz

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12.11.09

Clave de Sol

Faz música pra mim e coloca em envelopes fechados por língua morna.
Faz versos nas costas da lua.
Dedilha nossos desafinos.
Na areia da praia anoitecida, deita minha ausência e colhe os ruídos.
Oferece na concha das mãos.
Segredos.
Canta baixinho e grita desespero para abafar o silêncio das pausas.
Desatina mariposa, asas de procura nos meus olhos acesos.
Desenha em ponta de agulha sobre a pele e assina o nome por baixo.
Criptografia.
Espera.
Até ouvir meu riso com gosto de maçã a provocar cócegas na saudade.
Ele faz música e promessas bordadas em gaze. Eu sangro.

Ane Aguirre

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11.11.09

Nenhum dos meus caminhos guarda a tua sombra:
só as minhas mãos ficaram maiores com a tua ausência
e andam perdidas,
não sabendo encontrar-se uma com a outra.

O ventre de cada dia é um espelho a recordar-te
- um espelho onde o meu rosto não cabe -
e eu avanço, petrificado de silêncio,
como se me chamasses,
tendo-te cada momento mais distante
nas asas cansadas dos olhos sonolentos.

Se descendo minhas pálpebras prendesse a tua imagem,
jamais amanheceria para mim.
Se as minhas mãos decepadas pudessem encontrar-te,
dar-te-ia minhas mãos como espada para o teu regresso.

Assim, gasto-me nos longos túneis desta ânsia,
certo de que jamais
estarei presente para ti
em cada estrela que descobrires na noite.

José Bento

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10.11.09

Concerto para piano a duas mãos

Há um vitral de luz no meu olhar
Um reflexo de voz quente e doce ...
Ao longe o rio percorre um destino sem limite ou definição
E, na neblina transparente que o envolve
Desenha-se um beijo, um gesto ou um desejo

Não há tempo no tempo que passa
E a tarde avança de mãos dadas com o dia
Como se não existisse noite

Como se houvesse fogo no meu cabelo
Ou um desejo louco de te beijar....
Como se a neblina se deixasse apenas existir ao longe sobre o rio...

E, subitamente como o bater de asas de uma gaivota que passa,
Como se na voz não houvesse som ou no olhar calor,
A tarde abandona o dia, sem tempo para a neblina ou o rio...

PTT

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9.11.09

Inventário (II)

Avó, que pretendias
com as letras escritas,
que palavras dizias avó,
qual a mensagem
que este ouvido perdeu?
Foste tu ou fui eu
avó, quem distraiu
e o trato não cumpriu?
E se estavas calada
tu não dizias nada
ou era erro meu?

Avó, quando morreste,
quem morreu?...

Renata Pallottini

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8.11.09

Não fosse a vida um fardo,
não fosse a dor um caldo amargo,
não fosse o desespero um último trago...

Teu nome foi aprendiz.
Tinhas a alma por um triz,
pedaços que colei,
cascalhos de esmeraldas que juntei.

Vi verdade onde havia vaidade.

Vi a cor verde em sede
brilhando no azul da minha parede.
Vi através do que deixastes entrever...

Olhei com meus olhos sem fel
e vi você, sempre vi mel...

Sempre soube você,
em todos os seus versos,
em todas as promessas.

Perverso, complexo,
adverso, convexo,
como um canto de cor
ecoado nesse sem nexo.

Como o suspiro do fim do sexo.

Ah! Poeta...

A mágoa é funda.
A dor é crua e surda.

E não me chames de desembestada.

Na verdade, se não for para dizer sim,
não diga nada.

Deixa que me cure, quieta, calada.
Deixa que ardo, sozinha
e por ti e por mim.

Deixa largado...

Matilda Penna

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7.11.09

Vazio...

Casa vazia.
Vozes caladas.
Rua triste,
sem movimento.
Ninguém na calçada.

Coração aflito,
Coração partido,
Coração pedindo...
conversa...
agito,
pessoas alegres,
euforia!

Não ouço barulho na sala de estar!
... Onde tudo foi parar?

Lúcia Simões

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6.11.09

Quem sou?!...

Sou um ponto de interrogação ambulante,
buscando respostas para tantas inquietudes.
Por mais que meu coração deseje,
abrandar-se dos desejos que assomam,
ainda lutam dentro de mim,
um plácido lago de águas calmas,
e mais ao fundo, um vulcão ameaçando explodir.

Guida Linhares

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5.11.09

Ah, destino
enquanto te debulhas em marcar
o meu próximo passo,
um pássaro me oferta suas asas
e o sol arrefece seus raios
para me ver alçar vôo.

E quando penso que enfim driblei
a tua fúria, tu, agasalhado na
imponderável sina, não respeitas
o meu desejo de rasgar as distâncias.
Ris da minha pretensão de querer
arrebentar as amarras
e astuciosamente planejas a minha queda.

E tão bruscamente me fazes enxergar
que era de crepom o pássaro e inconsistentes
as asas, que esqueço de te condenar
e me censuro por sonhar tão alto.

Aíla Sampaio

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Sonho

Queria viver no mundo que sonhei pra mim
mundo onde todas as noites em meu quarto
convenço-me de que tudo não passou de pura poesia.

Queria te achar no mundo em que vivo dentro de mim
onde existe uma cama, uma noite, um céu
e uma hora marcada para te encontrar.

Não passeie por meus olhos,
caminhe por minha alma, perambule por meu corpo.

Deixe-me te ouvir dizendo, como se a última vez falasse
Te amo, te amo, te amo...

Grito aos céus num silêncio mais ensurdecedor
do que o que guardo quando diante de tuas palavras.
E esse eco ressoa mudo quando não alcanço teu mundo.

Karla Julia

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Depois

E agora se inicia
a pequena vida
de uma sobrevivente da catástrofe do amor.
...
Acabo de nascer
do terrível parto do amor.

Já não amo.

Agora posso exercer no mundo
Inscrever-me nele
Sou uma peça a mais da engrenagem.

Já não estou louca.

Cristina Peri Rossi

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4.11.09

Tomo a noite pela cintura
E dobro-a para trás.
Quando a liberto dardeja brevemente
E deixa cair algumas folhas.
Levo-as à boca
Como se fossem sílabas
Ou remédio possível
Para o sono

Nuno Higino

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3.11.09

Tenho saudades
do tempo em que
o mundo era pequeno.

Era só ali.

E eu cabia nos ramos
das acácias

e não sabia do longe que existia.

só do perto
que sentia.

Andrea Paes

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2.11.09

Notando o portão entreaberto,
avancei ao condomínio
cinzento do sol.
Caminhava como uma pedra
caminha quando o pássaro
pousa na pedra.

As sextas,
como de costume,
ia cedo ao jazigo
trocar a roupa de cama
de minha avó.

Fabricio Carpinejar

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A viagem definitiva

Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.

Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto do meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico...
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido...
E os pássaros ficarão cantando.

Juan Ramón Jiménez

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1.11.09

Ouço-os em redor do meu caixão, falando baixinho.
Lamentam-se dizendo que é injusto, tão injusto.
Ficam calados durante uns instantes, talvez olhando
para o chão, talvez perguntando-se que horas serão;
e depois repetem: tão injusto. Alguém diz, pesaroso:
teve uma vida simples e monótona, tão altruísta.
Ninguém responde: e o silêncio incomodando.
Novo lamento: uma vida de sacrifício, para que
fossem felizes. Depois, uma confissão inesperada,
quase inaudível: tanto que a amávamos. E eu no meu
caixão, quietinha. Um pouco surpreendida: amavam-me?
E só agora é que mo dizem?

Paulo Kellerman


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Poema destinado a haver domingo

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio.

Natália Correia

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