"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

21.10.09

Serena como o passeio de uma nuvem em dia de pouco vento
terna como o afago de uma criança de colo
silenciosa como um bosque em dia de chuva invernal
bela como uma estrelada noite primaveril.
Assim te vejo da janela de minha casa e durmo com tua imagem
em minhas noites solitárias.
Mas tenho medo de te conhecer, de te ouvir falar a realidade
pode estragar meu amor e então, nunca mais seremos os mesmos.

Jonga Leivas

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terceiro sol

já fazem dois sóis e quase duas luas que assombra-me esse teu cedo. precisava tanto contar-lhe que, hoje ao entardecer, deixei que meus sapatos ficassem do lado de fora da porta ao entrar em casa. mas que, sem que pudesse perceber, seguiram-me as lágrimas da chuva de fim-de-tarde que molharam o meu cabelo. que buscaram abrigo em meu rosto. que morreram em meu peito. e que, amanhã, no terceiro sol, apronto mais uma vez o coração pra secar na janela.

Flávia Vida

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Sei que gostas de flores,
e tenho as mãos vazias.

Sei que amas o poema,
e já não há mais palavras
disponíveis.

E sei que esta noite dormirás
sobre um segredo de flores:
a primavera se irromperá violenta
de teu corpo
e a manhã se agitará nos teus cabelos
flamejantes.

Gilberto M. Teles

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Perdi-me da alegria. Creio que a deixei esquecida num lugar longe, onde o tempo vive numa sala escura, sem portas, nem janelas. Um dia, sei que tenho de voltar atrás para resgatá-la. Nesse dia, a primavera entrará finalmente na porta do meu jardim e juntas - eu, a primavera e a alegria, partiremos finalmente rumo às cores do arco-íris.

Nadir Zernite

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Sopra-me
que ao de onde procedo
haverei com levezas
de, então, retornar.
Com o calor de teu sopro,
de teu insuflar,
meus versos,
como pelúcias e pétalas,
no regaço das tardes,
no jardim das estrelas,
haverão assim de cair,
haverão de pousar.

Fernando Campanella

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Música triste
desenganado
canto nocturno
a pouco e pouco
vai penetrando
meu coração.

Nocturna prece
ou pesadelo
não sei que sombra
aquele canto
em mim deixou.

Febre ou cansaço?
Não sei! Nem quero.
lúgubre pranto
de roucas vozes
não tem beleza
- só emoção.

É como um eco
de noites mortas
de vidas gastas
ao deus dará.

Mas eu o recebo
dentro de mim.
Entendo. Choro.
Eu o recebo
Como um irmão.

Adolfo Casais Monteiro

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Vento cor-de-rosa

Foi um vento
cor-de-rosa
que passou.

Suave canção
que em minha
memória ficou.

Breve estória de amor.
Não houve culpados
Apenas feridos.

Verluci Almeida

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Como as turbulentas águas
Que descem as ribanceiras,
Sem escolhas,
Na desesperada busca da
Mansidão,
Pela caudalosa vida
Navego,
Na ansiosa busca
Da felicidade.

Gilson Froelich

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Deserto

Esta casa que vês arruinada,
Solitária e deserta no caminho,
Foi outrora de noivos casto ninho
De ilusões e de risos povoada.

E hoje, como fúnebre morada...
Já não conserva o traço de um carinho,
Nem se ouve o trinar do passarinho,
Em seu muro, ao romper da madrugada.

Assim meu coração d’antes repleto
De esperanças e cândidos amores
É hoje como um túmulo, deserto;

E o vergel onde outrora as lindas cores
Das rosas de um porvir risonho e certo
Brilhavam, tem espinho em vez de flores!

Francisca Clotilde

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Neblinas

Quando me derramo em sonhos
Apenas percebo ausências que nunca as tive
Busco tocar com as mãos, sombras, cores e amores
Em quase nada relembro você a não ser em lentidões
Tenho manchas em todo o corpo, em cores difíceis de pincelar
Meu amar se tornou rebelde, e meu sorriso apenas espelho
Remarco os preços do passado e liquido tudo sem entradas
Desmancho as estantes das lembranças, recolho o lixo das mágoas
E torno a buscar o travesseiro caído ao chão.
Recosto nele os pés e me abraço a novos tormentos!
Solidão!
E em novo sonho me torno barqueiro só pra te levar.
Sem nada no silêncio da incerteza,
Nos encontramos partindo para a outra margem.
Longe!
Onde ninguém vê quanta ternura, quanto carinho, abraços e beijos.
Porque sempre desaparece o barco, sob a neblina de todo sonho.

Jaak Bosmans

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Pés de lã

Olha como deixaste
em desordem
o meu olhar!

Agora vais ter
que conservá-lo
em lugar seco,
longe da luz solar.

E ainda,
se assim possível for,
evitar que ele tenha
contatos
com produtos químicos
e voláteis.

Acontece
que um certo par de pés
de uma certa mulher,
bailarina de meus balés,
anda me encantando
sobremaneira.

Por isso vou precisar
de meus cristalinos
sempre cristalinos.

Oswaldo Antônio Begiato

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Frutos da terra

Benditos os filhos do ventre da terra
Que o sol desperta tão cedo,
O trigo e a uva os aguardando no campo
Para o mágico processo do pão e do vinho.

Benditos os frutos da terra
Que se abrem à manhã
Em silêncios e cantos
Que mesclam no ar

E os filhos da paz,
Que ligam o céu ao mundo,
Os que reciclam o dia
E dele retiram sustento e eternidade.

Abençoados os que bendizem,
Os que curam, e que a dor amenizam,
Os que por via de tolerância
Se entendem.

Benditos os que domam a cólera
E se transformam no amor,
Amor que bebe da identidade da vida.

Bendito o sol que amadurece os frutos de terra.
Mais bendita a luz
Por que anseia a noite escura da alma.

Fernando Campanella

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Poeta

Vendilhão de sonhos!
Construtor de templos!
Arquitecto da solidão!
Engenheiro de pontes sem cordas!
Fazedor de versos inversos!
Domador de rimas choradas!
Não! Não acredites no Poeta!
Vagabundo sem profissão!
Mestre de cerimónias e de dizer!
Solitário na multidão!
Mito ou razão?
Tem asas e não voa?
Um coração de pássaro emigrante!
Um irmão! Um amigo! ou um amante!
O Poeta apenas precisa te inventar para te amar!

Luiza Caetano

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20.10.09

Camaleão

a flor da minha pele
cansou-se das horas
as meninas dos meus olhos
exilaram-se no horizonte
desde as plantas dos pés
me desarvoro

trago-me outro
e exalo manhãs.

Héber Sales
Semeadura

depois que suas sementes se espalharam em mim;
flori em todas estações; este brotar que se sente
por todos poros e pelos.
me chamam jardim das canções, cores, aromas e afins.
morei em vasos de cristais, nas mãos dos enamorados,
nos bicos dos colibris. campanários, quintais. corações,
povoados. nas alcovas febris.
nos enraizamos em um só caule; ramificamos por galáxias;
florescemos nos versos. nas hemácias carmesins.
nos sonhos e insônia. nos contos de fadas.
nas bocas amadas ou não.
nos beijos lascivos; na contra-mão
da história, martírio e glória;
dos filhos do sol, dos herdeiros vivos
do tesouro encantado!

Gustavo Drummond
Canção do malmequer...

pétala a pétala
te desnudo
te esmago
te exijo
este amor
que não sei...

mal me quer...
bem me quer...

diz-me
minha flor,

se
me ama o meu amor?

mal me quer...
bem me quer...

eu quero!
e
tu,

malmequer
flor do campo
encontrada
no deserto?

esmago-te
o coração
punhal que mata
e fere
em constante
interrogação...

mal me quer...
bem me quer...

Luiza Caetano
E não havia um nome para a tua ausência!
Mas tu vieste!
Do coração da noite?
Dos braços da manhã?

Dos bosques do Outono?
Tu vieste. E acordas todas as horas,
preenches todos os minutos,
acendes todas as fogueiras,
escreves todas as palavras.

Um canto de alegria desprende-se
dos meus dedos quando toco o teu
corpo e habito em ti e a noite não existe,
porque as nossas bocas acendem,
na madrugada, uma aurora de beijos.

Joaquim Pessoa

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