"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Monotonia
Começar, recomeçar, interminantemente repetir um
monótono romance, o romance da minha vida.
Com palavras iguais, inalteráveis, semelhantes, in-
sistir sobre o cansaço e a pobreza disto de viver...
Andar como os dementes pelos cantos a repisar
o que já ninguém quer ouvir.
Levar o meu desprecioso tempo à deriva.
Queixar-me, castigar e lamentar sem qualquer
esperança, por desfastio.
Pôr a nu uma miséria comum e conhecida, chã-
mente, serenamente, indiferente à beleza dos temas
e das conclusões.
Monotonamente, monotonamente.
Monotonia. Arte, vida...
Não serei ainda eu que te erigirei o merecido
altar.
Que te manejarei hábil e serena.
Monotonia! Gume frio, acerado, tenaz, eloquente.
Sino de poucos tons, impressionante.
Mas se te descobri não te vou renegar.
Tu ensinas-me, tu insinuas-me a arte da verdade,
a pobreza e a constância.
Monotonia, torna-me desinteressada.
Irene Lisboa
(photo Monica Bellucci)
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Vestida de não
ficas melhor assim vestida de não,
ficas mais quieta na minha memória.
a solidão é deste modo: a coragem
de escrever sozinho o final da nossa história.
adiciono pontos finais ao final da nossa história:
estás quieta na minha memória, os ges...tos
sem cor, um enorme não cerceando a tua boca.
estás também nua. aproximo-me de ti com o que de mais
humano consigo invocar: ensina-me o final
da nossa história! ficas mais quieta vestida de não,
completamente nua na minha memória.
onde se desenha a tua sombra recolho
estes versos: quando traí a nossa história?
Rui Tinoco
(photo Catherine Deneuve)
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Hoje eu queria te fazer um pedido (posso?).
Respira fundo, tenta aliviar a mente das pequenices que tanto te atormentam, relaxa os ombros, te concentra apenas no silêncio que existe em algum lugar aí dentro.
Clarissa Corrêa
(photo Marie Doro)
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Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
Aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.
Ricardo de Carvalho Duarte (Chacal)
(photo Colleen Moore )
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Mensagens
Neste momento estou ausente,
mas podes deixar uma mensagem
e ligar-te-ei quando regressar.
Se és o amor
liga mais tarde, ou talvez outro dia;
se és a solidão
aguarda, em breve estarei contigo;
se és o suicida
marca outro número, o tempo urge;
se és a morte
elege outro destino, sou apenas tecnologia;
se és o pensamento
desiste, esta linha não medita;
se és a palavra
do regresso, aqui ninguém te pronuncia;
e se és uma voz anónima
a qualquer momento chegarei a casa:
fala depois de ouvires o sinal.
Francisco Gálvez
(photo Catherine Deneuve)
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A Porta
Vai e abre a porta.
Talvez lá fora exista
uma árvore, ou um bosque,
um jardim,
ou uma cidade mágica.
Vai e abre a porta.
Talvez haja um cão a vasculhar.
Talvez vejas um rosto,
ou um olhar,
ou a imagem
de uma imagem.
Vai e abre a porta.
Se houver nevoeiro
ele desaparecerá.
Vai e abre a porta.
Mesmo que só haja
o tiquetaque das trevas,
mesmo que só haja
o vento vazio,
mesmo que
não exista
nada,
vai e abre a porta.
Pelo menos
haverá
uma corrente de ar.
Miroslav Holub
(photo Greta Garbo)
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Acho sim, que, às vezes, dou trabalho. Mas é como ter um Rolls Royce: se você não quiser ter que pagar o preço da manutenção, mude para um Passat.
Fernanda Young
(photo Anne Bancroft)
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Tudo para os olhos.
E nos olhos um ritmo,
uma cor fugitiva,
a sombra duma forma,
um repentino vento
e um naufrágio infinito.
Octavio Paz
(photo Elizabeth Taylor)
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revôo
dia desses
deixei um bilhete
na porta do freezer:
“fui ali ser feliz
e já volto”
aí saí afoita
ao encontro
dessa tal felicidoida
o curioso foi que a vi
frente a frente
o triste
é que voltei
como disse
valéria tarelho
(photo Joan Caulfield)
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Meu coração posto a nu?
Jamais
De pijama talvez;
Mas jamais posto a nu.
Jamais...
Juca Sardan
(photo Dolores Costello)
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Esquecimento
Tentei me lembrar
dos momentos importantes,
felizes, mesmo distantes.
Tentei,
vasculhei a memória,
perscrutei,
numa desgastante
teimosia.
Nada. Estava vazia.
Onde está a alegria que vivi ?
Sou tão esquecida,
esqueci...
Wadad Naief Kattar Camargo
(photo Tallulah Bankhead)
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Um poema de flor
cheiro acre-doce de essências divinas,
perfumes mágicos do amor,
lança, relança,
perfuma divinamente a vida e
o ser vive
e a flor vive, transcende à essência do sonho
Milton Oliveira
(photo Louise Brooks)
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Cristalino
A vida segue como um rio...
que desvia e nunca pára!
Por vezes, uma tristeza barrenta
revolve o fundo até a dor decantar.
Por outras, uma saudade montante
que o faz transbordar.
A vida segue como um rio...
cristalino para quem souber navegar!
Wania Victoria
(photo Maureen O'hara)
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o café é um lugar de espera
com mesas, cadeiras, portas abertas,
fechadas, e gente, muita gente
como fronteira da rua, um silêncio cheio de som
passa gente e como numa imagem com grão
há sempre a chuva dos dias mais curtos
percebes então que este é o lugar mais nítido
de não ir a lado nenhum
maria sousa
(photo Marilyn Monroe)
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Eu também choro
coro, violo leis.
Que seja bendito e bem-vindo sempre esse silêncio em que só
me vejo a mim,
só
e só
e não tenho mais medo de nada.
Venham mais e que cada hora que passe eu precise menos
de tudo
de todos
de você.
Me dá dor melhor
nova
fresca e
que roce na pele,
e que fira não.
Juntando os cacos
(photo Greta Garbo)
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Breve encontro
Moça por que choras?
Vejo as lágrimas
secarem teu rosto
Não vês?
Perdeu-se de ti
Quebre seus muros
Deixe um pouco de sonhar
Não é só flutuar
a vida
Distraia teus enganos
Tens um punhado de promessas nas mãos
O cheiro do teu perfume
lembrando amor do passado
Deixe-o passar
De uma cor indecifrável são teus olhos
Traga a cor da tua infância
Tome um gole daquela que um dia foi.
Se te encontras ao ferir a ferida
Mergulhes no absurdo
Mas seja breve
Salve-se
Olhe para fora
saia de si.
Milene Cristina
(photo Catherine Deneuve)
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andei por aí...
entre a dor e a saudade
entre a raiva e a paixão
alma que se esvai sem vontade
bússola sem direção
andei por aí...
nas encostas
precipícios
no deserto
erosão
sem abrigo
sem destino
sempre na contramão
e sem saber se o que vivia
era o inicio ou o fim
na minha alma de menina
andei por aí, peregrina
procurando em cada esquina
algo que me lembrasse de ti
Alice Daniel
(photo Marilyn Monroe)
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