"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Estou aprendendo a conviver comigo mesma, sem querer agradar ninguém. Faço só o que o meu coração mandar, não tenho pressa de chegar, nem medo de ficar. O presente e o futuro eu vivo agora. A minha luz sou eu, no meu caminho só a minha sombra.
Vera Queiroz
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Pontuação subjetiva
Não me defino
pois quando
não estou entre parênteses
estou entre aspas
exclamação perene
interrogação absoluta
atolada em reticências...
adjetivada entre vírgulas
levito nas entrelinhas
até me reduzir ao ponto final
ou não...
Úrsula Avner
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Meninas
As meninas são todas como eu:
a guardar astros que serão bordados,
a recolher os olhos deslumbrados
depois de uma viagem pelo Céu.
E vestem blusas para esperar a tarde
que há-de surgir ao fundo da vereda
e crispam dedos de sonhar a seda
que a tarde trouxe e na cantiga arde.
Fincam braços no chão do parapeito
e debruçam o corpo para a lua
e temem vultos negros para a rua
e sentem fogo a iluminar-lhe o peito.
E deitam-se nas camas encantadas
e olham luar correndo nas campinas
e são felizes porque são meninas
e porque a vida as vai fazer mudadas.
Natércia Freire
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exercícios para endurecimento de lágrimas
chegas de novo a casa
e guardas do tempo a fuga
marcas outra vez os dias
para abrir feridas
como se viesse dos pássaros a acusação
de não saberes medir esquecimentos
respiras até à dor para não sentires mais nada
maria sousa
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Criança desconhecida
Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca te ter visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,
Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale mais a pena ver uma cousa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.
O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.
Brinca! pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar à minha porta.
Alberto Caieiro
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Respiração
às vezes
conhecemos alguém
que nos deixa sem respiração
e
temos medo
de voltar a respirar
sabendo
que ao fazê-lo
tudo pode mudar
e
queremos ficar presos
para sempre
a esse momento
em que tudo
parece tão perfeito
e certo
mas
não temos alternativa
a não ser
respirar de novo
e fazê-lo outra vez
até
que chegue o dia em que
já não o conseguimos fazer
e
podemos ter a esperança de que
entre esses momentos
a pessoa
que em tempos nos roubou a respiração
volte a fazê-lo
uma e outra vez
prometendo
sempre devolver-no-la
embora
planeando sempre
roubá-la
mais uma vez.
Thomas Brown
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Cada vez vejo mais gente
Cada vez mais, vejo gente
com uma venda
a tapar-lhes os olhos.
Até já vi gente que
afastando-lhes um pouco a venda
voltaram a colocar correctamente.
Antonio Orihuela
(trad. Manuel A. Domingos)
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Lá está. Viu? Atrás daquele monte de compromissos, ao lado das caixas de expectativas não atendidas, bem ali! Em frente à prateleira das desculpas, perto do armário dos medos e suas gavetas de culpas, isso, achou! Bem ali, bem ali tem uma mulher sorrindo.
Repara como ela sorri bonito. Lindo, né? É uma moça que escreve, também. Sim, ela escreve. Como? Escreve o quê? Ah, claro. Escreve cartas. Para quem? Para ela mesma, para os outros, para ninguém. Porque tudo o que a gente escreve na vida são cartas, né? Certo é que elas ganham outros nomes por aí, no meio do caminho. Mensagens, recados, missivas, canções, literatura, peças de teatro, receitas médicas. Mas são sempre cartas. E essa mulher que sorri também escreve cartas para o mundo. Nem sempre chegam a seus destinatários, nem sempre têm quem as receba. Mas a moça que sorri a beleza nunca deixa de escrevê-las.(...)
Bem ali, entre um problema e outro, intocada e verdadeira, tem uma mulher sorrindo. Repara. Repara como ela sorri bonito.
André J. Gomes
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Manhã
Abriu as venezianas. Pendurou os lençóis no peitoril.
Mirou o dia.
Um pássaro fixou-a nos olhos. Estou só, murmurou.
Estou viva. Entrou no quarto. O espelho é também uma janela.
Se saltar dele, cairei nos meus próprios braços.
Yannis Ritsos
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Os pratos que me deu minha mãe
estão já sem brilho e fora de moda.
Quando os limpamos
olham para nós como doentes em agonia,
sem entender o que queremos nós deles.
Mas são os pratos que me deu a minha mãe,
que nunca mais me dará coisa nenhuma.
Se um dia nos decidirmos a tirá-los,
decerto ouvirei a sua voz na minha cabeça:
"As coisas, filha, são apenas coisas".
Minha mãe não está num prato.
Minha mãe está no pão que eu como.
Ana Pérez Cañamares
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O menino grande
Também eu, também eu,
joguei às escondidas, fiz baloiços.
tive bolas, berlindes, papagaios,
automóveis de corda, cavalinhos...
Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje tenho;
os brinquedos perdi-os, os meus bibes
deixaram de servir-me.
Mas nem tudo se foi:
ficou-me, dos tempos de menino,
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.
Sebastião da Gama
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O nome do cão
O cão tinha um nome
por que o chamávamos
e por que respondia,
mas qual seria
o seu nome
só o cão obscuramente sabia.
Olhava-nos com uns olhos que havia
nos seus olhos
mas não se via o que ele via,
nem se nos via e nos reconhecia
de algum modo essencial
que nos escapava
ou se via o que de nós passava
e não o que permanecia,
o mistério que nos esclarecia.
Onde nós não alcançávamos
dentro de nós
o cão ia.
E aí adormecia
dum sono sem remorsos
e sem melancolia.
Então sonhava
o sonho sólido que existia.
E não compreendia.
Um dia chamamos pelo cão e ele não estava
onde sempre estivera:
na sua exclusiva vida.
Alguém o chamara por outro nome,
um absoluto nome,
de muito longe.
E o cão partira
ao encontro desse nome
como chegara: só.
E a mãe enterrou-o
sob a buganvília
dizendo: é a vida...
Manuel António Pina
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Esconde-esconde
Brincávamos às escondidas.
Eu escondia-me
e tu perseguias-me.
Longas horas passaram
e tu não me achavas.
A Primavera passou,
esfumaram-se os longos dias do Verão
e chegou o Outono com seu estalar de madeira seca
e depois o Inverno com sua dor de coração
sepultado na neve.
Espero-te no meu canto
e tenho medo.
Irene Sánchez Carrón
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Adoração
Vi o teu rosto lindo,
Esse rosto sem par;
Contemplei-o de longe mudo e quedo,
Como quem volta de áspero degredo
E vê ao ar subindo
O fumo do seu lar!
Vi esse olhar tocante,
De um fluido sem igual;
Suave como lâmpada sagrada,
Bem-vindo como a luz da madrugada
Que rompe ao navegante
Depois do temporal!
Vi esse corpo de ave,
Que parece que vai
Levado como o Sol ou como a Lua
Sem encontrar beleza igual à sua;
Majestoso e suave,
Que surpreende e atrai!
Atrai e não me atrevo
A contemplá-lo bem;
Porque espalha o teu rosto uma luz santa,
Uma luz que me prende e que me encanta
Naquele santo enlevo
De um filho em sua mãe!
Tremo apenas pressinto
A tua aparição,
E se me aproximasse mais, bastava
Pôr os olhos nos teus, ajoelhava!
Não é amor que eu sinto,
É uma adoração!
Que as asas providentes
De anjo tutelar
Te abriguem sempre à sua sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura
De ver que me consentes
Olhar de longe... olhar!
João de Deus
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Sem impressão, sem marca
Habita-me a dor da tua ausência, nada mais.
E as manchas escuras que buscas em meus olhos
acusam a vigília das horas sem te ver,
a ausência da tua chama,
os séculos que passam sem nada saber de ti.
Sem marca, sem impressão, sem nada corpóreo
a que agarrar-me,
que falta que me fazes até à angústia.
Uma carícia bastava
e o sol de Abril já teria sentido.
Paco Moral
(trad. Albino M.)
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A última flor do outono
Sou a última flor do outono.
Embalaram-me no berço do verão,
puseram-me de sentinela ao vento do norte,
chamas vermelhas floresceram
na minha face branca.
Sou a última flor do outono.
Sou a mais jovem semente da primavera morta,
é tão fácil ser a última a morrer:
vi o mar tão fabuloso e azul,
ouvi palpitar o coração do verão morto,
o meu cálice contém apenas a semente da morte.
Sou a última flor do outono.
Vi as profundas galáxias do outono,
contemplei a luz de cálidas casas longínquas,
é tão fácil percorrer o mesmo caminho,
vou fechar as portas da morte.
Sou a última flor do outono.
Edith Södergran
(trad. Amadeu Baptista)
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Lá
Vontade de voltar,
de ir,
de não ficar aqui
e talvez nem lá.
Vontade de sair
desse mesmo lugar,
custe
o
que
custar.
Desejo incontrolável
de seguir
sem saber a direção,
a localização
ou o idioma que se fala
onde eu,
enfim,
parar.
Quero andar até cansar,
depois correr
até (me) perder
as forças,
a memória.
Quero chegar no desconhecido,
um lugar
que nem sei onde fica
e que
talvez
seja aqui dentro mesmo.
Eu só preciso
ter coragem de
p a r t i r...
Sabrina Davanzo
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