"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"


29.9.15


Crie laços com as pessoas que lhe fazem bem, que lhe parecem verdadeiras e desfaça os nós que lhe prendem àquelas que foram significativas na sua vida, mas infelizmente, por vontade própria deixaram de ser. Nó aperta, laço enfeita. 
Simples assim! 

  Silvana Duboc
(photo Carlo Ponti & Sophia Loren)

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26.9.15


 Levanta-se
penteia-se
lava-se
enche de água um copito
veste-se
prepara-se
calça-se
beija a quem quer
sem fogo
sem vida
sem alma
deita-se
adormece

 Yolanda Pantín
(photo Clara Bow)

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24.9.15


 Vou pôr um anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
Que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.

 António Franco Alexandre  
(photo Kim Novak)

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22.9.15


Forasteira

Eu nasci mulher 
E mulher vou caminhar. 
Com meus olhos sagazes, 
Com minhas sardas censuradas, 
Com minha boca enfeitada, 
Com meus seios valentes,
Com minhas coxas atrevidas, 
Com meu sexo forasteiro... 

Eu nasci mulher 
E mulher vou caminhar. 

Com minhas pernas próprias. 
Com minhas pernas sóbrias.

Oswaldo Antônio Begiato
(photo Veronica Lake)

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20.9.15


Falam da falta que eu vos faço e não escutam a música das minhas lágrimas, ligeira, imaterial, música que se esquece dentro do que se vai sendo, como a das canções de amor que me amaciavam a vida. 

  Inês Pedrosa
(photo Dora Ford)

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19.9.15


Ode ao gato 

Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.

José Jorge Letria
(photo Anita Ekberg)

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17.9.15


Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque não podia mais acreditar e adoro acreditar. Chorei porque daqui em diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada com a ausência dela.

  Anaïs Nin
(photo Catherine Deneuve)

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15.9.15


Nunca sequer gostei de refrigerante na vida, mas semana passada fui ao médico e ele proibiu terminantemente de beber. Saindo do consultório, me veio a vontade louca de tomar um gole e sentir aquele líquido gaseificado e aromatizado artificialmente passando pela minha garganta. No outro dia, nada mais já me importava na vida a não ser esse bendito fruto proibido. Eu só tinha olhos para o refrigerante. Só pensava no refrigerante. Acordava e ia dormir querendo refrigerante. Não por gostar, mas por saber que eu não posso. É mais ou menos assim com você.

  Iolanda Valentim
(photo Lana Turner)

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14.9.15


Se há algo que é constante em mim, desde que me lembro deste mim, é a constância tranquila com que a música afaga a melancolia, com que a música destrava as lágrimas, com que a música me devolve o sorriso. E tu danças comigo. 

  Conceição Sousa
(photo Louis Jourdan & Grace Kelly)

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11.9.15


Matéria 

O contrário da matéria 
não é o espírito. 
O contrário da matéria 
não é a antimatéria.
O contrário da matéria 
é o olhar. 

Pedro Mexia 
(photo Gene Tierney)

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10.9.15


Talvez um dia eu seja uma pessoa mais equilibrada. Dessas que não se abalam tanto com os problemas. Que sabem administrar com inteligência a maioria das situações. Mas, por enquanto, confesso que não consigo. Basta uma coisa dar errado para estragar todas as outras. Um desequilíbrio literal. Imagino meu humor como uma pilha de latas em um corredor de supermercado. Estão todas lá: umas em cima das outras. Organizadas. Alinhadas. Aí vem uma criança teimosa e tira uma das latas de baixo. A do meio! E, em dois segundos, está tudo no chão. Era impossível que continuassem de pé sem aquela lata. Ando meio triste. Uma criança teimosa passou por aqui um dia desses e levou o que queria. Tirou uma lata e foi embora. Sei que vou ficar bem. No fim, as coisas sempre se ajeitam. Mas dá um trabalho organizar tudo de novo! Ter de pegar lata por lata e empilhar outra vez... Uma a uma. Bem devagar. Até achar o tal do equilíbrio. 

  Eduardo Baszczyn
(photo Pattie Boyd)

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9.9.15


Cá dentro

Sonhei contigo esta noite. Vestias uma camisa branca de linho e eu via, caído sobre o teu peito, o fio de prata oferecido pela tua madrinha e que uso às vezes, quando sinto muito, muito a tua falta. Estávamos sentados, lado a lado e de mãos dadas, no cimo da montanha da casa da avó, em Trás-os-Montes. Tínhamos os pés descalços sujíssimos de pó e a terra estava morna, macia. Ríamos muito, felizes. Entardecia sobre o rio e tu puseste o teu braço sobre os meus ombros enquanto sorrias o teu sorriso de sol. Só nós, abraçados, atirando gargalhadas à montanha, os pés na terra, os olhos perdidos na correnteza escura do rio. Eu quase ouvia - juro! - muito forte, o bater do meu coração. 

 (Gosto de sonhar contigo, como se fosse a única forma de te resgatar na minha vida... Às vezes também sonho com a saudade infinita que tenho de ti... e é um sonho feliz, mesmo assim). 

  Ana Paula Mateus
(photo Lucille Ball)

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8.9.15


Estranhamento

Estranhamento 
Quem é 
que eu 
olho? 

Almas escuras 
águia nos olhos 

Iguais diferentes 

Quem é 
quem me 
olha?

 Eunice Arruda
(photo Rita Hayworth)

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7.9.15


Hibisco

Há flores que se comem
como se fossem frutas,
numa comunhão entre
os olhos, a boca, o jardim.
Hibiscos coloridos, caprichosos,
derramam no prato a sua beleza,
passageira como um relâmpago,
e ao morder um hibisco
nos transformamos em poesia.

 Roseana Murray 
(photo Debra Paget)

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