"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

8.3.10

Espelho de mulher

Atravessa
o outro lado
sem príncipe,
nem consorte.
Apreende
a vida,
luta, briga,
e a devolve
sem suporte.
É nascente
refletida
de dores,
amores
e glórias.
Amadurecida,
pura-mente
sorridente,
que com
ou sem sorte,
aprendeu
por si só ser
mais forte.

Christina M. Herrmann

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7.3.10

Abraço...

Vontade daquele abraço
que aconchega
que conforta,
que liberta, ao mesmo instante
em que me prende entre os braços...

Vontade daquele laço
que apaixona,
que enternece,
e que faz meu coração
voar livre, em descompasso...

Vontade daquele abraço
unindo as nossas metades:
O teu corpo
no meu corpo
a um passo da vontade.

Saudades daquele abraço...

Helena Chiarello de Araujo

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6.3.10

A música

Arrasta-me por vezes como um mar, a música!
Rumo à minha estrela,
Sob o éter mais vasto ou um tecto de bruma,
Eu levanto a vela;

Com o peito prá frente e os pulmões inchados
Como rija tela,
Escalo a crista das ondas logo amontoadas
Que a noite me vela;

Sinto vibrar em mim as inúmeras paixões
De uma nau sofrendo;
O vento, a tempestade e as suas convulsões

Sobre o abismo imenso
Embalam-me. Outras vezes é a calma, esse espelho
Do meu desespero!

Charles Baudelaire

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5.3.10

A solidão faz caber em mim tantas pessoas desiguais
que me transformo em intermináveis mosaicos,
a alma em caleidoscópio.

Devo ser forte para os outros e pra um outro sou frágil.

E quando finalmente estou só, cato os cacos, com os olhos
perdidos como se a vida não me pertencesse
e eu fosse o palco dos outros.

Esse vazio coabitado é o eco da vivência alheia.

Sigo assim, meio pano de chão, com tantas pegadas a
varar a madrugada.

Cristina Gebran

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4.3.10

Deixa-me...

Deixa-me sentar ao teu colo a ver passar
O rio...
Deixa-me assim estar sem pensar
No vazio...
Abraça-me apenas
E eu não sentirei mais frio...

Deixa-me sonhar que é amor
Aquilo que te vejo no olhar...
E deixa-me assim estar
(tão longe de casa, dos mimos, e da esperança...)
No aconchego do abraço
Que tens para me dar.

BlueShell

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3.3.10

outro tempo

foi num tempo outro.
quando os olhos não sabiam ler além da alma.
muito além da pele.

foi num tempo de palavras ditas com a boca à boca da noite.
quando os dedos (estes) não conheciam canetas e teclas.
e não podiam apagar os quilometros percorridos pelas mãos.

foi no tempo em que não se despedia o amor por carta,
porque despedida não havia,
esperava-se chegar a morte para recomeçar o mesmo amor.
de sempre em outra vida.

um tempo que não é de agora, tão diferente de tudo e de mim.
destas mãos acostumadas às letras e à distância dos olhos.
à desimportância da boca.

outro tempo:
tão longe e tão perto de mim
e do recomeço do amor.

mariza lourenço

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2.3.10

Paixão

estou no mais alto
da pura manhã

o meu coração é uma lágrima enorme
um frágil astro
que procura na linha dos teus lábios
o despertar generoso
dos solstícios
o alegre andamento
das estações

e quando desces a montanha do teu sono
e ficas tão nua da noite

eu
eu só sou
o sereno rio que passa
e que numa paixão de luz
te leva
ao azul infinito do mar

Gil T. Sousa

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1.3.10

Um aniversário

Meu coração é um pássaro cantante
Cujo ninho é um rebento orvalhado;
Meu coração é uma macieira
Vergando o tronco de frutos pesado;
Meu coração é um búzio irisado
Vogando na corrente com langor;
Meu coração mais que tudo se alegra
Porque a meus braços chegou meu amor.

Dai-me um dossel tingido de cor roxa;
De seda debruada de mil folhos;
Bordai nele romãs, pombos alados,
Pavões com caudas de mais de cem olhos;
Ornai-o de uvas, de rubis e prata,
Folhas douradas, pomares em flor;
Porque hoje é dia que nasce minha vida,
Hoje a meus braços chegou meu amor.

Christina Georgina Rossetti

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28.2.10

Passados

Não te esqueças de me visitar.

Traz-me as fotografias e aquele poema que me escreveste quando o nosso amor ainda era o que de mais magnífico acontecera nas nossas vidas e no mundo.

Havemos de nos sentar nas mesmas cadeiras como se fossem as mesmas manhãs de domingo. Havemos de olhar os mesmos telhados, divagar sobre a eternidade dos gestos e jurar comovidamente que as nossas almas se tocaram de uma maneira única e inesquecível.

Eu hei-de esconder-te a minha interminável solidão e tu hás-de demonstrar-me, muito inocentemente, nas tuas palavras tão cheias de vida e de juventude, como a morte nos descobre mesmo nos lugares mais altos.

Gil T. Sousa

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27.2.10

Não saber ser de mim

Procuro matar as saudades,
sem descanso que viva.
Não sei preencher-me
do vazio que de ti sobrou.
Varro da memória o longe,
o querer não entender
o não saber ser de mim,
no sonho que enriqueceu de nós.
Acho na ilusão,
o esconderijo para o sofrimento
e tardam as palavras...
Continuo preso na esquina do só,
ouço as passadas do teu caminho
e percorro entristecido
o labirinto construído de medos,
sem abrir as janelas ao sossego.
Julgo a pretensão da culpa
do desejo de partilha,
em detrimento
do teu defensivo orgulho.

Aguardo que me descubras,
sem olhar o movimento do relógio.

João Jacinto

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26.2.10

A Nuvem

Sulcas o ar de um rastro perfumoso
Que os nervos me alvoroça e tantaliza,
Quando o teu corpo musical desliza
Ao hino do teu passo harmonioso.

A pressão do teu lábio saboroso
Verte-me na alma um vinho que eletriza,
Que os músculos me embebe, e os nectariza,
E afrouxa-os, num delíquio langoroso.

E quando junto a mim passas criança,
Revolta a crespa, luxuosa trança,
Na espádua arfando em túrbidos negrumes,

Naufraga-me a razão em sombra densa,
Como se houvera sobre mim suspensa
Uma nuvem de cálidos perfumes!

Teófilo Dias

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25.2.10

Parte-S

Sou feita de meias mentiras
Meias verdades... Meia idade.
Um pouco cedo... Um tanto tarde!
Fui inteira... sou meia... ou partes.
Sol que brilha e não arde.
Lua cheia, vazia, pregada na paisagem.
Um canto de pássaro perdido
em meio ao burburinho da tarde.
Sou a noite silente... negra...
que, plácida, sonha e não passa.
Sonâmbulos... notívagos que vagam
em busca de uma saudade.
Ilha perdida... num mar que vibra... solitária.
Sou idas e vindas...
Chegadas e part-idas...

Sou o cais que fica
O ponto de passagem!
Sou parte... de desiguais meta-des!

Sou uma em muitas... (inverdades)!

Márcia.Dom

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24.2.10

O tempo que o sono come

O verde gelou, e as almas perdem-se rasteiras, sonâmbulas.

Tudo agora tão branco e esquelético,
e um cheiro a incenso e alfazema,
como se estivéssemos guardados, desde sempre, numa gaveta.

A madeira range quando pensamos respirar,
como um aviso, uma ameaça velada,
e há um choro tardio que fica para trás...
uma ladainha breve a marcar o tempo que o sono come.

Alma Kodiak

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23.2.10

... vem, docemente, como um papagaio de papel-de-seda
em tardes de vento brando e fala-me de fadas, de castelos,
de rios mansos, onde alguma vez pudemos navegar.
... ou leva-me contigo, como se fossemos apenas aves
e voássemos com o mesmo bater de asas...

José António Gonçalves

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22.2.10

Onde mora o coração

Ainda que um último navio
viesse pousar-me nas mãos
toda a solidão
das ilhas

E na brevíssima noite
dos mortos
rompesse límpida
a última nuvem
da saudade

Ainda assim

Só contigo subiria
toda a neve dos dias
até se esgotar
o vermelho

Essa casa
onde mora o coração

Gil T. Sousa

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21.2.10

Histórias do País de Helena

Havia marinheiros
No país de Helena
Que morriam ao por do sol

E havia Helena que sonhava
Fazer um dia tranças às ondas
E um berço muito grande para o mar

Daniel Faria

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20.2.10

Fiat Lux

Hoje um sol me visitou à noite
e era ao mesmo tempo
tão distante e tão presente
tão luz e tão quente
que adormeci entre seus raios
e acordei com jeito de lua nova
outra vez.

Isabella Benicio

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