"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

9.8.18


 Te escrevi quatro páginas de amor
ontem,
bêbada.

Amor tem disso, sai flu
indo
pelas canetas.
Hoje, sóbria,
rasguei.
Você não cabe nos meus versos.

 Clara Arôxa 
(photo Tallulah Bankhead)

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8.8.18


Ela chegou ia eu no terceiro conhaque. Era uma mulher jovem, de corpo esplêndido e um rosto de anjo moreno. Mau grado as minhas mágoas, era impossível não reparar na perfeição das pernas, envoltas em meias de nylon, o que era ainda relativa novidade em Portugal. Os sábios da América inventaram muitas coisas mas os criadores das meias de nylon, ou de vidro, são merecedores da maior gratidão. Com elas, as mulheres redobraram encantos, sobretudo para quem observa o invento em toda a extensão, dos pés ao cinto-ligas que mantém as meias esticadas como segunda pele das pernas. Pena que tantas senhoras as tenham substituído pelos nefandos e embaraçosos collants.

  Mário Zambujal
(photo Sophia Loren)

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7.8.18


Vieste e fechei a janela à solidão. 
A ti não preciso ensinar os meus trilhos. 
Caminha-me.

  Lília Tavares
(photo Ursula Andress)

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6.8.18


Verão 

Estás no verão, num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre a duna. Estás em mim, nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome pensas: teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó, sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas. És o esplendor do dia, os metais incandescentes de cada dia. Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces o ardor das maçãs, as claras noções do pecado. Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos meus anos. Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os rituais que previ. Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em ti e inclinam-se. Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima. Doce e cruel é setembro. Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.
   
  José Agostinho Baptista
(photo Brigitte Bardot)

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5.8.18


Lá vai a bicicleta do poeta em direcção ao símbolo, por um dia de verão exemplar. De pulmões às costas e bico no ar, o poeta pernalta dá à pata nos pedais. Uma grande memória, os sinais dos dias sobrenaturais e a história secreta da bicicleta. O símbolo é simples. Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais — lá vai o poeta em direcção aos seus sinais. Dá à pata como os outros animais. 

  Herberto Helder
(photo Brigitte Bardot)

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4.8.18


- Não sei. O vento existe para as mulheres segurarem os cabelos com as mãos. - E também para usarmos lenços de seda. - Sim, o vento faz as mulheres bonitas. Os lenços de seda também. 

  Augusto Abelaira
(photo Brigitte Bardot)

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3.8.18


Por quem se apaixonaria ela aqui? Por si mesma? Não acredites no riso dela. Não se pode acreditar no riso de uma mulher inteligente que nunca chora: ela ri-se quando tem vontade de chorar.

  Anton Tchekov
(photo Ava Gardner)

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2.8.18


Quando o comboio partir não digas adeus porque ficaste no cais. Foi apenas o teu passado que se foi embora, na terceira ou na quarta carruagem de segunda classe, precisamente a que acaba de desaparecer no túnel. Foi apenas o teu passado que se foi embora: o teu presente ficou. O teu presente, isto é: ir ao bar da estação, sem ter tirado o lenço da algibeira, sem saudade, sem remorso, sem pena, e olhar pelo vidro da porta o cais vazio, com o relógio a marcar uma hora que já não é a tua.

  António Lobo Antunes 
(photo Audrey Hepburn)

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1.8.18


Esconderijo IX 

- Gosto de fumar na doçura do teu ombro...
- ... também gosto, assim ao de leve.
- Resta-me tudo, restas-me tu. Vou para ti e não volto. Posso provar-te?
- A hora marcada.

Bárbara
(photo Anna Karina

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29.6.18


É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão. 
O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem saber ver. 

  Gabriel García Márquez 
(photo Audrey Hepburn)

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27.6.18


Reciclar 

Deixei os restos do nosso amor
num saco de plástico
no armário debaixo do lava-loiça,
não cabiam no caixote do lixo.
E quando levares o lixo,
presta atenção,
não é para caixote azul, verde ou amarelo,
é para o cinzento, lixo doméstico comum,
indiferenciado, o nosso amor acabado,
e o carro passa às segundas, quartas e sextas.

  Raquel Serejo Martins 
(photo Kay Kendall)

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20.6.18


 Não te esqueças de, 
ao sair, 
deixar a porta 
aberta. Podes 
perder a chave 
e não entrar. 
Ou podem roubar-ta, 
o que é pior. 
Porque são numerosos 
os ladrões do azul.

 Albano Martins 
(photo Humphrey Bogart)

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17.6.18


Outono 

Outono me faz lembrar que
mudo as minhas folhas, mas nunca
as minhas raízes.
Que passo por estações,
mas deixo as minhas sementes.
Que o vento que me balança
também espalha o meu perfume.

 Joelma Rocha 
(photo Bette Davis)

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13.6.18


 Todos os dias digo, sussurrando,
mantém o equilíbrio. Tudo espreita,
tudo assusta, a vida inteira pende-te
de um frágil fio e de uma sorte injusta.
A tua vontade não pode muito.
Não percas pé. Mantém o equilíbrio.

 Amalia Bautista
(photo Marina Berti)

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5.6.18


Talvez o que eu preciso seja justamente não precisar, sem me sentir menos inteira por isso. Hoje, enxergo com mais sensibilidade o que 
(e quem) merece o meu olhar, a minha entrega, 
o meu amor maiúsculo. 

  Bibiana Benites
(photo Ina Claire)

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4.6.18


Moça de Xiangyi 

As folhas de ácer
Estão tontas com as cores do outono
As ondulações no límpido riacho
Dedilham as cordas da noite
Instantes de felicidade nunca voltam
Os anos passam
Na chuva e no vento
Sem que qualquer notícia dele
Chegue até mim.

Shi Bo 
(photo Nancy Kwan)

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31.5.18


(...)
 Já não se pode fumar em nenhum lado. O desamor é bem mais devastador, e no entanto não é proibido. 

  Pedro Paixão
(photo Madge Bellamy)

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