"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

19.2.10

Fruto maduro

Enquanto as rosas dormem eu
fruto maduro, casca enrugada
de contornos imprecisos,
sonho com o mar,
com o equinócio da primavera
a atingir o silêncio do jardim
e a fazer germinar os dias lisos.
Esqueço poemas de inverno
com flores de neve a derreter.
Enquanto as rosas dormem
esqueço que ao envelhecer
perdi o medo de mim.

Maripa

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18.2.10

Há uma mulher a morrer sentada

Há uma mulher a morrer sentada
Uma planta depois de muito tempo
Dorme sossegadamente
Como cisne que se prepara
Para cantar

Ela está sentada à janela. Sei que nunca
Mais se levantará para abri-la
Porque está sentada do lado de fora
E nenhum de nós pode trazê-la para dentro

Ela é tão bonita ao relento
Inesgotável

É tão leve como um cisne em pensamento
E está sobre as águas
É um nenúfar, é um fluir já anterior
Ao tempo

Sei que não posso chamá-la das margens

Daniel Faria

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17.2.10

Poema

fome e vento sacodem,
sede e fogo me queimam
e eu nado no nada
da tua ausência -
cabeça aérea,
querência
de tuas mãos etéreas
e (e-ternas.)

Maria Júlia

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16.2.10

A memória é a gaveta
com as palavras eternizadas


O incêndio alastra-se nas veias
seduz o esmagado sol das manhãs
e purifica as idéias.
Gosto dele
como do veludo e da cor dos pêssegos.
Ele fecha a porta
e desce as escadas da rua
com a lentidão sorridente da volúpia.
Fala-me num tom severo que me inutiliza…

Uma noite contou-me os poemas da mãe
e prendeu-me aí.

(À beira-mar em recanto de festa, gostei de te escutar)

Luísa Ribeiro

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15.2.10

Gestação

tenho um lirismo
dentro de mim

o que me dói
é não parir
poemas

Adrianna Coelho

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14.2.10

Farewell

não sou a promessa de uma vida a dois

ora! não acredito em futuro
o futuro foge do agora
e não se existe nesse estado
quando passar o presente
o tempo será passado

ah! e se fui feito de lama
você é só minha costela

não sou o feliz passarinho
nunca soube fazer ninho

mas aprendi a voar ligeiro

viu? você nem me viu
quando pousei na janela

Gian Fabra

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13.2.10

Líquida e liberta

Liberta em asas, ágil alma feminina
O pensamento vaga enquanto sonha
A vida sem sombras de quando menina
Traça em palavras seu novo caminho
Lastro do desejo masculino elimina
Sente-se pura, e percorre trilhas

Pensar em vidAtiva
Amar a quem a ame
Saudade é furtacor
Quer do corAção
Da fruta, o Líquor

Mirse Maria

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12.2.10

Naquela tarde

Naquela tarde em que nos encontramos
"para o último adeus" - nas garras frias
do "desgosto sem fim" que sempre achamos
qualquer separação de poucos dias...

Tarde de amor em que nos apartamos
presas das mais acerbas nostalgias,
- talvez porque os protestos que trocamos
valessem mil celestes alegrias -

houve um momento - foi um sonho de arte!
em que um raio de sol veio beijar-te,
com tanto ardor, em rutilâncias tais,

que eu fiquei muda, a olhar, num gozo infindo,
o beijo que te dava o sol tão lindo
Mas o teu rosto alumiava mais. . .

Branca de Gonta Colaço

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11.2.10

Hora final

Dentro de mim, há cânticos de sino,
Dentro de mim, há sinos a dobrar...
Caminhos que eu andei dentro de mim, sem tino...
Alma – novelo ainda por dobrar...

Dentro de mim, há sons de violino,
Que geme e chora... (o som do azul do mar!)
Minha alma é de cristal, mas de um cristal tão fino,
Que o som dentro de si ressoa sem cessar...

Nuvem de cinza, que me envolve a alma,
Não poder dissipá-la, a minha calma,
Esta ausência que sinto de mim próprio!

Fogo a queimar-me todo, ardente inferno
De sombra e horror, que existe em mim... Assopre-o
Deus de um só sopro, e não será eterno!

Anrique Paço D’Arcos

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10.2.10

Odaliscas

O céu azul e transparente... Um vago,
Suave olor de rescendentes rosas
Por tudo, em tudo um morno e doce afago:
Dos ninhos às campinas silenciosas.

O vento passa de amoroso, — gago
Por entre as ramarias sonorosas
Bailam os raios do luar no lago
Como trêmulas sombras vaporosas.

Soluça no luar um doidejante arpejo
Voluptuoso, febril, lascivo, ardente
Tal como o ruído de um primeiro beijo.

E as estrelas no céu cercam a lua:
— Odaliscas guardando eternamente
Alva sultana eternamente nua.

Leôncio Correia

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9.2.10

Orientação

Quando escreveres minha história...
Não te detenhas nos ditos, pleonasmos e vocativos.
Leias-me as ausências, silêncios
- verbos indevidos.
As pausas pau-sa-da-mente repetidas
preenchendo lacunas do não-vivido.
E as coisas ver-da-dei-ra-mente fingidas que,
ja-mais, ousaria dizer!...

Hercília Fernandes

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8.2.10

A Florista

Suspensa ao braço a grávida corbelha,
Segue a passo, tranqüila... O sol faísca...
Os seus carmíneos lábios de mourisca
Se abrem, sorrindo, numa flor vermelha.

Deita à sombra de uma árvore. Uma abelha
Zumbe em torno ao cabaz... Uma ave, arisca,
O pó do chão, pertinho dela, cisca,
Olhando-a, às vezes, trêmula, de esguelha...

Aos ouvidos lhe soa um rumor brando
De folhas... Pouco a pouco, um leve sono
Lhe vai as grandes pálpebras cerrando...

Cai-lhe de um pé o rústico tamanco...
E assim descalça, mostra, em abandono,
O vultinho de um pé macio e branco.

Francisca Júlia da Silva

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7.2.10

Extra muros

À tarde de ontem!... Longe da cidade,
Eu a esperava à porta do passeio:
Quando vi ir chegando um carro: — há de,
Pensava ser o carro em que ela veio.

Não era. — Então ficava em novo enleio:
Cada momento era uma eternidade;
E entre a esperança, a dúvida, o receio,
Que inquietação, que angústia, que ansiedade!

Mas de repente o rápido ginete
Estaca, o faéton para as longas crinas
Sacode o pônei fino e cor de leite:

Sai à deusa: o sol ri, e das colinas
Rola-lhe aos pés a luz, como um tapete
Quando ela esgarça na ponta das botinas...

Luís Delfino

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6.2.10

Num leque

Na gaze loura deste leque adeja
Não sei que aroma místico e encantado...
Doce morena! Abençoado seja
O doce aroma de teu leque amado

Quando o entreabres, a sorrir, na Igreja,
O templo inteiro fica embalsamado...
Até minh'alma carinhosa o beija,
Como a toalha de um altar sagrado.

E enquanto o aroma inebriante voa,
Unido aos hinos que, no coro, entoa
A voz de um órgão soluçando dores,

Só me parece que o choroso canto
Sobe da gaze de teu leque santo,
Cheio de luz e de perfume e flores!

Auta de Souza

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5.2.10

Conchita

Adeus aos filtros da mulher bonita;
A esse rosto espanhol, pulcro e moreno;
Ao pé que no bolero... Ao pé pequeno,
Pé que, alígero e célere, saltita...

Lira do amor, que o amor não mais excita,
A um silêncio de morte eu te condeno;
Despede-te; e um adeus, no último treno,
Soluça às graças da gentil Conchita:

A esses, que em ondas se levantam seios
Do mais cheiroso jambo; a esses quebrados
Olhos meridionais de ardência cheios;

A esses lábios, enfim, de nácar vivo,
Virgens dos lábios de outrem, mas corados
Pelos beijos de um sol quente e lascivo.

Raimundo Correia

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4.2.10

O camarim

A luz do Sol afaga docemente
As bordadas cortinas de escumilha,
Penetrantes aromas de baunilha
Ondulam pelo tépido ambiente.

Sobre a estante do piano reluzente
Repousa a "Norma", ao lado uma quadrilha;
E do leito francês nas colchas brilha
De um cão de raça o olhar inteligente.

Ao pé das longas vestes, descuidadas
Dormem nos arabescos do tapete
Duas leves botinas delicadas.

Sobre a mesa emurchece um ramilhete,
E entre um leque e umas luvas perfumadas
Cintila um caprichoso bracelete.

Gonçalves Crespo

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3.2.10

Celeste

É tão divina a angélica aparência e a graça
que ilumina o rosto dela,
que eu concebera o tipo de inocência nessa criança
imaculada e bela.

Peregrina do céu, pálida estrela,
exilada na etérea transparência,
sua origem não pode ser aquela
da nossa triste e mísera existência.

Tem a celeste e ingênua formosura
e a luminosa auréola sacrossanta
de uma visão do céu, cândida e pura.

E quando os olhos para o céu levanta,
inundados de mística doçura,
nem parece mulher - parece santa.

Adelino Fontoura

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