"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

30.12.09

Palco da vida

Representam-se os últimos atos,
numa sala quase vazia
outrora cheia.
Os aplausos ouvem-se ao longe
ecoam quase sumidos,
onde antes saiam sorrisos,
agora fica a saudade,
de palavras desgastadas
pelo tempo já passado,
momentos prósperos,
num palco já podre
onde desapareceu o brilho,
despem-se as vestes.

Os últimos aplausos soam,
o pano cai
as luzes apagam-se
e o escuro substitui
a luz!

Isabel Cabral

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29.12.09

Estou e não me respondo

Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.

E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.

Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.

Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.

Maria Ângela Alvim

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28.12.09

Olhar

Olhei quase sempre para o chão.
E aquela estrela que parava no sul,
descia de repente e caía aos nossos pés.
Recolhi-a, ano após ano,
e com o resto da sua luz quis iluminar o teu caminho.
Mas tu não viste as suas lágrimas que eram
as minhas, apagando a última, sobre o chão.

José Agostinho Baptista

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27.12.09

Retrato da beleza nova e pura

Retrato da beleza nova e pura
Que com divina mão, divino engenho,
Amor retratou na alma, onde vos tenho
Das injúrias do tempo mais segura:

Não mostreis aspereza em tal brandura,
Por vos vingar de mim, vendo que venho
A tanta confiança que detenho
Os olhos em tamanha formosura.

O resplendor do Céu, sem dar mais pena
A quem olha seus olhos em direito,
A vista só por breve espaço assombra;

Mas vossa luz mais clara, mais serena,
Juntamente me cega e abrasa o peito:
Vede o Sol que fará, de que sois sombra!

Diogo Bernardes

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26.12.09

Desdita

Ficou em qualquer canto do tempo
desfilando diante de meus olhos
uma sinfonia inacabada, um grito agônico
um livro esquecido, um verso abandonado

sobre a mesa o jarro entristecido
com lírios findos...

e esta irritante cortina, dançando:
- irônicos sorrisos!

Ana Merij

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Luta interior

Quem vive dentro em mim que ruge e clama
Ou murmura, em soluços, uma prece?
Que, ora, nas fráguas do prazer se inflama,
Ora torturas infernais padece?

E em mim, urdindo das paixões a trama,
Tece intrigas de amor e de ódio as tece.
Não sei se me quer mal, não sei se me ama;
Sei que a minha vontade lhe obedece.

É um ser somente? Serão dois? suponho
Ver e ouvir entre as brumas de um mau sonho.
Peleja singular, áspera e bruta.

E imagino, em presença desta cena,
Que sou a arena e nada mais que a arena.

Bastos Tigre

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25.12.09

Negra como pupila,
como pupila sugando
Luz –
amo-te,
noite aguçada.

Dá-me voz para cantar-te,
ó promadre
Das canções,
em cuja palma há a
brida dos quatro ventos.

Clamando-te,
glorificando-te,
sou apenas
A concha,
onde ainda não calou o oceano.

Noite!
Já gastei meus olhos
nas pupilas do homem!
Encinera-me,
negro sol –
noite!

Marina Tsvetáieva

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24.12.09

Só enquanto eu respirar

O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete, a cena se inverte
Enchendo a minha alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar

Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim

E o fim é belo incerto... depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você

Fernando Anitelli

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23.12.09

Num tapete de água
vou bordando os meus dias,
os meus deuses e as minhas doenças.

Num tapete de verdura
vou bordando os meus sofrimentos vermelhos,
as minhas manhãs azuis,
as minhas aldeias amarelas
e os meus pães de mel amarelos também.

Num tapete de terra
vou bordando a minha efemeridade.
Nele vou bordando a minha noite
e a minha fome,
a minha tristeza
e o navio de guerra dos meus desesperos,
que vai deslizando p'ra mil outras águas,
paras águas do desassossego,
para as águas da imortalidade.

Thomas Bernhard

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22.12.09

Dia

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.

E flutuo, já sem mim, pura existência.

Octavio Paz

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21.12.09

Todas as noites

todas as noites
quero remendar a minha vida
e a onda resultante é uma fortaleza
ritmo frenético onde um solista
tem seu tempo de brilho
e vontade
de fundir reciclar remendar

esta noite
com um astro próximo
brilhante e ameaçador
qual gás de explosão terrorista
esta noite
vai redimir todas as noites
em que quis remendar a minha vida
e o resultado foi
próximo de zero

esta noite
será o sótão arrumado
(esperou dez anos para que dessem por ele)
é, tenho a certeza, a noite da reconciliação
a noite em que encontro o bálsamo
para continuar e extrair
a raiz do que magoa
e aspirar os cantos da memória
e endireitar livros tombados
sobre as personagens inventadas

é nesta noite que as verdades por fim descansam
exaustas sobre as mentiras
inteiras de uma vida

Carlos Peres Feio

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20.12.09

Ausências

Chegará o dia de entrar
na casa
olhar as cadeiras,
e mesas

vazias,

Observar o mar do silêncio
que arruma a casa,

os ecos,

dos que deixaram
a casa.

Chegará o dia de ver
na casa
o espaço vazio
das janelas
o mato adentrando a porta...


E tudo.

Esta marcha de ausências,
o vazio
sílaba secreta
de certo norte
caberá na bússola de
dentro dos olhos.

Georgio Rios

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19.12.09

Pretexto

Por que não cai à noite, de uma vez?
- Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.

Por que não cai à noite, de uma vez?
- Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)

Maria Alberta Menéres

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18.12.09

Folhagem

Descanso os olhos
sobre as folhas miúdas que tremem
Piscam minhas pálpebras
O vento me envolve
Existo
inacreditavelmente
entre o abrir e fechar
Página folheada
de um livro
vivo.

Rosália Milsztajn

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17.12.09

Amor Em Si Maior

Já tive muitos amores
Que não lhes posso contar
Contar assim como números
Nem a vocês confiar
Foram grandes, muitos pequenos
De amar, de dormir, de sonhar
Foram tantos e tantos
Que já nem posso mostrar
Já tive muitos amores
Que não posso enumerar
Foram de tanta importância
Que já não consigo lembrar
Mas o seu que entrou já saindo
Que não se foi nem ficou
É, está e, no entanto
Parece que nunca faltou
Já tive muitos amores
Que já não posso afirmar
Que agora esteja vivendo
Ou sonhando ou dormindo ou morrendo

JP Veiga

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16.12.09

Pérola

guardarei do teu rosto apenas o nome. a dor do espinho rasgando a pele para que nela entre uma palavra, somente uma palavra, gravada na coluna que sustentava a nossa infância. o mel e o azeite reúnem-se entre flores e mantas de musgo. mesmo no interior da cidade. o pão reveste-nos de sombra. o teu nome reveste-nos de dor nesta noite em que vigiamos o forno do alto da mais alta torre. pouco ficou da viagem: o rio nutrindo-se da ponte e da figueira. o teu nome - alimentando o sangue que guardo neste poema.

Ruy Ventura

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A menina pó de arroz

A menina pó de arroz,
Nascida à beira do mar
Com o oceano nos olhos
E com sorrisos de lua
Nos seus lábios pequeninos
Que nunca ninguém beijou,

A menina pó de arroz,
Com seus cabelos de cobre
Onde o vento vem brincar,
Assoma à sua janela
P'ra ver a noite estrelada,
Para ouvir os sons da noite,
Para beber o luar.
Para ter em suas mãos
Macias, longas e brancas,
A noite tépida e branda,
A velha noite calada.

A menina pó de arroz,
Que por uma abreviatura
Do seu nome arrevesado
É chamada entre família
Por um nome miudinho
De marca de pó de arroz,
Com seu corpinho de fada
Que saiu de alguma fonte
Que há pouco perdeu o encanto,
Com a cabeça nas mãos,
Enquanto na casa dormem,
Veio pôr-se na janela
Para que a noite a beijasse.

A menina pó de atroz
Estará enamorada?

António Rebordão Navarro

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