"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

3.4.10

Cançoneta

Um colarzinho de contas no pescoço,
as mãos sumindo num amplo regalo.
Os olhos passeiam em torno distraídos
e já não têm mais com que chorar.

A seda, que é quase violeta,
faz o rosto parecer mais pálido.
A franja, de cabelos tão lisinhos,
já chega até quase as sobrancelhas.

Não se parece em nada com um voo
esse jeito lento de andar
como se numa jangada pisasse
e não nas pranchas firmes do assoalho.

A boca pálida, entreaberta,
o fôlego cansado, ofegante…
contra o peito treme o ramalhete
deste encontro contigo que não houve.

Anna Akhmatova

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2.4.10

Acalanto para a dor

Hoje guardo os poemas que te fiz
Recolho as rimas, as palavras loucas
Os versos amarrotados amontoo

Hoje desejo o inexplicável
Acariciar o nada, sentir o vazio
Alhear-me de qualquer lamento

Hoje prefiro a imprecisão, o disfarce
Asfixiem os tolos suspiros e murmúrios
Ou qualquer voz que fale de saudade

Hoje embrulho a ilusão, a espera
Engaveto os delírios e quimeras
Lavo-me dos cheiros das promessas

Hoje não me falem de poesia
Emudeçam o sol, vigiem a lua

Silêncio!!!
Minha dor quer apenas dormir...

Fernanda Guimarães

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1.4.10

Sonho...

Entra e tira o teu agasalho.

Está tanto frio...
Entranhou-se-me até quase às raízes do sentir
enquanto te esperava.
Agora que aqui estás, quente que és na tua presença,
conforta-me pois preciso tanto.
Já não distingo o corpo da alma, tal é o estado de algidez
em que me encontro.

Os troncos que pus na lareira riem-se de mim
e recusam-se a arder.
Só o teu abraço me providenciará algum alívio.
Senta-te aqui e recebe-me no teu colo...
Envolve-me com os teus braços e o teu olhar.
Aqueles aquecer-me-ão o corpo e este o coração.

Deixa-me adormecer assim no teu regaço
para que sonhe o que aqui te conto.

Maria João Cantinho

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31.3.10

Tarde sangrada

Era
uma flauta tocando
ave-marias na tarde,

um gesto pincelado
em forma de saudade,

mar sangrado
em secretos movimentos

um desejo navegado
pelas margens do teu corpo

Era
um vazio ou um grito
ou
um insondável encanto

ou
um cristal de pranto
pelo abraço não dado

Luiza Caetano

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30.3.10

Em silencio

E nem é necessária a palavra
para que aconteça o verso.

Basta um segredo,
um sonho,
um instante e um sim.

Porque tudo o que há para ser dito
revela-se na rima silenciosa da emoção
de quando você vem...

e se poema em mim....

Helena Araújo

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29.3.10

Cai Sang Zi

O céu escurece, começa a ventar e cai a chuva,
Levando embora o calor sufocante
Ela arruma no estojo a flauta de bambu
Antes de se maquiar diante do espelho.

A seda púrpura do seu penhoar é tão fina
Que se pode entrever sua pele, lisa e perfumada.
Sorrindo, ela diz: amor, esta noite,
Atrás da cortina de gaze, fresca será nossa cama.

Li Qingzhao
(trad. Sérgio Capparelli)

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28.3.10

Desconcerto

Ao descascar a palavra esperança
encontrei polpa de maçã
e caroço de pedra.

Ao descascar a palavra amor
achei pele de pêssego
e carne de cinza.

Ao descascar a palavra verdade,
encheu as minhas mãos
e ao chegar à minha boca não existia.

Josefina Plá

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27.3.10

Epitáfio

O aroma de rosas velhas e tabaco
Faz-me regressar.
Há quase vinte anos
Que não nos vemos
E a nossa desapegada paixão continua.

Foi isto que me deixaste:
A mão, entreaberta, imóvel
Sobre uma colcha verde.
O bastante para erguer
Alguns poemas melancólicos.

Se então eu te houvesse tocado
Um de nós podia ter sobrevivido.

Ian Hamilton
(trad. Nuno Vidal)

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26.3.10

Gitana

meus passos não te serão
leves
nem meus saltos
nem mesmo quando levito,
ou ergo as mãos, danço e canto
sem acompanhamento

pelo ângulo certo, porém,
verás meu coração nos abetos,
os pássaros rasgarem azuis
e amanhecerem os meus beijos
vermelhos

Adrianna Coelho

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25.3.10

Corpo

Percorre-me as veias
o uníssono afinado das vozes vividas:
- profundos silêncios
marcados com ferros de dor
e amargura.

No teu corpo o frio de um dia ausente.

Paula Raposo

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24.3.10

Vaso de barro

Não estou pronta
Sou um ser inacabado
Vaso de barro
Peça de escultura em reparo
Nas mãos do oleiro, moldado

O que sei de mim
é o que recolho
das lamas do meu manguezal
O que desconheço
está imerso nas areias amarronzadas
do meu íntimo abissal

A imagem no espelho
fita-me atônita
clama por uma resposta
uma palavra tônica
um gesto, um simples rito
Nada acontece
Apenas o cavernoso silencio permanece

Úrsula Avner

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23.3.10

Nua em versos

Não me encontre nua
na madrugada
procurando poesia

Não me olhe agora
que estou inebriada
por palavras e fotos

Não toque no meu ventre...

Posso parir
Mil versos...

Dafne Stamato

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22.3.10

Encontro

há um banco de praça vazio
calcificado em meu peito
desde a adolescência

no banco de espera
há marcas de minha silhueta estagnada

porque esperar é
moer futuros
causar espantos
examinar sementes

mas nessa trama de pomares enredados
eu sou o fruto que vinga de repente
fruto de vime talhado

pois o amor mordeu-me bem na anca
e o banco de praça em meu peito
desde então vive lotado.

Iara Maria Carvalho

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21.3.10

Sizígia

o céu insiste
nessas cores de maçã
mordida
depois me anoitece
e me despe das luas
em três de minhas
fases

do meu olhar tardio
cheias e vazantes
se derramam
como preces

Adrianna Coelho

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20.3.10

Outono

Hei de partir antes dos ventos altos.
Nos braços levo uma escrita tardia
com cheiro a frutos secos em terraços.
Grinaldas de lilases no olhar.
Nos ombros o matiz bordado nas florestas
pelas mulheres magníficas do verão.

Encurtados aqui os trabalhos do sol
soltarei os gritos de pobres e de bichos
contra a insânia maior que a invernia.

De pronto partirei que um outro povo
aguarda o tempo novo além do capricórnio.

Licínia Quitério

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19.3.10

Condicionantes

Se eu não fosse essa pessoa
cheia de pântanos,
seria nuvem

Se eu não fosse essa
coisa estranha
seria um espelho voltado para o mar

Se eu não fosse eu
assim, cheia de medos e escuros
seria uma lacuna
só pra deixar você entrar

Sheyla Azevedo

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18.3.10

Abracei meus silêncios
como o mar (en)revolve as conchas em seu corpo profundo e extenso.

Entre pérolas e borboletas traço meus segredos,
ora escancarados,
ora (nas entrelinhas) presos.

Espaços vazios em mim falam mais que milhares de palavras.

Quando a poesia dança entre meus dedos,
outro som algum se torna audível.

Palavras saltam da alma, do ventre, do peito...
Do que é ou não crível.

Desatam-se os nós.

As pérolas cintilam e as borboletas, serenas, migram...
(de um canto a outro do meu ser)

Úrsula Avner

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