"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

25.3.10

Corpo

Percorre-me as veias
o uníssono afinado das vozes vividas:
- profundos silêncios
marcados com ferros de dor
e amargura.

No teu corpo o frio de um dia ausente.

Paula Raposo

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24.3.10

Vaso de barro

Não estou pronta
Sou um ser inacabado
Vaso de barro
Peça de escultura em reparo
Nas mãos do oleiro, moldado

O que sei de mim
é o que recolho
das lamas do meu manguezal
O que desconheço
está imerso nas areias amarronzadas
do meu íntimo abissal

A imagem no espelho
fita-me atônita
clama por uma resposta
uma palavra tônica
um gesto, um simples rito
Nada acontece
Apenas o cavernoso silencio permanece

Úrsula Avner

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23.3.10

Nua em versos

Não me encontre nua
na madrugada
procurando poesia

Não me olhe agora
que estou inebriada
por palavras e fotos

Não toque no meu ventre...

Posso parir
Mil versos...

Dafne Stamato

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22.3.10

Encontro

há um banco de praça vazio
calcificado em meu peito
desde a adolescência

no banco de espera
há marcas de minha silhueta estagnada

porque esperar é
moer futuros
causar espantos
examinar sementes

mas nessa trama de pomares enredados
eu sou o fruto que vinga de repente
fruto de vime talhado

pois o amor mordeu-me bem na anca
e o banco de praça em meu peito
desde então vive lotado.

Iara Maria Carvalho

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21.3.10

Sizígia

o céu insiste
nessas cores de maçã
mordida
depois me anoitece
e me despe das luas
em três de minhas
fases

do meu olhar tardio
cheias e vazantes
se derramam
como preces

Adrianna Coelho

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20.3.10

Outono

Hei de partir antes dos ventos altos.
Nos braços levo uma escrita tardia
com cheiro a frutos secos em terraços.
Grinaldas de lilases no olhar.
Nos ombros o matiz bordado nas florestas
pelas mulheres magníficas do verão.

Encurtados aqui os trabalhos do sol
soltarei os gritos de pobres e de bichos
contra a insânia maior que a invernia.

De pronto partirei que um outro povo
aguarda o tempo novo além do capricórnio.

Licínia Quitério

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19.3.10

Condicionantes

Se eu não fosse essa pessoa
cheia de pântanos,
seria nuvem

Se eu não fosse essa
coisa estranha
seria um espelho voltado para o mar

Se eu não fosse eu
assim, cheia de medos e escuros
seria uma lacuna
só pra deixar você entrar

Sheyla Azevedo

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18.3.10

Abracei meus silêncios
como o mar (en)revolve as conchas em seu corpo profundo e extenso.

Entre pérolas e borboletas traço meus segredos,
ora escancarados,
ora (nas entrelinhas) presos.

Espaços vazios em mim falam mais que milhares de palavras.

Quando a poesia dança entre meus dedos,
outro som algum se torna audível.

Palavras saltam da alma, do ventre, do peito...
Do que é ou não crível.

Desatam-se os nós.

As pérolas cintilam e as borboletas, serenas, migram...
(de um canto a outro do meu ser)

Úrsula Avner

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17.3.10

Assim

Eu te amo
de um amar antigo
- sabor de antigamente
no velho caderno das lembranças -

Eu te amo assim,
de um amar
antigo,
intocado,
abstrato,
indizível,
atemporal.

Assim.

Mila Ramos

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16.3.10

Devaneio

carrego nos ombros cansaço
e
vontade de ter asas
em vez de braços
e
quando me atrevo
tudo falo no silêncio da minha voz
e
nas palavras dos meus atos

Márcia Kastrup Rehen

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15.3.10

Passado com passas

o abraço dobrado
e o bom passadio
de passas no arroz
era a vida dos dois
lareira no frio
praias no verão e
a vida passando
como o ferro passa
e o trem já passou

depois do passado
em que a história acontece
ficou só presente
onde nada mais passa

o presente é um roteiro

que nem começou

Adelaide Amorim

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14.3.10

Vista-se de Poesia

Procuro a poesia certa,
como uma roupa na medida exata,
para vestir a minha alma nua.

Byafra

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13.3.10

O piano

Decifra-me.
Se me queres,
tenta-me.
Há portas que estão
apenas aparentemente
fechadas. Abre-as.
Uma delas dá acesso a
uma sala e dentro dela
há um piano. Entra.
E toca-me.
Se teus dedos produzirem
música, terás
me aprendido.

Nalú Nogueira

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12.3.10

Tempo trançado

atrás da porta do armário
numa sacola de camurça
ruça
deixo ficar os dias
que se recusam a virar passado

as pétalas e
as cartas sem resposta
um dia se esfarelam sem aviso
mas há desejos de longa duração
amores refugados
e algumas alegrias
dessas que os poetas antigos
chamavam peregrinas
que não se quer esquecer

quem disse que só temos
o presente?
ou dito de outro modo
talvez nosso presente seja
exatamente
uma sacola velha de camurça

Adelaide Amorim

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11.3.10

Quão doces podem ser as notas planetárias.
Arias que retinem o pulsar dos cimos

A terra cala.
O céu fala.
O ar é azul distante.
Nas extremidades - silêncio.

Há um tempo em que se escuta
a floração dos pessegueiros
Ouve-se as flores rosadas se
Transformando em fruto.
Seiva estala.
Fruto e flor a destilar sentido.

Lambo-te nesta néctar oloroso.

Pausas breves em alvoradas inconclusas
Estão sendo geradas
Para a harmonia flores-ser,

Ritmo incessante,
Amor.

Ruth M. Dutra

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10.3.10

Cansaço

Hoje estou pequena demais.
Cansa-me a casa, o quarto, a rudeza do dia.
Tudo é vidro estilhaçado junto à janela.
Pesa-me a alma.

Pesa-me tanto que me torno impossível de um ato de carinho.
Não quero mais esse rosto de tantos anos.
Também não quero a maturidade de quem já sabe o que fazer com quadros antigos.

Quero a criança que fui tão constrangida.
Quero o colo de minha mãe para deitar-me como a primeira vez.
Quero a leveza das coisas pra poder respirar e pular as janelas, inclusive as que dão aos abismos.

Eu não sou uma flor.
Sou uma mulher com muitos espinhos.

Jeanne Araújo

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9.3.10

Florir das acácias

É no florir das acácias
que mora a alegria
das estátuas nuas.

Habitantes de jardins celestes
de árvores desfolhadas.

Corpos de pedra
- doados ao vento e ao tempo -
de sorriso lavado pela chuva
cansada de cair.

Olhos cegos na esperança
de ver acácias florir.

Maripa

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