"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

30.11.09

Fênix

Sutil leveza,
de sombreado sótão,
de escuridão, ânsia e tristeza,
permeava a alma em labirintos.
Formatada de coração e carinho,
só se achava,
voejando saídas
na própria pele partida
como exaurida Fênix,
de luz carente, só, silente...
Alada ave expandida,
das cinzas
compartilhada luz,
Renascia...

Gaiô

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29.11.09

Diz-me...

Desenha com a ponta dos teus dedos
as fronteiras exactas do meu rosto
as rugas os sinais a cicatriz que ficou da infância
o lento sulco das lâminas onde no peito
se enterra o mistério do amor

e diz-me

o que de mim amaste noutros corpos
noutras camas noutra pele

prometo que não choro mas repete
as palavras um dia minhas que sem querer
misturaste nas tuas e levaste
com as chaves de casa e os documentos do carro
- e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio
na primeira madrugada em que me esqueceste.

Alice Vieira

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28.11.09

O meu coração

A tarde avança em lençóis de fumo
e tu não bates à minha porta.
Enrolo um cigarro de lume para acabar com a dor.
Tenho os ouvidos lá fora e o corpo atento
O meu coração é um bandido sem navio nem marés
Perdidos os mastros não sabe gritar.
Por isso sou apenas um retrato
Sem perfil nem disfarce.
A tarde é uma égua e a tua demora uma navalha.

Isabel Mendes Ferreira

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27.11.09

Coração composê

Vista-se
De amor por mim
Só assim,
Eu me visto de você...

Enise

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26.11.09

Hoje vou para o mercado velho expor o meu corpo em pedaços
cada um bem identificado por uma etiqueta com nome e valor
tenho esperança de realizar uma boa transacção há tanta coisa lá
para trocar pelos pedaços ainda em bom estado deste meu corpo
inteiro não tem muita utilidade mas assim a retalho é precioso
em particular a mão direita o crânio o sexo o coração
oxalá ninguém queira comprar por atacado todos os pedaços
é que não sei onde guardei as instruções de montagem.

Carlos Alberto Machado

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25.11.09

Rosa Chá

Já não me domino.
Nem a vida em minha volta,
nem à tarde que se solta,
nem tão pouco as horas...
Nada me obedece.

Meu lápis,
outrora passivo
e agora animado...
vai e vem sem crivo
no papel desbotado.

E eu,
que resmungava de tudo,
me pego a dançar mudo
e a sorrir na tua rua,
na esperança nua
de te ver na janela.

E você... à espreita,
no fim da tarde perfeita
se confunde no horizonte
a despencar além do monte,
e gargalha do meu desejar.

E assim,
sem piedade de mim,
como vil e sem clemência
me revela a transparência
do teu veneno que só há
em teu vestido rosa chá.

Anderson Julio Lobone

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24.11.09

aprendi com as flores
o que Narciso
não aprendeu com o lago

a beleza é tão efêmera
quanto frágil

tão superficial
quanto volátil

tão banal
quanto conceitual

tão sedutora
quanto dissimulada

sim...
foram as flores
que me ensinaram

a crueldade

do tempo
e do vento

Paulo

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23.11.09

Coisas simples

Sobre a mesa de pinho
uma taça de vidro

Lá dentro
uma castanha brava
um tronco de alfazema
colhido no quintal
uma folha de choupo
que me bateu à porta
uma bolota que chegou do sul
uma falha de xisto
um pedaço de lava do vulcão
uma minúscula rosa do deserto
uma vieira um búzio
uma estrela do mar

Tudo tão simples

A natureza veio à minha casa
descansar

Licínia Quitério

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22.11.09

A feminina nuca

Os cabelos
enrolados
despiam-lhe a nuca
expondo a penugem
e a raiz das melenas.

Vislumbrei
o pescoço de uma garça
e o seu branco córrego,
vórtice sensual.

Altiva e grácil
a silhueta
tornara-se
deleite e súplica.

E o que mais fosse
seria despenhadeiro;
e o que mais falasse
era rubor, era entrega.

Waldir Pedrosa Amorim

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21.11.09

Relíquias

Nesta velha caixinha abandonada,
que a ação do tempo fez mudar de cor,
retalhos de minh’alma emocionada
guardei, outrora, com carinho e amor...

Relíquias... Eram cantos de alvorada,
e hoje traduzem nostalgia e dor.
Restos mortais de uma ilusão dourada,
vago perfume de sidérea flor.

Ai, tudo o vento do destino leva:
A luz se apaga e, a divagar em treva,
erram lembranças que doridas são!

Na vida é tudo assim! Tudo envelhece
mas, dentro d’alma o sonho não fenece
e o coração... é sempre o coração.

Emiliana Delminda

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20.11.09

Saio da cama pela fenda do lençol e
fecho-a sobre ti. Toco o chão ao de
leve, como uma ave pousa na pele
das ondas. Visto-me às escuras - tão

mais discreta a blusa do avesso, a saia
tão distraída nas costuras. Vou
para a cozinha de sapatos na mão e

escrevo-te um bilhete: deixei-te um
beijo sobre a tua almofada antes
de sair. Não preciso assinar.

Maria do Rosário Pedreira

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19.11.09

Ardo-me

Ardo-me por um tango de Piazolla
um soneto de Neruda
um poema de Lorca
encolho-me sob os personagens
de Guimarães
exibo-me às palavras de Luiz
ser não é viver o desejo
é ser o próprio desejo
respirá-lo
expirá-lo
senti-lo no baixo ventre
destilando nas veias
para bebê-lo ardente
direto da boca da alma.

Márcia Leite

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18.11.09

Teu vulto leve, ao fundo do passado,
Volve-me, ás vezes, um olhar maguado,
Que lembra o luar, por entre nevoas finas.
Ainda tenho, no espelho das retinas,
O parque familiar, e os velhos bancos,
entre tanques azues e jasmins brancos,
Onde a vida juntou, em dias vãos,
As tuas lindas mãos ás minhas mãos.
Onde estás, minha doce companheira?
Como a rosa, que tomba da roseira,
Ficaste numa curva do passado.
Como dóe recordar o tempo andando
Nas manhãs de illusão, nas noites calmas!
Uma lagrima a abrir dentro das almas,
Como um pallido sol num céo de outono,
Um gesto, um longo gesto de abandono,
Um desconsolo, um pouco de saudadinha,
E nisso está toda a felicidade...

Alberto de Oliveira

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Bordados

Hoje,
teço
um estranho manto
para os dias de solidão
a
pérolas de desencanto

(a paixão,
foi um pássaro que emigrou
para os lagos de Avalon)

Cubro-me sem luto
do coração até à alma
com um pouco de tristeza
Recortada a diamante

eterno foi o instante
quase tecido de beleza
lhe coso uns pontinhos
de Amor incrustado
e almiscaradas saudades

Belo manto - desencanto
como o da Senhora do Lago
a ponto-cruz bordado
com as linhas da magia

Tenho a chave!
Tenho o mote
para chegar à outra margem

Tenho a força
e a energia

Sagrada
Tenho também
minha espada de Lancelot

Luiza Caetano

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Amar de Amor, Amor de Amor (III)

Pouco sabeis de mim. Hoje percebo
que o segredo mais puro do que sou
vos é desconhecido. É um arremedo
apenas do que sinto o que vos dou.
Se é receio vos largar o coração,
talvez eu tema. Sei o que é silêncio,
a magia de compor a solidão
uma outra vez. E sei que não convenço
vossa distância em minha entrega. Perto
ou longe, sois limite próprio. Surda
é em vós essa paixão em que desperto
um arrepio que vossa paz perturba.
E intensa me contenho e mais não faço
para atrair-vos ao céu que vos disfarço.

Lupe Cotrim

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Fragmentos

Nada lhe entreguei
do que em mim é puro.
Nem minhas noites insones
nem meus dias inseguros.

Nada lhe falei
de meus temores,
nem dos desabraços,
nem dos desamores.

Ocultei-lhe,
um a um,
os meus fracassos
Dissimulei,
com um sorriso,
o meu cansaço.

Fragmentos de mim
eu lhe entreguei...
E por me camuflar
e me esconder
eu,
que só queria ser amada,
fragmentos de amor colecionei...

Henriette Effenberger

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Sopra um vento entre mim e ti
nascido como todos
quando escavávamos dentro de nós
escavando a distância

foi já tempestade fechada em nevoeiro
hoje é apenas brisa
afrouxada na distância

recebo esse sopro suave como uma carícia
de quem ao largo me acena
enquanto parte

sempre entre nós um vento
ar com que te respiro
enquanto o longe nos escava
a distância

Ana Viana

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