"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

2.2.10

Lapsum

No lapso entre a eternidade e a alma
Equilibra-se a pluma de um arcanjo
Na qual o madrigal de um doloso drama
Flui como sombra de um passado espanto

Aurora pálida que brilha como lâmpada
No tempo da beleza e do espírito
Que demarca as notas da tola alvorada
Vaidade que atravessa, cruel, o infinito

Abre-se como um leque o meu desejo
Enquanto de rendas e lágrimas me visto
Tecido que abraça o corpo com tal gracejo
Do cetim, da ópera, dos nobres, do imprevisto.

Nem liras, nem claves satisfazem o olhar
Que me fita com o esnobismo de uma gueixa
Neste olhar repousam jóias feitas de ar
Como rubi estilhaçado que em meus dedos deixa

E nas ruínas, no nada, naquilo que restou
Escorre na escuridão a forma bela e alva
Um prisma de luz que és tu e é o que sou
No lapso entre a eternidade e a alma.

Jessica Katleen

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1.2.10

Metamorfose

Repara: — a imóvel crisálida
Já se agitou inquieta,
Cedo, rasgando a mortalha,
Ressurgirá borboleta.

Que misteriosa influência
A metamorfose opera!
Um raio de Sol, um sopro
Ao passar, a vida gera.

Assim minh'alma, inda ontem
Crisálida entorpecida,
Já hoje treme, e amanhã
Voará cheia de vida.

Tu olhaste — e do letargo
Mago influxo me desperta;
Surjo ao amor, surjo à vida,
À luz de uma aurora incerta.

Júlio Dinis

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31.1.10

Poente branco

Andei pintando poesia nas palavras
Fingindo o tempo em sonhos impossíveis
Inventando premências sem sentido
Convivendo ausências
Medindo o porvir

Andei desperdiçando o rosto nas esperas
Sentindo o mundo em vazios inesquecíveis
Andei passando o sol despercebido
Bebi auroras
Embriaguei meus céus

Agora, traçam-me as letras tardiamente
Sonham-me versos tristes nos papéis
Tornei-me o silêncio da página vazia
O gesto sem toque,
O sentido sem forma

Pesa-me a inanidade branca do poente.

Lília Chaves

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30.1.10

Persona

Eu,
Que nesta mutação vou me perdendo,
E no casulo destes poucos anos
Limitada - mente
Fico assim, acabrunhada, ardendo
Descontente
Todos os dias, ao recolher pedaços
Pistas,
Arroubos psicanalistas
Que encontrar-me é mais forte que viver
E completar-me, mais mágoa que morrer.

Lá longe tem um mar. E além mais outro.
Atrás desse universo tem eu mesma.
E fico assim
Feito estrela
Borboleta
Fechada aqui qual mapa de tesouro
No mar que tem lá longe do outro mar.

E nesta mutação vou me esquecendo
Num canto das minhas ternuras
Brinquedos
Fechada qual caminhante
Nesta noite que se afoga
Nas águas de si mesma.

Vera Muniz

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29.1.10

Amor Proibido

Erma e árida a noite,
Árvores desfolhadas
Tua cabeça em meu ombro
Pousa aflita e pesada.

Ronda a raposa os campos,
Longe o inimigo a essa hora;
Astros alheios brilham.
Teus belos olhos choram.

Quebras um galho seco,
Vagamente, e me dás
Ambas as mãos - e não
Nos vimos nunca mais.

Detlev von Liliencron
(trad. Geir Campos)

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28.1.10

Tua mão

Com uma das mãos sobre o meu corpo
vais dormir em paz
não consigo dormir, por isso
o peso leve da mão
aos poucos passa a ser de chumbo
a noite é longa
permaneces no mesmo lugar
essa mão só pode ser afeto
talvez tenha outro significado secreto
Não ouso afastá-la
nem acordar-te de repente
quando me acostumo e me afeiçoo a ela
em sonho tu a recolhes, súbito
e ignora tudo.

Han Dong
(trad. Régis Bonvicino e Yao Feng)

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27.1.10

Sou sua pálida amante vaporosa
Na volúpia das noites andaluzas
Meu sangue ardente em minhas veias rolas
Minha alma é uma fonte sonhadora
Longe de ti bebo teus perfumes
Sonho com voce e me sinto seminua.

Ondina Castilho

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26.1.10

Memórias de Dulcineia IV

Indecisa, seguro entre as mãos
a carta que um dia recebi:
sem remetente, sem data,
sem perfume.
Com uma haste de fogo
a queimar-me as pálpebras,
eu leio: dia da minha noite,
prazer da minha mágoa,
norte dos meus caminhos,
estrela da minha ventura.
Os meus lábios, lentamente,
tocando as letras, lambendo
o sonho impresso no papel.
Um aroma de jasmim
devassando o ar.

Graça Pires

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25.1.10

Amalg(amados)

Eram dois
no mesmo passo
cadenciados

(às vezes meio tímidos)

consumidos
desconcertados
em metáforas construídos
e em antíteses
interpretados
seguiram...

depois
um único rastro
resumidos
interligados

(corações amalgamados)

Daufen Bach
(photo Charles Boyer & Jean Arthur)

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24.1.10

Met_ades

a vida me faz em metades:
metade gente
metade bicho
metade natureza
metade alegria
metade tristeza

tem dias que carrego o mundo dentro de mim.
em outros, sou vazio sem fim.

tem dias que uivo noite adentro.
em outros gorjeio feito ave.
adejando-me por entre nuvens e ventos,
às vezes piso em marte.

tem dias que chovo,
ora fina, ora torrencialmente.
em outros broto-me semente.

já desabrochei flor,
já despontei sol,
já adormeci loba,
já amanheci rouxinol.

muitas vezes tento juntar as partes.
nunca consigo!

elas se rejeitam... sofrem de incompatibilidades.

assim me levo ... tempo que segue, pedaços-metades!

Ana Merij

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23.1.10

Música

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.

Anna Akhmátova

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22.1.10

Dias meus

Tem dias que brinco comigo
e busco um sorriso em algum fundo de traço,
talvez um caminho em que me encontre
ou algum outro no qual me perca.

Tem dias que dispo minha alma
e reviro-me criança fera de um não delírio.
Deixo a tristeza pintar um mar
e nuvens filmarem alegria.

Tem dias que cavalgo poesia
e planto palavras nos pés de meus anseios,
outros rasuro malícia e desmancho segredos
tatuados na ponta de alguns prazeres.
Nos dias escritos desencravo dores
destilo amores e afago torrentes.

Tem dias que saio de mim
olho de fora e queimo por dentro.
Tem dias nos dias férteis que viro semente
e de mim broto mulher alucinada
com minhas taras e meus frágeis medos.

Tem dias que esqueço de mim
e sem querer me acho, inteira.

Eliane Alcântara

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21.1.10

De mim, tirei peça por peça:
As roupas
rotas que estavam de passado
O coração
para que não esperasse nenhum apelo
O sexo
entre silenciosas pedras de fogo
O amor
que se condenou à paixão
O sangue
pássaro vermelho jorrando assustado
As palavras
antes que fugissem pelos ouvidos
A pele
com estampas já desbotadas
Os braços
para que não mais aquecessem seu corpo
As pernas
que já não queriam me carregar nessa vida
Os cabelos
para que se renovassem como leve nuvem
Os olhos
para que não se nublassem à claridade do dia
As mãos
para que não mais buscassem o rosto desamado
O nariz
para esquecer o cheiro de imagens deslembradas
O pensamento
que me feria as madrugadas
Os ouvidos
para que não ouvissem os silêncios insones
Os pés que,
ave ferida, iriam te buscar sempre...
Os dedos
que nunca desataram meus nós
O meu canto
que me desliza triste ante à luz que se esconde
E finalmente,
finalmente o meu corpo
para que não se curve colhendo as conchas do tempo...

Nilze Costa e Silva

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20.1.10

Recomendações

E se acaso você for à minha choupana e minha mãe disser:
- Como vai o meu filho?
Será que ele vai bem ou será que me engana?
Você não vai falar que ando assim, maltrapilho;
mas, lhe diga a sorrir:
- Fique à senhora em paz!
Ele vence brincando o maior empecilho!
Está outro, ninguém o reconhece mais!

Se minha irmã disser:
- Como vai o meu mano?
Ele é muito falado? Ele é muito querido?
E será que ainda vem para casa este ano?
Você não vá tocar no que tenho sofrido.
Mas, lhe diga a sorrir:
- O seu mano é um rapaz
Que tem prêmios de amor e glória recebido!
Está outro! Ninguém o reconhece mais!

Entretanto, se você chegar até a casa de onde um dia saí,
cambaleante e mudo,
- Asa que cai do azul com uma ferida na asa -
e uma voz lhe disser, branda como um veludo:
- Como vai o meu noivo?
(ouça bem, meu rapaz...)
Diga-lhe apenas isto, ela compreende tudo:
- Está outro... ninguém o reconhece mais...

Judas Isgorogota

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19.1.10

Piano

Suavemente, na penumbra, uma mulher canta para mim;
Fazendo-me voltar e descer o panorama dos anos,
até que vejo
uma criança sentada debaixo do piano,
na explosão do prurido das cordas
e pressionando os pequenos,
suspensos pés de uma mãe que sorri
enquanto ela canta.
Apesar de mim, a insidiosa mestria da canção
atraiçoa-me fazendo-me voltar,
até que o meu coração chora para
pertencer
ao antigo entardecer dos domingos em casa,
com o inverno lá fora
e hinos na aconchegada sala de visitas,
o tinido do piano o nosso guia.

Por isso agora é em vão que a cantora irrompe em clamor
com o appassionato do grandioso piano negro. A magia
dos dias infantis está em mim, a minha masculinidade
é desencorajada no fluxo da lembrança,
choro como uma criança
pelo passado.

D.H.Lawrence
(trad. de Cecília Rego Pinheiro)

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18.1.10

Há sol na rua

Há sol na rua
Gosto do sol mas não gosto da rua
Então fico em casa
À espera que o mundo venha
Com as suas torres douradas
E as suas cascatas brancas
Com suas vozes de lágrimas
E as canções das pessoas que são alegres
Ou são pagas para cantar
E à noite chega um momento
Em que a rua se transforma noutra coisa
E desaparece sob a plumagem
Da noite cheia de talvez
E dos sonhos dos que estão mortos
Então saio para a rua
Ela estende-se até à madrugada
Um fumo espraia-se muito perto
E eu ando no meio da água seca.
Da água áspera da noite fresca
O sol voltará em breve

Boris Vian

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17.1.10

Eu só confio nas pessoas loucas,
aquelas que são loucas para viver,
loucas para falar, loucas para serem salvas,
desejosas de tudo ao mesmo tempo,
que nunca bocejam ou dizem uma coisa corriqueira,
mas queimam, queimam, queimam,
como fabulosas velas amarelas romanas
explodindo como aranhas através das estrelas.

Jack Kerouac

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