"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

17.4.13


 deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia

abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro

com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.

 Ana Paula Inácio

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16.4.13


por acaso

hoje venta,
nem forte, nem leve...
o sopro de Deus parece
feliz...
inda que breve,

pois que brinca de avoar
com a passarada
que abusa do gáudio do ar e

convida as folhas vivas
à dança e
aviva as mortas aos pés das cruzes
vivas-mortas-vivas,

beija tudo o que abraça,

revolve-se
por todos os lados
qual e tal uma criança borboleta, 
e,

por acaso,
ala
meus olhos d’água

Janet Zimmermann

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15.4.13


 piso o caminho mais
íngreme
para chegar até ti

aos olhos
da pedra
toda a aresta
é flor

V. Solteiro

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14.4.13


Sobre o seu retrato 

Quando a idade fizer de mim o que agora não sou;
E cada ruga me disser onde o arado
Do tempo sulcou; quando o gelo fluir
Atravessando cada veia 
e toda a minha cabeça se cobrir de neve:
Quando a morte exibir o seu frio sobre as minhas faces,
E eu, a mim mesmo o meu próprio retrato procurar,
Não encontrando o que sou, mas o que fui;
Duvidando em qual acreditar, neste ou no meu espelho;
Embora eu mude, este permanecerá o mesmo;
Tal como foi desenhado, reterá a compleição primitiva
E a tez primeira; aqui poderão ainda ver-se
Sangue nas faces e uma penugem sobre o queixo.
Aqui a testa permanecerá lisa, o olhar intenso,
O lábio rosado e o cabelo de cor jovem.
Contemplai que fragilidade podemos ver no homem,
Cuja sombra é menos do que ele propensa à mudança.

Thomas Randolph
(trad. Cecília Rego Pinheiro) 

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13.4.13


É tão estranha a sensação de não viver. De estar só à espera que aconteça. Olhar para trás e ver que em quase meio ano nada aconteceu. Pelo menos comigo. (...) eu estou em stand by. (...) Como os passageiros à espera de um outro destino naquelas salas de aeroporto que são onde melhor se ouve a solidão de estarmos tão perdidos assim como eu aqui, que por momentos nos transformamos em verdadeiros fantasmas, sem sombra sequer, sem nada. Até acontecer alguma coisa. Vai ter de acontecer alguma coisa. E não acontece.

  Pedro Paixão

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12.4.13


Problemas de geografia pessoal 

Nunca sei despedir-me de ti,
fico sempre com o frio 
de alguma palavra que não disse, 
com um mal-entendido a recear, 
o vazio de torpe inexistência 
que às vezes, gota a gota, 
se converte em desespero. 
Nunca sei despedir-me de ti, 
porque não sou 
o que em viagem passa pela gente, 
o que vai de aeroporto em aeroporto, 
o que olha os automóveis 
em direcção contrária, 
indo para a cidade onde acabas de chegar. 
Nunca sei despedir-me, 
porque sou um cego 
que tacteia pelo túnel das tuas mãos 
e lábios quando dizem adeus, 
um cego que tropeça nos mal-entendidos 
e com essas palavras que não se sabe articular. 
Desterrado do amor, 
nunca posso afastar-me de tudo quanto és. 
Num vazio de torpe inexistência 
vou-me de mim a caminho do nada.

 Luis García Montero

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11.4.13


Rec 

Ligaste para o três sete quatro um dois um neste
momento não estou em casa peguei na mala nas chaves
do carro vou-me embora por um tempo talvez para sempre

podes falar dizer o que nunca disseste agora que de certeza
não vou escutar diante de teus lábios tem o telefone
a solidão o silêncio todo o silêncio do mundo podes fazê-lo

depois de soar o sinal obrigado

 Pablo García Casado 

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10.4.13


Ninguém muda. Não sou só eu que não mudei. Nin-guém-mu-da, ouviste? Nin-guém. Eu não sabia que gostava de viajar porque nunca tinha viajado, como agora ainda não sei se gosto de outras coisas que nunca fiz. Mas isso não quer dizer que tenha mudado. Somos os mesmos, somos sempre os mesmos. 

  Dulce Maria Cardoso

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9.4.13


Então... o que eu faço da saudade
que teima em habitar o meu dia?
A manhã fria que não quer passar?
A chuva fina... constante e rítmica...
que me faz te lembrar?
O que faço com esta esperança... muda
... que insiste em brotar?
E... as horas vazias... que passo a te esperar?

Ah! O amor é uma erva daninha que teima em voltar!

O que se faz com a vida que quer ressuscitar?

Márcia.Dom 

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8.4.13


Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico. 

  Nelson Rodrigues

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7.4.13


A física do susto 

O espelho caiu da parede.
Caiu com ele o meu rosto.
Com o meu rosto a minha sede.
Com a minha sede meu desgosto.
O meu desgosto de olhar,
no espelho caído, o meu rosto. 

 Cassiano Ricardo

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6.4.13


 Olho-te em fotografias gastas 
Tumultos quebrados onde o espaço treme em frenesim 
Restos imprecisos de cicatrizes envelhecem como adereços 

Num excesso estalado de miragens, agitam-se fantasmas na água 
Dividindo-se em relâmpagos 
Ciclos de ausência voláteis onde te pressinto na espuma das marés 

Abrem-se clareiras no tempo 
E o sabor a lucidez é modelado na voz 

A loucura vagueia pela transparência 
Desprendendo-me indecisa nas imagens tocadas pelo furor da 
nitidez 

Maria Sousa

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5.4.13


 
esta es una silla
sólo una silla
en ella
se sentó mi padre
mis hermanos
todos
mis mejores amigos

ahora
está sola
sin nadie

una silla

Reinaldo Pérez Só

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4.4.13


Asas 

Eu tenho asas! 
Piso o chão como pisa toda a gente 
mas tenho asas 
de impalpável tecido transparente, 
feitas de pó de estrelas e de flores. 
Asas que ninguém vê, que ninguém sente, 
asas de todas as cores. 
Pequenas asas brancas que me afastam 
das coisas triviais 
e as tornam leves, fluídas, irreais 
- polén, nuvem, luar, constelações, 
irisados cristais. 
Asa branca minha alma a palpitar, 
bater de asas o doce ciciar 
de pálpebras e cílios. 
Ó minhas asas brancas de cetim! 
Revoadas de pássaros meus sonhos, 
Meus desejos sem fim!

Fernanda de Castro

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3.4.13


Poema da idade perdida 

E pensar que já tive dezoito anos,
que já vivi de sonhos,
que já teci ilusões...
E pensar que já suspirei de amores,
que já sorri despreocupada e feliz
que vibrei com o primeiro beijo...
E pensar que os meus cabelos 
já foram fartos e negros;
que no meu rosto havia reflexos de luz,
e no meu corpo, juventude e pujança...
E pensar que a minha boca
era fresca e sadia,
e a minha voz cristalina e pura...
E pensar que possuia um coração
que se alvoroça à-toa
e batia descompassado só em avistar um vulto querido...

Ah, pensar em tudo isto,
e descobrir agora estes cabelos brancos,
estas rugas morando no meu rosto,
este cansaço me alquebrando o corpo,
esta voz que já nem reconheço mais,
e este coração cansado e sofrido!
Ah, pensar em tudo isto
e não poder voltar atrás!...

 Anilda Leão

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2.4.13


Põe a máscara

Com os lábios que tinges,
Com as faces pintadas
E vãs gargalhadas
Enganas e finges.

De noite, destinges
As faces cansadas
Das vãs mascaradas.
Como outras esfinges,

Não dormes nem sonhas,
Chorando nas fronhas
Do teu travesseiro.

Amanhece ligeiro,
É justo que ponhas
A máscara primeiro.

 Débora Leão

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1.4.13


O tempo

O tempo passou por mim,
Alterando os meus planos,
Modificando as minhas aspirações,
Fazendo da minha vida
E de todos os meus sonhos
E de todos os meus amores
Uma coisa medíocre.

Pingou banalidade e lugares-comuns,
Na minha inteligência,
Na minha alma
E no meu coração.
Alterou a forma do meu corpo,
A estrutura das minhas células,
As linhas do meu rosto,
As crenças da minha ingenuidade
E o meu próprio caráter.

E o tempo, que não respeitou nada,
Nem os meus defeitos
Nem as qualidades dos outros - 
Esse tempo que deteriorou todas as alegrias
E tornou ridículos todos os martírios,
O tempo todo-poderoso
Não conseguiu ensinar-me 
A arte de esquecer.

 Alba Saltiel Bianco 

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