"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

26.9.12


 
  Fui eu

Fui eu essa menina que me espia
 - melancólico olhar, sereno rosto, 
postura fixa e o todo bem composto
 - no retrato que o tempo desafia. 
Fui eu na minha infância fugidia 
de prazeres ingênuos, e o desgosto
 de sentir tão efêmera a alegria
 bem depressa trocada em seu oposto.
 Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa 
e tudo altera nem sequer deixou 
um grão de infância feito esmola escassa. 
Fui eu: e na figura só ficou 
o olhar desenganado, na fumaça 
em que a criança inteira se mudou. 

  Fernando Py 

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23.9.12


 
  A revelação dos espelhos

Tudo em mim é desânimo, cansaço, 
um imenso desejo de morrer.
 Em minhas faces vejo a cada passo 
o lanho de uma ruga aparecer. 

 A cada riso novo, a cada traço 
que a consciência me dá do envelhecer,
 mais a mais se reduz o livre espaço
 em que um laivo de luz se possa ver.

 No atropelo das horas consumidas 
não percebi que em rondas desvairadas 
era eu levado para a destruição. 

 Ao ver-me hoje nas chapas denegridas 
dos espelhos, opacas, desgastadas, 
sinto-me frio e em lenta corrosão. 

  Alfredo Cumplido de Sant'Anna

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22.9.12


 
  O tempo passado

Houve um tempo em que a mão erguia uma lanterna e a noite se afastava um pouco, devagar. Não se anulava. A noite e o dia abriam sulcos para o silêncio como um rio e ao nosso lado caminhava sempre um espaço aberto. Eu não recordo, mas dizem-me que partíamos e tornávamos à casa como o sangue parte e torna ao coração. Mar não havia, mas pisávamos violetas. A cama em que dormíamos era a do parto e a da morte, o pão era solene e a aurora familiar. Ah, dêem-nos, dêem-nos de novo aqueles corpos ignorantes e densos, e ouvidos para o silêncio e boca para acreditar.

  Maria da Saüdade Cortezão

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31.8.12



Deita-te aqui comigo de olhos fechados
e de palavras ancoradas
quero que percebas que no mais fundo
e secreto de mim há negrume e silêncio
e como daí - do negrume e do silêncio -
podem nascer as cores e renovar-se a alma
basta que
te deites aqui comigo resumindo a noite
como quando se dorme

Cláudia Caetano

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30.8.12



Sons de piano

Porque os sons do piano
me aquecem a alma friorenta
deixo-me agasalhar em noites de mar aceso.
Nuvens de notas ritmadas
preenchem-me vazios
num crescendo de flores
e indolentes notas soltas...
Nestes acordes de fogo preso,
deixo a música incendiar o mar.
E os sons do piano, no sopro morno da noite,
alagam de marés as minhas horas
feitas de minutos, segundos
... e demoras.

Maripa

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29.8.12



Uma saudade verde
(Me sabe a verde
a saudade)
Verde como o oito da sua casa
Um oito deitado
(Infinito de saudade)

Nunca madura nem de vez
Perdura sempre verde
a saudade

Jorge Cooper

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28.8.12



Acordei

Hoje, confesso, acordei com vontade de ser feliz.
Amarrei, até, no pulso o amor-perfeito
que foi secando no meu peito e retomei a velha máxima:
não deixar que qualquer angústia atinja o coração.
Um castelo de areia é tudo quanto quero
para acostar o meu barco de papel.

Aproxima os olhos da vertigem e estremece
com a luz espessa que brilha nos teus ombros.
No céu do teu país, as estrelas podem ser barcos,
se quiseres sulcar os mares do coração em desordem.

Graça Pires

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27.8.12



Fragilidades

O chá esfria na chávena florida
de encantos de verão.

No aconchego da noite
o cantar das cigarras, o sopro morno do vento,
os nós de silêncio, os pensamentos-pássaro,
a chávena esquecida na mão, são apenas
os ecos de um agosto que se esqueceu de me aquecer.

O barco sem mar, a vela apagada, o gesto sem alma,
são apenas sentinelas de vidro- fragilidades -
... mas não vou desistir de, um dia, alcançar as estrelas.
Assim, partirei numa manhã sem tempo
ao encontro do anjo azul que me trará
o bule dourado com chá de mistério.

Adoçado com mel, beberei gulosa.
E apaziguada, asas abertas, planarei no espaço...
... como uma chama ou como uma rosa?

Maripa

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26.8.12



Dias Fantasmas

Não são sólidos, não são líquidos,
são uma estranha massa pastosa estes dias
sem a tua presença,
dias fantasmas que se deforma e escorrem
como aqueles objetos criados pela imaginação doentia
de Salvador Dali.

Dias de massa pastosa, que nas minhas mãos de angústia
parecem maiores, parecem sem fim,
e se distendem fora do tempo numa infinita espera.

Com suas horas fabrico imagens que se enfunam e acenam
- brancas cortinas de sombra
tocadas pelo vento...

Dias vazios... Em seus corredores de ermo e silêncio
nossos momentos de amor surgem a ressurgem
como fluidas visões mediúnicas
na inconsistência de sua matéria
tecida só de lembranças...

J. G. de Araujo Jorge

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25.8.12



Nome

Não eram lírios os lírios
caídos na areia, caídos
na areia roxa da noite
quase noite.
Não eram lírios, não eram
como tua sombra, eu sei,
mas eram muito mais lírios
que os lírios. Por isso
de lírios os chamarei.

Olga Savary

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24.8.12



Parte-S

Sou feita de meias mentiras
Meias verdades... Meia idade.
Um pouco cedo... Um tanto tarde!
Fui inteira... sou meia... ou partes.
Sol que brilha e não arde.
Lua cheia, vazia, pregada na paisagem.
Um canto de pássaro perdido
em meio ao burburinho da tarde.
Sou a noite silente... negra...
que, plácida, sonha e não passa.
Sonâmbulos... notívagos que vagam
em busca de uma saudade.
Ilha perdida... num mar que vibra... solitária.
Sou idas e vindas...
Chegadas e part-idas...

Sou o cais que fica
O ponto de passagem!
Sou parte... de desiguais meta-des!

Sou uma em muitas... (inverdades)!

Márcia.Dom

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23.8.12



No aeroporto

Correm um para o outro de braços abertos,
exclamam ridentes: Até que enfim! Enfim!
Ambos vestidos com agasalhos de inverno,
gorros de lã,
cachecóis,
luvas,
botas,
mas só para nós.

Porque um para o outro estão nús.

Wisława Szymborska
(trad. Teresa Swiatkiewicz)

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22.8.12



Desvanescente

fora do tempo,
espero a hora,
o luar lá fora,
a areia prateada,
o coração nas mãos,
a espreita nos gestos,
o gosto na boca,
os sentidos despertos,
a brasa no corpo...

a hora se gasta,
a lua se esconde
nas nuvens dispersas
a areia escurece,
o coração se divide
os gestos se crispam,
a boca se amarga,
os laços se rompem,
os sentidos se esgotam...

a hora se despe,
a lua adormece,
o corpo amortece,
as mãos envelhecem,
a boca se torce,
o viver se entorpece...

Dora Vilela

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21.8.12



Crónica feminina

Estava nua, só um colar lhe dava
horizontes de incêndio sobre o peito,
a transmutar, num halo insatisfeito,
a rosa de rubis em quente lava.

estava nua e branca num estreito
lençol que o fim do sono desdobrava
e a noite era mais livre e a lua escrava
e o mais breve pretérito imperfeito

só o tempo verbal lhe fugiria,
no alongar dos gestos e requebros,
junto do espelho quando as aves vão.

toda a nudez, toda a nudez, toda a melancolia
a dor no mundo, a deslembrança, a febre, os
olhos rasos de água e solidão.

Vasco Graça Moura

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20.8.12



(...) a cada mil lágrimas sai um milagre
mas se, apesar de banal,
chorar for inevitável
sinta o gosto do sal, do sal, do sal
sinta o gosto do sal
gota a gota, uma a uma
duas, três, dez, cem, mil lágrimas
sinta o milagre
a cada mil lágrimas sai um milagre
a cada "milágrimas"

Alice Ruiz

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19.8.12



O retrato

A minha mãe nunca perdoou o meu pai
por se ter suicidado,
especialmente num momento tão inoportuno
e num parque público,
naquela primavera
em que me preparava para nascer.
Ela fechou o seu nome
no seu armário mais fundo
e não o quis deixar sair,
embora eu pudesse ouvi-lo a bater.
Quando desci do sótão
com o retrato a pastel na minha mão
de um estranho de lábios grandes
com um intrépido bigode
e equilibrados olhos castanhos escuros,
ela rasgou-o em pedaços
sem dizer uma palavra
e esbofeteou-me com força.
Aos sessenta e quatro anos
ainda consigo sentir a minha bochecha
a arder.

Stanley Kunitz

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18.8.12



A porta

Vai e abre a porta.
Talvez lá fora haja
uma árvore, ou um bosque,
um jardim,
ou uma cidade mágica.

Vai e abre a porta.
Talvez haja um cão a vasculhar.
Talvez vejas um cara,
ou um olho,
ou a imagem
de uma imagem.

Vai e abre a porta.
Se houver nevoeiro
dissipar-se-á

Vai e abre a porta.
Mesmo que nada mais haja
que o tiquetaque da escuridão,
mesmo que nada mais haja
que o vento surdo,
mesmo que
nada haja,
vai e abre a porta.

Pelo menos
Haverá
Uma corrente de ar.

Miroslav Holub

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