"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

7.8.12



Destino

Um dia, quando tudo aquilo que fizemos
e tudo que conquistamos
já estiver diluido na memória
e as nossas mãos vazias
dos frutos que colhemos
for apenas mais uma parte da história
a alma despojada dos ventos e moinhos
sozinha há de encontrar a eternidade
pousada nas estrelas dos caminhos...

Mariza Alencastro

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6.8.12



Você nunca está só

Você nunca está só. Sempre ao seu lado
Há um pouquinho de mim pairando no ar
Você bem sabe: o pensamento é alado
Voa como uma abelha sem parar.

Veja: caiu a tarde transparente
A luz do dia se esvaiu... Morreu
Uma sombra alongou-se a seus pés mansamente...
Esta sombra sou eu.

O vento, ao pôr do sol, num balanço de rede
Agita o ramo e o ramo um traço descreveu
Este gesto do ramo na parede
Não é do ramo: é meu.

Se uma fonte a correr chora de mágoa
No silêncio da mata, esquecida de nós
Preste bem atenção nesta cantiga da água:
A voz da fonte é a minha voz.

Se no momento em que a saudade se insinua
Você nos olhos uma gota pressentiu
Esta lágrima, juro, não é sua
Foi dos meus olhos que caiu...

Olegário Mariano

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5.8.12



Residência da dor

Conheço a residência da dor.
É um lugar afastado,
Sem vizinhos, sem conversa, quase sem lágrimas,
Com umas imensas vigílias diante do céu.

A dor não tem nome,
Não se chama, não atende.
Ela mesma é solidão:
Nada mostra, nada pede, não precisa.
Vem quando quer.

O rosto da dor está voltado sobre um espelho,
Mas não é rosto de corpo,
Nem o seu espelho é do mundo.

Conheço pessoalmente a dor.
A sua residência, longe,
Em caminhos inesperados.

Às vezes sento-me à sua porta, na sombra das suas árvores.
E ouço dizer:
"Quem visse, como vês, a dor, já não sofria".
E olho para ela, imensamente.
Conheço há muito tempo a dor.
Conheço-a de perto.
Pessoalmente.

Cecília Meireles

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4.8.12



Elegia

Que quer o vento?
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...

Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.

Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.

Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.

Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.

Virei no vento...
Direi: acorda...

Rui Ribeiro Couto

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3.8.12



Soneto

Eu cantarei um dia da tristeza
por uns termos tão ternos e saudosos,
que deixem aos alegres invejosos
de chorarem o mal que lhes não pesa.

Abrandarei das penhas a dureza,
exalando suspiros tão queixosos,
que jamais os rochedos cavernosos
os repitam da mesma natureza.

Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
ave, ponte, montanha, flor, corrente,
comigo hão-de chorar de amor enredos.

Mas ah! que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,
que eu derramo os meus ais inutilmente.

Marquesa de Alorna

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2.8.12



O que se foi se foi.
Se algo ainda perdura
É só a amarga marca
na paisagem escura.

Se o que se foi regressa,
traz um erro fatal:
falta-lhe simplesmente
ser real.

Portanto, o que se foi,
se volta, é feito morte.

Então por que me faz
o coração bater tão forte?

Ferreira Gullar

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1.8.12



Vento

O vento agitando-se entre as árvores
Traz outras agitações dentro de mim...
E eu, mergulho ventaniamente nas palavras.
Palavras feitas no vento do meu espaço in (ex)terno,
Vento macio, amando água, corpos e paixão!
Vento suave de lirismos (in)contidos
No peito do poema em gestação,
Vento refeito em nuvens brancas, como o carinho de um bem querer!
O vento ventando a vida
Varrendo saudades noutras direções
Vento vindo, voando, vago: vento...

Maria José Speglich

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31.7.12



Saudação da saudade

minha saudade
saúda tua ida
mesmo sabendo
que uma vinda
só é possível
noutra vida

aqui, no reino
do escuro
e do silêncio
minha saudade
absurda e muda
procura às cegas
te trazer à luz

ali, onde
nem mesmo você
sabe mais
talvez, enfim
nos espere
o esquecimento

aí, ainda assim
minha saudade
te saúda
e se despede
de mim

Alice Ruiz

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30.7.12



Dia

Desde que foi embora, o mesmo ritual:
caixa sobre o colo, eu tiro o laço,
desfaço a fita, jogo a tampa
e não me animo com o presente.
desde que foi embora,
eu apenas desembrulho o meu dia.
sem etiqueta de troca,
não sei o que faço com ele.

Eduardo Baszczyn

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29.7.12



As coisas que existiam antes de tu morreres
e as coisas que surgiram depois:

Às primeiras pertencem, antes do mais,
as tuas roupas, as jóias e as fotografias
e o nome da mulher que te deu o nome
e também morreu jovem
Mas também um par de receitas, o arranjo
de um certo canto na sala,
uma camisa que me passaste a ferro
e que guardo cuidadosamente
debaixo da minha resma de camisas,
algumas peças de musica, e o cão
sarnento que por aí anda
com um sorriso estúpido, como se ainda aqui estivesses.

Às últimas pertencem a minha caneta,
um perfume conhecido
na pele de uma mulher que mal conheço
e as novas lâmpadas que pus no candeeiro do quarto
que iluminam o que leio acerca de ti
em todos os livros que leio.

As primeiras recordam-me que exististe,
as últimas que já não existes.

Que sejam quase indistinguíveis
é o mais difícil de suportar.

Henrik Nordbrandt
(trad. Rui Guerra)

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28.7.12



Madrugada

A esta hora, mal vejo
tenho areia nos olhos
e nenhuma vontade de dormir

o pouco que ainda enxergo
oculta-se na penumbra
- nenhuma vontade de acordar

Lara Amaral

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27.7.12



Ausência

A cor da ausência é moldura sem luz.
A dor da ausência é um corpo sem rosto.
Crepúsculo de um sortilégio posto.
Explícita tela do amor na cruz.

Oculto na escuridão se põe o ausente.
Feição do luto vestindo o insulamento.
Réstia da vida esvoaçando ao vento.
Porções de amor acariciando a mente.

Gilson Froelich

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26.7.12



A boca calada

A respiração cavando silêncios.
As mãos a pesarem
tanto que exilei os gestos
rentes ao coração.
Poiso a cabeça sobre a mão direita
e penso:
para o encontrar de novo
recomeçaria tudo outra vez,
andaria todos os caminhos,
arriscaria a minha vida.
Hora após hora,
ele regressa ao meu pensamento,
e vem do lugar de todas as ausências,
e tem nos braços a mesma curva
onde os pássaros iniciam
o primeiro voo.
Pedir-lhe-ia, agora,
que só uma vez me dissesse:
bebe a minha sede.

Graça Pires

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25.7.12



Anoitecer

Por vezes não é mais do que uma sombra
No soalho à frente do teu passo
Por vezes dizes – vai-te
E arredas a cortina

Por vezes tem contornos de animal
Cansado e ferido
Não sabes se avançar ou recuar
Não sabes se gritar ou emudecer

Não te ensinou o berço o anoitecer

Licínia Quitério

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24.7.12



Na casa à beira da estrada

Na casa à beira da estrada
Mora alguém que já morreu

As janelas abertas já não olham
A porta fechada já não fala
O telhado caído já não cala
Intimidades de amor.

Moram lá o sol e a lua
E estrelas, quando há.
A chuva e o vento
Também moram lá.

Na casa á beira da estrada
Mora alguém que já morreu.
Na casa à beira da estrada
Moro eu.

Jorge Freitas

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23.7.12



Auto-retrato

Este que vês, de cores desprovido,
o meu retrato sem primores é
e dos falsos temores já despido
em sua luz oculta põe a fé.

Do oculto sentido dolorido,
este que vês, lúcido espelho é
e do passado o grito reduzido,
o estrago oculto pela mão da fé.

Oculto nele e nele convertido
do tempo ido escusa o cruel trato,
que o tempo em tudo apaga o sentido;

E do meu sonho transformado em acto,
do engano do mundo já despido,
este que vês, é o meu retrato.

Ana Hatherly

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22.7.12



Carta

Acabou! E agora penso no que farei
com tuas coisas, das cartas de amor
que lia sentado sozinho ao pé da cama.
Do perfume que ficou pelo resto da casa,
no jardim que você passeava e teus cabelos
enfeitavas com as rosas que plantei. Você
deixou muitas marcas, mudou meu mundo
quando mais precisei, só não deixou explicado
o que fazer com essa dor que ficou em mim.

Arruda Bonfáh

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