"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

11.4.10

Evanescências

Regresso a pouco e pouco
à calma dos meus dias
sob a sombra do jacarandá

cai uma chuva morna de lilás
sobre um café já frio
e em completa anestesia
distraio-se-me o olhar
em ver passar evanescências

outras cores, o tempo, a gente...

Isabel Solano

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10.4.10

Quando encontrares um homem

Quando encontrares um homem
Que transforme
Cada partícula tua
Em poesia,
Que faça de cada um dos teus cabelos
Um poema,
Quando encontrares um homem
Capaz,
Como eu,
De te lavar e adornar
Com poesia,
Hei-de implorar-te
Que o sigas sem hesitação
Pois o que importa
Não é que sejas minha ou dele
Mas sim da poesia.

Nizar Qabbani

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9.4.10

volto já

a pessoa que me preenchia
saiu.

esperem um momento.

ela volta já.

Nuno Moura

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8.4.10

Para uso diário

Se a vida não fosse tão insubstituível
talvez ousássemos utilizá-la.
Porém arrumamo-la na prateleira
como um vistoso par de sapatos
que é bonito de se ver
mas não para uso diário.
Assim, continuamos por aí sentados
numa expectativa descalça.

Margareta Ekström

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7.4.10

Sim, por favor

Uma mão quente.
Uma casa quente.
Um pullover quente
para cobrir meus pensamentos gelados.

Um corpo quente
para cobrir o meu corpo.
Uma alma quente
para cobrir a minha alma.
Uma vida quente
para cobrir a minha vida gelada.

Sonia Åkesson

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6.4.10

Três donzelas

Três donzelas puras,
Três donzelas, três irmãs,
Três vestidos de noiva bordados.
A mais nova disse
O amor há-de chegar,
Há-de chegar com a manhã.
De súbito chegou a morte
E levou-a.

Duas donzelas puras,
Duas donzelas, duas irmãs,
Dois vestidos de noiva bordados.
A segunda disse
Talvez a morte chegue
E só tu restarás.
Em breve chegou o amor
E levou-a.

E agora eu espero sozinha.

Vorea Ujko

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5.4.10

A última porta

Ela nunca tivera sucesso com os de sua família de adoção,
muito menos com o marido, o filho, a nora,
ou a cunhada.

Entretanto, jamais sobrecarregara ninguém
com o peso de suas emoções pessoais,
pelo pudor de suscitar a piedade.

Jamais falara a ninguém de sua infância.

De sua fome...
primeiro de pão, depois de ternura.

Elisa Lispector

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4.4.10

e tu,
vais-te embora? vais-te embora?...

não,
não te vais embora: fico contigo…

deixas-me nas mãos a tua alma,
como um casaco.

Marguerite Yourcenar
(trad. Maria da Graça Morais Sarmento)

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3.4.10

Cançoneta

Um colarzinho de contas no pescoço,
as mãos sumindo num amplo regalo.
Os olhos passeiam em torno distraídos
e já não têm mais com que chorar.

A seda, que é quase violeta,
faz o rosto parecer mais pálido.
A franja, de cabelos tão lisinhos,
já chega até quase as sobrancelhas.

Não se parece em nada com um voo
esse jeito lento de andar
como se numa jangada pisasse
e não nas pranchas firmes do assoalho.

A boca pálida, entreaberta,
o fôlego cansado, ofegante…
contra o peito treme o ramalhete
deste encontro contigo que não houve.

Anna Akhmatova

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2.4.10

Acalanto para a dor

Hoje guardo os poemas que te fiz
Recolho as rimas, as palavras loucas
Os versos amarrotados amontoo

Hoje desejo o inexplicável
Acariciar o nada, sentir o vazio
Alhear-me de qualquer lamento

Hoje prefiro a imprecisão, o disfarce
Asfixiem os tolos suspiros e murmúrios
Ou qualquer voz que fale de saudade

Hoje embrulho a ilusão, a espera
Engaveto os delírios e quimeras
Lavo-me dos cheiros das promessas

Hoje não me falem de poesia
Emudeçam o sol, vigiem a lua

Silêncio!!!
Minha dor quer apenas dormir...

Fernanda Guimarães

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1.4.10

Sonho...

Entra e tira o teu agasalho.

Está tanto frio...
Entranhou-se-me até quase às raízes do sentir
enquanto te esperava.
Agora que aqui estás, quente que és na tua presença,
conforta-me pois preciso tanto.
Já não distingo o corpo da alma, tal é o estado de algidez
em que me encontro.

Os troncos que pus na lareira riem-se de mim
e recusam-se a arder.
Só o teu abraço me providenciará algum alívio.
Senta-te aqui e recebe-me no teu colo...
Envolve-me com os teus braços e o teu olhar.
Aqueles aquecer-me-ão o corpo e este o coração.

Deixa-me adormecer assim no teu regaço
para que sonhe o que aqui te conto.

Maria João Cantinho

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31.3.10

Tarde sangrada

Era
uma flauta tocando
ave-marias na tarde,

um gesto pincelado
em forma de saudade,

mar sangrado
em secretos movimentos

um desejo navegado
pelas margens do teu corpo

Era
um vazio ou um grito
ou
um insondável encanto

ou
um cristal de pranto
pelo abraço não dado

Luiza Caetano

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30.3.10

Em silencio

E nem é necessária a palavra
para que aconteça o verso.

Basta um segredo,
um sonho,
um instante e um sim.

Porque tudo o que há para ser dito
revela-se na rima silenciosa da emoção
de quando você vem...

e se poema em mim....

Helena Araújo

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29.3.10

Cai Sang Zi

O céu escurece, começa a ventar e cai a chuva,
Levando embora o calor sufocante
Ela arruma no estojo a flauta de bambu
Antes de se maquiar diante do espelho.

A seda púrpura do seu penhoar é tão fina
Que se pode entrever sua pele, lisa e perfumada.
Sorrindo, ela diz: amor, esta noite,
Atrás da cortina de gaze, fresca será nossa cama.

Li Qingzhao
(trad. Sérgio Capparelli)

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28.3.10

Desconcerto

Ao descascar a palavra esperança
encontrei polpa de maçã
e caroço de pedra.

Ao descascar a palavra amor
achei pele de pêssego
e carne de cinza.

Ao descascar a palavra verdade,
encheu as minhas mãos
e ao chegar à minha boca não existia.

Josefina Plá

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27.3.10

Epitáfio

O aroma de rosas velhas e tabaco
Faz-me regressar.
Há quase vinte anos
Que não nos vemos
E a nossa desapegada paixão continua.

Foi isto que me deixaste:
A mão, entreaberta, imóvel
Sobre uma colcha verde.
O bastante para erguer
Alguns poemas melancólicos.

Se então eu te houvesse tocado
Um de nós podia ter sobrevivido.

Ian Hamilton
(trad. Nuno Vidal)

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26.3.10

Gitana

meus passos não te serão
leves
nem meus saltos
nem mesmo quando levito,
ou ergo as mãos, danço e canto
sem acompanhamento

pelo ângulo certo, porém,
verás meu coração nos abetos,
os pássaros rasgarem azuis
e amanhecerem os meus beijos
vermelhos

Adrianna Coelho

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