"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
(...) eu ia te ensinar por que de não em não o tempo se sacia de nós, o tempo nos nega os desejos e nos avilta os sonhos, por que não existe a terra prometida senão em nós, e por que ela está cercada de continentes barrentos e istmos movediços...
João Carrascoza
(photo Olivia de Havilland)
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Sortilégio
Primeira estrela que eu vejo,
dai-me tudo o que eu desejo.
Se o cachorro latir, ele me ama.
Se a bicicleta passar, ele me odeia.
Se a porta bater, ele está pensando em mim.
Fecho os olhos.
Silvana Guimarães
(photo Sophia Loren)
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Anéis do meu cabelo
Se passares pelo adro
No dia do meu enterro
Diz à terra que não coma
Os anéis do meu cabelo
Já não digo que viesses
Cobrir de rosas o meu rosto
(...)
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.
António Botto
(photo Claire Trevor)
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A minha amiga
Ao menos tenho a minha fiel amiga
Nunca deixa de estar ao meu lado
Fica de noite comigo
Tem-me em seus braços enlaçado
Seguro, apertado
Não me pode deixar
Veio para ficar
A minha querida amiga
Dor
Yoshira Marbel
(trad. Carlos Campos)
(photo Sharon Tate)
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Prece
Dê-me o esquecimento, meu pai.
Dê-me uma noite sem sombra
ou sobressalto, um sono inteiro
um instante sem rumor.
Dê-me teu silêncio, meu pai.
A solidez das pedras, o rigor das coisas
a solidão sem dor.
Maria Esther Maciel
(photo Elizabeth Taylor)
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Quem fala do amor? Eu tenho frio
e quero ser Dezembro
Quero chegar a um bosque apenas sensível,
até à maquinaria do coração sem saldo.
Eu quero ser Dezembro
Dormir,
na noite sem vida,
na vida sem sonhos,
nos tranquilizados sonhos que desaguam,
no rio do esquecimento.
Há cidades que são fotografias
nocturnas de cidades.
Eu quero ser Dezembro.
Para viver ao norte de um amor que aconteceu
debaixo do beijo sem lábios de já há muito tempo,
eu quero ser Dezembro.
Como o cadáver branco dos rios,
como os minerais do Inverno.
Eu quero ser Dezembro.
Luis García Montero
(photo Mary Charleson)
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Natal
Acende as velas
da árvore de sua vida
para aquecer a família
neste Natal!
Pendure os presentes,
bem amarrados,
e faça uma promessa
a você mesmo
de se libertar
dos passados.
Faça um pisca-pisca
dos seus olhos,
e não dê tanta
importância
às coisas passageiras.
A vida é um festival!
Siga em frente!
Prepare a ponteira
da árvore para indicar
novo caminho,
afinal,
tudo é festa,
nesta noite de Natal!
Ivone Boechat
(photo Everett Collection)
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Fantasma
Com os olhos cobertos
Pela fina renda que caía do chapéu
Assistia o baile
Do canto mais discreto da sala.
Pessoas divertiam-se ao sabor das músicas e bebidas.
Casais beijavam-se felizes pelo momento único.
Outros, passeavam, conversavam.
Tudo estava correndo da maneira habitual.
E era assim que teria que ser.
Levantou-se em silêncio
Retornando para o quadro que pendia na parede.
Gostava destes rasgos de realidade
De tempos em tempos.
Sentia-se viva
Depois de muito.
Gisa
(photo Bette Davis)
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Triste
Não consigo compreender.
Penso e não entendo.
Reflito sem conclusões.
Fico aflita.
Tento, em vão,
Não procurar respostas.
Preciso delas.
Tenho medo que o silêncio me devore.
Sinto ele próximo,
Muito próximo.
Choro.
Gisa
(photo Maureen O'Sullivan)
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A água
Despe, na solidão da tarde,
Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.
Paulo Bomfim
(photo Clara Bow)
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Os meus olhos
olham os meus olhos,
para lá da janela
há sombras
suspiros
árvores e rosas.
Dentro da janela,
Só os meus olhos
Olhando outros olhos encobertos.
O silêncio pesa.
Isabel Meyrelles
(photo Gabrielle Ray)
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Com a mala cheia de insultos,
ela guardou as dores no corpo
e vestiu um poema barato.
Restava-lhe abrir janelas.
Era certo que em algum
lugar uma nova vida
amanheceria.
Renata Belmonte
(photo Ingrid Bergman)
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de tanto sonhar
olhando para parede
cavou um túnel
para outro mundo
apenas com o olhar
atravessou e
nunca mais se soube dela
Marisete Zanon
(photo Veronica Lake)
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Não tenho planos, nem promessas, nem
filhos que nos convidem para almoços
de domingo - a minha ideia de família
resume-se a um retrato velho preso numa
gaveta; e do amor possível sei tão-só
o que li nos romances que me salvaram
da desordem quando o meu tempo
andava de ferida em cicatriz. Mas guardo
ainda muitos por estrear para essa estante
que ergueste no corredor como uma casa
nova. E trago portas abertas no coração:
se ainda não sabias, és muito bem-vindo.
Maria do Rosário Pedreira
(photo Greta Garbo)
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As Rosas de Saadi
Esta manhã eu quis levar-te rosas,
Mas tantas eu tinha na cintura presas
Que os nós cerrados não as puderam conter.
Os nós rebentaram. E elas levadas
Pelo vento no mar foram tragadas.
As rosas perdidas eu não consegui rever;
As águas ficaram vermelhas, como inflamadas.
Esta noite minhas vestes ainda estão perfumadas.
Aspira em mim a lembrança de as trazer.
Marceline Desbordes-Valmore
(photo Lily Elsie)
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Os primeiros momentos
Amo os primeiros momentos da manhã
aqueles momentos que ainda ninguém usou
tão limpos
que deves lavar os pés antes de os habitares
aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada
e encharcam a tua roupa com orvalho
Irás chocar com segredos
descobrir milagres cobertos habitualmente pelo fumo dos autocarros
escutarás puros ecos sussurros e corridas precipitadas
Amo os primeiros momentos da manhã
quando o sol tem um só olho aberto
e o dia é como uma camisa lavada
sem vincos e pronta a usar
aqueles momentos que prendem a tua atenção
por serem tão sossegados
Coral Rumble
(photo Marilyn Monroe)
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... têm sido assim esses meus dias:
aperto a mão contra o peito
e o vazio do mundo me abraça.
Flávia Vida
(photo Marilyn Monroe)
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