"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Cálice
O meu corpo
como se fosse o cálice
o meu sangue como se fosse o vinho
estas as palavras da vida eterna
até que dure
o sopro que as insufla
do pó em que se desfazem
esse pó que enegrece o cálice
o cálice donde escorre o vinho.
Ana Paula Inácio
(photo Marilyn Monroe)
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Então para os outros sou aquele estranho que surpreendi no espelho: sou ele e não eu, tal como me conheço! Sou aquele estranho que, à primeira vista, não reconheci. Aquele estranho que não posso ver viver a não ser assim, num instante inesperado. Um estranho que só os outros podem ver e conhecer.
Luigi Pirandello
(photo Tyrone Power)
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Bilhete
Fui-me embora, não esperes por mim.
Se alguém der pela falta, diz apenas
que estou bem, continuo a fazer o mesmo
de sempre, trabalho, casa, trabalho, casa.
Só não mintas às filhas, diz-lhes que fui
procurar na distância outra forma de solidão,
talvez convencido de que longe de tudo
poderei vir a sentir falta do que já tenho.
Henrique Manuel Bento Fialho
(photo Montgomery Clift)
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Ao lado da janela,
desconhecida dormes.
Com o sono
- ponte de vidro -
E o teu pé nu.
E o ar que te respira
deixa de esperar
o azul da luz do dia.
João Camilo
(photo Elizabeth Taylor)
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Sala provisória
Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.
Inês Lourenço
(photo Katharine Hepburn)
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Sofro de não te Ver
Sofro
de não te ver,
de perder
os teus gestos
leves, lestos,
a tua fala
que o sorriso embala,
a tua alma
límpida, tão calma...
Sofro
de te perder,
durante dias que parecem meses,
durante meses que parecem anos...
Quem vem regar o meu jardim de enganos,
tratar das árvores de tenrinhos ramos?
Saúl Dias
(photo Hedy Lamarr)
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Tudo o que perdi
Perdi uma noite de amor em Casablanca,
um reinado perdi, tal como o limbo,
a aposta de viver de coração aberto,
perdi a noite, um autocarro, perdi a vida
como se perde a bolsa num assalto.
Perdi o gosto da ferrugem e da luz,
perdi uma estocada na praia.
Perdi uma guerra
e a alma, um número de telemóvel
e a fé nas coisas que me importam.
Perdi os olhos, a juventude perdi
num sonho mau.
Tudo perdi. Quanto ganhei.
Violeta C. Rangel
(photo Georgia O'Keeffe)
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O Aprendiz
Sou pobre realmente.
Tenho apenas algumas folhas de papel na alma
E uma vontade - digamos, mansa -
De hipnotizar borboletas.
Que coisa sei da vida?
Pouca coisa sei da vida.
O bastante para não correr.
Affonso Manta
(photo Harold LLoyd)
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Os Mortos
Amo os meus mortos
Quase tanto como os vivos.
Os primeiros dão-me paz
Os segundos, vigor e alento.
No Natal estou com todos.
Por uns rezo,
Aos outros, alimento.
A vida faz-se com ambos,
Até que a morte nos leve
E nos junte aos que já foram.
Para com eles cuidar
Da vida dos que aqui ficam,
A lembrar os que partiram!
Helena Sacadura Cabral
(photo Alice Joyce)
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Receita de Bruxa
A bruxa malvada, a Urraca,
Raivosa que nem jararaca,
Vingou-se do ogro
Que era seu sogro
Com essa receita velhaca:
Bocejo de pulga
Coceira de cão
Espirro de grilo
Rosnar de escorpião
Rangido de dente
Coaxar de gavião
Lambida de mosca
Soluço de anão.
De cada ingrediente um punhado
E o ogro saiu carregado!
E a bruxa Urraca,
Aquela bruaca,
Dançou contente um xaxado.
Tatiana Belinky
(photo Veronica Lake)
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quem me dera
se lá no bar do amor
eu realmente pudesse pedir
uma dose de amor pra beber.
e na oficina esperança
eu entrasse e consertassem
a parte de mim
em que a esperança
está quebrada.
e na relojoaria tempo
eu conseguisse
girar os ponteiros
da minha vida
para o tempo que eu quisesse.
e no borboletário
conseguisse recuperar as
borboletas na barriga.
e no balcão de mapas
me dessem o mapa
que marca
onde ele está.
e no viveiro de pássaros
eu entrasse e saísse
com pássaros que
me pendurassem pela roupa
e me levassem até lá.
vanessa carvalho
(photo Jean Artur)
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A física do susto
O espelho caiu da parede.
Caiu com ele o meu rosto.
Com o meu rosto a minha sede.
Com a minha sede meu desgosto.
O meu desgosto de olhar,
No espelho caído, o meu rosto.
Cassiano Ricardo
(photo Corinne Griffith)
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Vende-se
A casa
Foi caiada
Há pouco tempo
Abriga ainda
O mormaço
Dos corpos
A penumbra
Do beijo
A ecoar
O estio
E as estações
Nas vigas nos moirões
No cercado
A violência do sol
No quintal
O cheirar das horas
Verdoengas
Reacendendo
O tempo
Oh tempo!
Que as janelas
Cantavam
E o riso florescia
Na casa
As vozes
E a indulgência do silêncio
Jorge Andrade
(photo Buster Keaton & Sybil Seely)
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Antimétodo
Pouco a pouco
Embaralho tudo e nada
Sou meu próprio
Espantalho
Fujo
De mim mesmo
Finjo-me
Da minha própria
Esfinge
Perdido em meu próprio
Labirinto
Sou o que sou
Ou minto? Será isso
Uma regra secreta?
Sebastião Uchoa Leite
(photo Buster Keaton)
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Ferida
fer
ida
sem
ferida
tudo
começa
de novo
a cor
cora
a flor
o ir
vai
o rir
rói
o amor
mói
o céu
cai
a dor
dói
Augusto de Campos
(photo Ellen Terry)
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A Máscara da Dama
Quando se vive curto e tão a fundo,
Se chega fatalmente a um impasse:
Não é mais possível estar no mundo
Sem ver a nossa morte face a face,
E a encontramos nas esquinas,
A vemos nos momentos delicados
E até naqueles mais traquinas
Quando ousados subimos num tablado
E fazemos o nosso show de humor
Que a nós mesmos nos espanta
Pois se apresenta negro e quase horror.
Então tudo que fomos se desvela,
Cai a máscara da Dama e desencanta
E um tardio novo mundo se revela...
Alma West
(photo Brigitte Bardot)
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Carta para minha namorada
Eu decorei suas fraquezas, acalmei seus pesadelos.
Conheço histórias de sua infância, dores e repulsas.
Sou sua caixa-preta, sua cópia de segurança, seu diário, seu esconderijo na parede.
Fabrício Carpinejar
(photo Rudolph Valentino & Vilma Banky)
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