"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Receita de Bruxa
A bruxa malvada, a Urraca,
Raivosa que nem jararaca,
Vingou-se do ogro
Que era seu sogro
Com essa receita velhaca:
Bocejo de pulga
Coceira de cão
Espirro de grilo
Rosnar de escorpião
Rangido de dente
Coaxar de gavião
Lambida de mosca
Soluço de anão.
De cada ingrediente um punhado
E o ogro saiu carregado!
E a bruxa Urraca,
Aquela bruaca,
Dançou contente um xaxado.
Tatiana Belinky
(photo Veronica Lake)
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quem me dera
se lá no bar do amor
eu realmente pudesse pedir
uma dose de amor pra beber.
e na oficina esperança
eu entrasse e consertassem
a parte de mim
em que a esperança
está quebrada.
e na relojoaria tempo
eu conseguisse
girar os ponteiros
da minha vida
para o tempo que eu quisesse.
e no borboletário
conseguisse recuperar as
borboletas na barriga.
e no balcão de mapas
me dessem o mapa
que marca
onde ele está.
e no viveiro de pássaros
eu entrasse e saísse
com pássaros que
me pendurassem pela roupa
e me levassem até lá.
vanessa carvalho
(photo Jean Artur)
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A física do susto
O espelho caiu da parede.
Caiu com ele o meu rosto.
Com o meu rosto a minha sede.
Com a minha sede meu desgosto.
O meu desgosto de olhar,
No espelho caído, o meu rosto.
Cassiano Ricardo
(photo Corinne Griffith)
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Vende-se
A casa
Foi caiada
Há pouco tempo
Abriga ainda
O mormaço
Dos corpos
A penumbra
Do beijo
A ecoar
O estio
E as estações
Nas vigas nos moirões
No cercado
A violência do sol
No quintal
O cheirar das horas
Verdoengas
Reacendendo
O tempo
Oh tempo!
Que as janelas
Cantavam
E o riso florescia
Na casa
As vozes
E a indulgência do silêncio
Jorge Andrade
(photo Buster Keaton & Sybil Seely)
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Antimétodo
Pouco a pouco
Embaralho tudo e nada
Sou meu próprio
Espantalho
Fujo
De mim mesmo
Finjo-me
Da minha própria
Esfinge
Perdido em meu próprio
Labirinto
Sou o que sou
Ou minto? Será isso
Uma regra secreta?
Sebastião Uchoa Leite
(photo Buster Keaton)
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Ferida
fer
ida
sem
ferida
tudo
começa
de novo
a cor
cora
a flor
o ir
vai
o rir
rói
o amor
mói
o céu
cai
a dor
dói
Augusto de Campos
(photo Ellen Terry)
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A Máscara da Dama
Quando se vive curto e tão a fundo,
Se chega fatalmente a um impasse:
Não é mais possível estar no mundo
Sem ver a nossa morte face a face,
E a encontramos nas esquinas,
A vemos nos momentos delicados
E até naqueles mais traquinas
Quando ousados subimos num tablado
E fazemos o nosso show de humor
Que a nós mesmos nos espanta
Pois se apresenta negro e quase horror.
Então tudo que fomos se desvela,
Cai a máscara da Dama e desencanta
E um tardio novo mundo se revela...
Alma West
(photo Brigitte Bardot)
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Carta para minha namorada
Eu decorei suas fraquezas, acalmei seus pesadelos.
Conheço histórias de sua infância, dores e repulsas.
Sou sua caixa-preta, sua cópia de segurança, seu diário, seu esconderijo na parede.
Fabrício Carpinejar
(photo Rudolph Valentino & Vilma Banky)
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Culinária sentimental
Primeiro comete-se um erro. Convém escolher um erro de grande qualidade, dos crassos, mesmo.
Depois mistura-se-lhe uma generosa quantidade de culpa e bate-se até formar uma massa de consistência uniforme.
De seguida, num recipiente separado, recria-se a causa de justificação do erro para atenuar a culpa.
Junta-se tudo e acrescenta-se uma pitada de falta de imaginação.
Leva-se ao forno e obtém-se um grande amor.
Deve servir-se gelado.
Cuca, a Pirata
(photo Desi Arnaz & Lucille Ball)
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Crie laços com as pessoas que lhe fazem bem, que lhe parecem verdadeiras e desfaça os nós que lhe prendem àquelas que foram significativas na sua vida, mas infelizmente, por vontade própria deixaram de ser.
Nó aperta, laço enfeita.
Simples assim!
Silvana Duboc
(photo Carlo Ponti & Sophia Loren)
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Levanta-se
penteia-se
lava-se
enche de água um copito
veste-se
prepara-se
calça-se
beija a quem quer
sem fogo
sem vida
sem alma
deita-se
adormece
Yolanda Pantín
(photo Clara Bow)
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Vou pôr um anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
Que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro de água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos.
António Franco Alexandre
(photo Kim Novak)
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Forasteira
Eu nasci mulher
E mulher vou caminhar.
Com meus olhos sagazes,
Com minhas sardas censuradas,
Com minha boca enfeitada,
Com meus seios valentes,
Com minhas coxas atrevidas,
Com meu sexo forasteiro...
Eu nasci mulher
E mulher vou caminhar.
Com minhas pernas próprias.
Com minhas pernas sóbrias.
Oswaldo Antônio Begiato
(photo Veronica Lake)
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Falam da falta que eu vos faço e não escutam a música das minhas lágrimas, ligeira, imaterial, música que se esquece dentro do que se vai sendo, como a das canções de amor que me amaciavam a vida.
Inês Pedrosa
(photo Dora Ford)
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Ode ao gato
Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.
José Jorge Letria
(photo Anita Ekberg)
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Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque não podia mais acreditar e adoro acreditar. Chorei porque daqui em diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada com a ausência dela.
Anaïs Nin
(photo Catherine Deneuve)
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Nunca sequer gostei de refrigerante na vida, mas semana passada fui ao médico e ele proibiu terminantemente de beber. Saindo do consultório, me veio a vontade louca de tomar um gole e sentir aquele líquido gaseificado e aromatizado artificialmente passando pela minha garganta. No outro dia, nada mais já me importava na vida a não ser esse bendito fruto proibido. Eu só tinha olhos para o refrigerante. Só pensava no refrigerante. Acordava e ia dormir querendo refrigerante. Não por gostar, mas por saber que eu não posso. É mais ou menos assim com você.
Iolanda Valentim
(photo Lana Turner)
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