"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
penso sempre que em algum lugar estarás à minha espera. tão longe vai o tempo. tão longas são as horas. que anos atrás de anos passam com os dias onde sei que me esperas - na pele crescem as noites. eu sempre acreditei . madrugada fora e ainda há tantas histórias pela casa. do corpo onde habitaste. dos cabelos que te viram partir - que amanhã nenhum verbo me devolva o teu rosto. ou me incomode o teu nome numa carta sem remetente. escrita na pressa de quem sabe que irá morrer - talvez um dia. quando as noites forem tão demoradas que fechar e abrir os olhos dure anos. que anos sejam tão longos que a vida custe muito. custe tanto que a morte seja o único alívio para todas as dores que o corpo conhece.
Mar
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A árvore que ninguém visita
Então eu fui. Uma tarde subi
Aquela colina íngreme e rochosa,
Parando para descansar e admirar uma flor silvestre
E a vista do lago
No vale lá em baixo.
Teria gostado de uma cabra por companhia.
Uma preta e branca, com um sino
Para ir à frente, pastar um pouco e romper
O silêncio quando este retoma sua ascensão
Até onde uma árvore escura e silenciosa está
Esperando todos estes anos que alguém
Se sente à sua sombra, em calma consigo mesmo.
Até o vento está sempre a inventar
Joguinhos para as suas folhas brincarem,
Sem pressa agora de perturbar a paz.
Charles Simic
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O inferno
Debrucei-me à janela do inferno
e não vi nada que me horrorizasse;
pareceu-me um lugar igual aos outros,
cheio de gente e coisas. E alguém
do inferno me disse para entrar.
Não me lembro quem era ou se eram vários,
nem o que me disseram lá de dentro,
ou se essas pessoas sorririam,
se haveria alguém a lamentar-se
ou se desconfiei por um momento.
Fui e achei a porta do inferno,
abri a porta do inferno, entrei,
desde essa hora vivo no inferno.
É um lugar igual a qualquer outro,
cheio de gente e coisas. Todavia
sei que não pode ser senão inferno
porque neste lugar não estás comigo.
Amalia Bautista
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o início. o sonho. o fim.
eram mais ou menos cinco horas quando o telefone tocou. era você dizendo que ainda me amava. que não suportava mais a ideia de viver tão distante de mim. que o mundo estava cinza. que olhar para o céu não tinha mais graça sem os meus pitacos leigos e desinteressantes sobre as conjunturas planetárias. e foi essa a única vez em que acreditei em você. a única vez.
Flávia Vida
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O menos possível
Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho do fundo
A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães
Ernesto Sampaio
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Ela era uma mulher diferente
Gostava de se apresentar nua
Gostava de constranger
Com tamanha brandura
Ela ficava nua em sua casa de vidro
De longe desejo...
De perto ninguém sabia.
Dafne Stamato
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Bordada de astros
Ir beber-te num navio de altos mastros
No mar alto
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros;
Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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Fronteiras
tenho navegado sobre duas vidas
duas dimensões
duas fases do tempo
projeções distintas
verdades partidas
mentiras divididas
nesta viagem abstrata
em que a espera
confunde-se com a busca
meu voo é subterrâneo e solitário
eu tenho estado entre dois mundos
entre dois sonhos
entre quatro olhares
trinta e três palavras
infinitas imagens
uma só tristeza
e a única certeza:
do que fui
do que sou
tornar-me-ei
o que me restou
Celso Mendes
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questão noturna
de repente me deu, uma saudade do que nem sei o nome, ou se é que existe além do meu pensar&querer que seja. mais que de repente, em meu meu peito doeu uma dor reconhecida de forma atávica e singular, de gosto amargo feito vinho avinagrado que desce pela garganta a fora com tua imagem por dentro. imagem que gostaria de apagar, mas que insiste neste gosto de giz que se escreve e apaga diante das tempestades desérticas e passadas no lado do mar morto que é este meu coração. ainda sinto, se é que, teu gosto&cheiro no meu corpo que necessita de outro corpo&alma pra ser feliz e diferente do que sempre foi tristeza&perdas. hoje, não sei o que me deu, que desejei te rever além dos espaços cruzados que criaste para nos separar de vez. como se fosse possível. ou necessário.
albanegromonte
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As noites vestem-se de branco e os dias são de faz-de-conta.
Eu deixo-me ficar, rainha de folhas soltas ao vento, amores primaveris, cartas sem destinatário. Sozinha, que não se partilham silêncios como se fossem bolachas, almas como bocadinhos de rebuçados de café. De coração cheio, que os filtros são mudados, o amor-próprio aquece e a voz é de porcelana. Eu vivo em nuvens-unicórnio, bules de chá que giram num frenesim caótico. Não me importo. Tenho-me a mim, de sóis perdidos. Eu que nunca sou de nada, e tenho sempre tudo.
Inês
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Chegas a casa com as mãos
cheias de sacos e vincadas
pelo esforço. o silêncio é escuro
antes de acenderes a luz; depois
o silêncio é o mesmo, mas ilumina
a solidão nos objectos da casa. largas tudo
logo à entrada. acendes a luz fria da casa
de banho. pegas no elástico, agarras os
cabelos, escuros. e lavas o rosto. ele
vai ficando na água. até que o faças
escorrer pelo ralo: sem nenhum som.
Bruno Béu
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(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.
Cecília Meireles
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Porque hoje a noite me parece uma invenção em aberto
sobre a cama abandono palavras
tenho o tempo nas pálpebras
assim, quando alguém me perguntar pelo sentido da insónia
eu, parada no meio do quarto,
direi que não sabia que na solidão se grita alto
para sobreviver ao medo
Maria Sousa
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O meu sono será uma longa
viagem sem sobressalto
numa cabine de comboio fechada
e só por minha conta
rumo a um lugar onde não posso
tirar fotografias.
Rogério Rôla
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Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou
José Tolentino Mendonça
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La nuit n'est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l'affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un coeur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.
Paul Eluard
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Sono una creatura
Come questa pietra
del S. Michele
così fredda
così dura
così prosciugata
così refrattaria
così totalmente
disanimata
Come questa pietra
é il mio pianto
che non si vede
La morte
si sconta
vivendo
Giuseppe Ungaretti
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