"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Ética
Vou falhando as pequenas coisas
que me são solicitadas.
Sentindo que as ciladas
se acumulam cada vez que falo.
Preferi hoje o silêncio.
A ausência de equívocos
não é partilhável.
No inegociável deste dia,
destituo-me de palavras.
O silêncio não se recomenda.
Deixa-nos demasiado sós,
visitados pelo pensamento.
Luís Quintais
(photo Claudia Cardinale)
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O Natal vai começar
Não são os teus olhos meninos
que me doem
mas a expressão
de um deus entristecido
que não canta
por falta de espaço.
Eufrázio Filipe
(photo child Dickie Moore)
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Adoro o silêncio!
Não importa os que me magoaram,
eles passaram!
Não importa se chorei de tristeza,
ou se calei quando não deveria.
Não me espanta a minha indiferença
com meu silêncio...
A voz, que ficou presa na garganta,
uma hora qualquer soltará,
porém mais aguda...
no momento certo,
na hora certa!
Gloria Dantas
(photo Audrey Hepburn)
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Na casa de minha avó tinha aquele espelho grande com dois espelhos móveis laterais.
Eu os abria e me via refletida ali, infinitamente.
E brincava com os diversos ângulos
que meu rosto poderia ter.
Aline Miranda
(photo Mary Pickford)
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Caixa de costura
Nunca compreendi
a caixa de costura.
Testemunha muda
de tardes e gerações,
poder feminino
sobre o útil, no fundo
dos carrinhos e dos dedais
devia haver
a esperança.
Pedro Mexia
(photo Lauren Bacall)
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Intervalo ou os dias sem ti
as horas de domingo trazem consigo ventos frios. há abraços de despedida em estações de comboio, vidas empacotadas em malas que se arrastam pesadamente pelas ruas, um céu cinzento quase nocturno a anunciar chuva, e palavras desajeitadas porque as outras só são ditas na solidão dos corações.
e há nós os dois, o beijo e a certeza de dias sem sol porque não vais estar.
Andreia Barros
(photo Ellen Terry)
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Lábios
Demoras-te senhora nestas águas
porque é sempre breve
o instante
das pequenas vertigens
vieste colher os meus lábios
para incendiar uma pedra
na verdade o teu corpo
tão líquido e incerto
na voragem dos destinos inventados
vibra no ritmo das marés
ilumina-se por dentro
num feixe de faúlhas
habita as fendas rema
por onde espumam as salivas
demoras-te senhora
sentada no meu barco
mas nunca saberás
dos meus lábios uma palavra
sempre que tocar os teus
nem das línguas
o fogo regurgitado
que nos liberta
Eufrázio Filipe
(photo Audrey Hepburn)
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Instantes depurados
entre os tons
de preto e branco
que (me) dão cor
às formas depuradas
esqueço, por instantes,
longas horas emaranhadas.
Tinta Azul
(photo Beatrice Appleyard)
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a banalidade e o despropósito
todo dia acordo do mesmo lado,
desço a mesma escada, e o som dos meus passos repetitivos me diz:
onde...? onde...? onde...?
todo dia atravesso a mesma praça,
na partida e na chegada, e o canto dos pássaros nas árvores me diz:
quando...? quando...? quando...?
todo dia eu pego o mesmo ônibus, que me leva e me traz, e o murmuro das pessoas nos bancos me diz:
como...? como...? como...?
toda noite, eu durmo e sonho com as múltiplas possibilidades
para os muitos onde, quando, como...
quando acordo pela manhã, os sonhos se recolhem ao esquecimento,
para que a vida possa recomeçar de novo, sem onde, quando e como.
Margoh Werneck
(photo Gloria Swanson)
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Cansada de mim
Foi domingo e não descansei.
Foi domingo e não dancei.
Foi domingo e não amei.
Louvei deus nenhum.
Mortal comum,
cruzei dois dedos
e fingi acreditar.
Passou a manhã,
passou a tarde,
anoiteceu.
Os segundos como grainhas
de romãs, difíceis de descascar.
De chinelos e pijama de flanela
jantei com o gato
e flores na mesa,
dálias amarelas
a envelhecer devagarinho.
E o dia esteve bonito,
apesar do frio,
é dezembro, que se lhe há-de fazer.
Raquel Serejo Martins
(photo Jane Fonda)
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A solidão
A solidão
de Adão
antes da criação
de Eva
devia ser
terrível
mas a minha
é bem pior
os homens
que escreveram
o Génesis
não pensaram
que Adão
em vez de saudar
Eva
com um grito de júbilo
a mandasse embora
com sete pedras na mão
mas eu acho
que foi
o que me aconteceu
temendo isso
Deus
não me deu
o papel de Eva
nem o de Maria
porque também
S. José
me tinha corrido
a pontapé.
Adília Lopes
(photo Shelley Fabares)
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Sobre espelhos
Em menino, eu tinha medo dos espelhos. O meu temor era que a imagem reflectida se movesse sozinha ou, por exemplo, que o meu corpo fizesse coisas que eu não lhe ordenava. (…) Deste temor insuperável a cegueira libertou-me.
Não me agradam nada ou agradam-me demais. Agora, claro, livrei-me deles. Porque a cegueira é um modo drástico de apagar os espelhos.
Jorge Luís Borges
(photo Buster Keaton)
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Restaurante
Leva-me outra vez para a mesma mesa
onde fico de costas para a janela
onde o tempo me esquece
onde nada me toca
o teu gesto protege
o teu corpo separa
a água que me dás
interrompe a memória
Só à porta da rua
o tempo reaparece.
Yvette Centeno
(photo Fred MacMurray and Carole Lombard)
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Os dias normais
Chegam
e vão-se
sem deixar rasto,
e tu ficas a vê-los
a afastarem-se sobre os telhados
- e com eles, os anos -
e apenas sentes nada
ou sentes algo, vago,
que não sabes
decifrar.
São os dias
normais, os de sempre,
os que parece que passam
à distância,
os assassinos
do amor.
Karmelo C. Iribarren
(photo Jean-Paul Belmondo)
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Classificar
Avento farinhas de mesmos sacos,
desfaço o bolo ainda quente, minhas mãos
crispam a forma na fornalha
da ignorância: não aprendo a lição
da humanidade no esforço de me lançar
ao centro da controvérsia; sou o resumo
do jornal de domingo em cadernos
imensuráveis; talvez me anuncie
em econômicos classificados: terça-feira
estou ofertado ao nada. Compareçam.
Pedro Du Bois
(photo James Dean)
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Vida é caleidoscópio.
De nada adianta girarmos o cilindro devagar.
Tanto cuidado para quê?
Quando menos esperamos os cacos de vidro desabam uns nos outros e formam o imprevisível desenho.
Francisco Azevedo
(photo Audrey Hepburn)
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3x4
Passar a limpo os cinco sentidos.
Apagar com sono e borracha
para usar -todos-
novos em folha
de novo:
sem luvas, óculos, fones,
perfumes de meio ambiente
e com a boca livre de lembranças.
Armando Freitas Filho
(photo Gene Tierney)
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