"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Os dias normais
Chegam
e vão-se
sem deixar rasto,
e tu ficas a vê-los
a afastarem-se sobre os telhados
- e com eles, os anos -
e apenas sentes nada
ou sentes algo, vago,
que não sabes
decifrar.
São os dias
normais, os de sempre,
os que parece que passam
à distância,
os assassinos
do amor.
Karmelo C. Iribarren
(photo Jean-Paul Belmondo)
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Classificar
Avento farinhas de mesmos sacos,
desfaço o bolo ainda quente, minhas mãos
crispam a forma na fornalha
da ignorância: não aprendo a lição
da humanidade no esforço de me lançar
ao centro da controvérsia; sou o resumo
do jornal de domingo em cadernos
imensuráveis; talvez me anuncie
em econômicos classificados: terça-feira
estou ofertado ao nada. Compareçam.
Pedro Du Bois
(photo James Dean)
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Vida é caleidoscópio.
De nada adianta girarmos o cilindro devagar.
Tanto cuidado para quê?
Quando menos esperamos os cacos de vidro desabam uns nos outros e formam o imprevisível desenho.
Francisco Azevedo
(photo Audrey Hepburn)
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3x4
Passar a limpo os cinco sentidos.
Apagar com sono e borracha
para usar -todos-
novos em folha
de novo:
sem luvas, óculos, fones,
perfumes de meio ambiente
e com a boca livre de lembranças.
Armando Freitas Filho
(photo Gene Tierney)
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Sempre-viva
Quando nasci tive sete irmãos
Enquanto vivi sete amores
Ao longo do caminho carreguei sete chaves
E abri sete portas
Quando chegar a hora, morrei como quem teve sete vidas.
Beth Ameida
(photo Claudia Cardinale)
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Desejo-te Tempo
Não te desejo todos os bens do mundo,
Apenas te desejo aquilo de que gosto mais:
Desejo-te tempo – para sorrires, para rires.
Usa-o bem – podes vir a conseguir.
Desejo-te tempo para acções e pensamentos,
Não só para ti, mas também para os outros.
Desejo-te tempo, não para pressas e correrias,
Mas para te instalares, ai, onde pertences acima de tudo.
Desejo-te tempo, não para esbanjares,
Mas para teres e conservares, deixando algum de sobra
Para te emocionares perante a vida, para confiares no seu curso,
Em vez de seguires o ritmo inflexível das horas.
Desejo-te tempo para alcançares as estrelas
E tempo para cresceres, para seres quem és.
Desejo-te tempo para esperanças novas, para amares de novo.
Pois não adianta deixar esse tempo para depois.
Desejo-te tempo para te encontrares,
Para encher cada dia, cada hora, de alegria.
Desejo-te tempo para esqueceres o que precisas.
Desejo-te: tempo para viveres!
Elli Michler
(photo Maude Fealy)
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Parti
Sim,
há uma ausência.
E como quem procura a lógica
saio ao encontro
da possível
existência de mim.
Sem mais,
parti.
Taninha Nascimento
(photo Carole Lombard)
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Mora em mim um silêncio confuso. É engraçado como ele ultrapassa os limites e passa de delicado para saudoso, insano, raivoso, intempestivo, contemplativo, resoluto e egoísta. Mora em mim um silêncio banal, exagerado, distraído, sutil. Meu silêncio é catarse, libertino. Meu silêncio é um grande palavrão.
Ita Portugal
(photo Paulette Goddard)
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Parti[tura]
Afino os sentimentos
Orquestro as palavras
No silêncio busco a melodia mais pura
Quando minha alma se parti[tura]...
Toco a poesia
Wania Victoria
(photo Grace Kelly)
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Nudez indesejada
Rompo o branco desta paisagem com tinta preta, em gel. Preto e gelatinoso tem sido também o meu pensamento desde que o vi completamente nu, sem o seu cavalo branco. Uma linda e frágil silhueta surgiu: a força, a imponência, a altivez cederam espaço. Onde estaria a armadura medieval, o aparato de guerra? O que fazer com a ausência de roupas? Eu já não as uso há um bom tempo, sei bem lidar com a minha nudez; não com a sua. Melhor vestir-se! Faz frio - não saberia como protegê-lo, sei apenas rezar.
Lou Vilela
(photo Yul Brynner)
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Desmistificação
Não sou um ser macio
como a água distraída
sem um som em que me apoie
na lâmina dos ventos
ou do vago rumor entre duas ondas;
não sou um ser gentil, dizia.
Sou uma guerreira.
Olga Savary
(photo Sophia Loren)
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Cicatriz
Uma ferida fala
o doloroso e lento
idioma das esperas.
Na noite azul de oferendas
o corte no sorriso
cansado de só…
A solidão é uma cicatriz
que anda pelo corpo.
Wender Montenegro
(photo Greta Garbo)
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medo
eu tenho um medo. guardado na gaveta de baixo, bem no fundo, com corrente e cadeado. eu tenho um medo trancado. debaixo das revistas velhas. dos cadernos usados. dos livros já lidos. dos papéis amarrotados. eu tenho um medo escondido. pior que de escuro, lugar alto, homem do saco. um medo segredo. o mesmo, desde pequeno. desde a oração cochichada. da febre sob as cobertas. do sinal da cruz no meio da noite. o mesmo desde sempre. um medo que me persegue. me atormenta. me atrapalha. que aparece no canto do quarto. no abrir dos armários. em vulto pelos corredores. em visão pela casa vazia. miragem pela praia deserta. ruído no meio do silêncio. grito durante a madrugada. eu tenho um medo morto. ressuscitado. um medo tantas vezes enterrado. mas que sempre volta. que cava a terra ao contrário. para acabar comigo e ser mais uma vez trancado. escondido na gaveta de baixo, com corrente e cadeado. um medo que sempre escapa. foge. eu tenho um medo que sempre espera minha chegada, sorrindo. bem no meio da sala.
Eduardo Baszczyn
(photo Buster Keaton)
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Monotonia
Começar, recomeçar, interminantemente repetir um
monótono romance, o romance da minha vida.
Com palavras iguais, inalteráveis, semelhantes, in-
sistir sobre o cansaço e a pobreza disto de viver...
Andar como os dementes pelos cantos a repisar
o que já ninguém quer ouvir.
Levar o meu desprecioso tempo à deriva.
Queixar-me, castigar e lamentar sem qualquer
esperança, por desfastio.
Pôr a nu uma miséria comum e conhecida, chã-
mente, serenamente, indiferente à beleza dos temas
e das conclusões.
Monotonamente, monotonamente.
Monotonia. Arte, vida...
Não serei ainda eu que te erigirei o merecido
altar.
Que te manejarei hábil e serena.
Monotonia! Gume frio, acerado, tenaz, eloquente.
Sino de poucos tons, impressionante.
Mas se te descobri não te vou renegar.
Tu ensinas-me, tu insinuas-me a arte da verdade,
a pobreza e a constância.
Monotonia, torna-me desinteressada.
Irene Lisboa
(photo Monica Bellucci)
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Vestida de não
ficas melhor assim vestida de não,
ficas mais quieta na minha memória.
a solidão é deste modo: a coragem
de escrever sozinho o final da nossa história.
adiciono pontos finais ao final da nossa história:
estás quieta na minha memória, os ges...tos
sem cor, um enorme não cerceando a tua boca.
estás também nua. aproximo-me de ti com o que de mais
humano consigo invocar: ensina-me o final
da nossa história! ficas mais quieta vestida de não,
completamente nua na minha memória.
onde se desenha a tua sombra recolho
estes versos: quando traí a nossa história?
Rui Tinoco
(photo Catherine Deneuve)
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Hoje eu queria te fazer um pedido (posso?).
Respira fundo, tenta aliviar a mente das pequenices que tanto te atormentam, relaxa os ombros, te concentra apenas no silêncio que existe em algum lugar aí dentro.
Clarissa Corrêa
(photo Marie Doro)
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Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
Aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.
Ricardo de Carvalho Duarte (Chacal)
(photo Colleen Moore )
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