"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

25.11.15


Então para os outros sou aquele estranho que surpreendi no espelho: sou ele e não eu, tal como me conheço! Sou aquele estranho que, à primeira vista, não reconheci. Aquele estranho que não posso ver viver a não ser assim, num instante inesperado. Um estranho que só os outros podem ver e conhecer. 

  Luigi Pirandello
(photo Tyrone Power)

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21.11.15


Bilhete 

Fui-me embora, não esperes por mim.
Se alguém der pela falta, diz apenas
que estou bem, continuo a fazer o mesmo
de sempre, trabalho, casa, trabalho, casa.
 
Só não mintas às filhas, diz-lhes que fui
procurar na distância outra forma de solidão,
talvez convencido de que longe de tudo
poderei vir a sentir falta do que já tenho.

 Henrique Manuel Bento Fialho
(photo Montgomery Clift)

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18.11.15


 Ao lado da janela,
desconhecida dormes.
Com o sono
- ponte de vidro -
E o teu pé nu.
E o ar que te respira
deixa de esperar
o azul da luz do dia. 

 João Camilo
(photo Elizabeth Taylor)

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16.11.15


Sala provisória 

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como 
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.

Inês Lourenço 
(photo Katharine Hepburn)

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7.11.15


Sofro de não te Ver

Sofro 
de não te ver, 
de perder 
os teus gestos 
leves, lestos, 
a tua fala 
que o sorriso embala, 
a tua alma 
límpida, tão calma... 

Sofro 
de te perder, 
durante dias que parecem meses, 
durante meses que parecem anos... 

Quem vem regar o meu jardim de enganos, 
tratar das árvores de tenrinhos ramos? 

 Saúl Dias
(photo Hedy Lamarr)

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6.11.15


Tudo o que perdi

Perdi uma noite de amor em Casablanca,
um reinado perdi, tal como o limbo,
a aposta de viver de coração aberto,
perdi a noite, um autocarro, perdi a vida
como se perde a bolsa num assalto.
Perdi o gosto da ferrugem e da luz,
perdi uma estocada na praia. 
Perdi uma guerra
e a alma, um número de telemóvel
e a fé nas coisas que me importam.
Perdi os olhos, a juventude perdi
num sonho mau.
Tudo perdi. Quanto ganhei.

Violeta C. Rangel
(photo Georgia O'Keeffe)

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3.11.15


O Aprendiz 

 Sou pobre realmente. 
Tenho apenas algumas folhas de papel na alma 
E uma vontade - digamos, mansa - 
De hipnotizar borboletas. 
Que coisa sei da vida? 
Pouca coisa sei da vida. 
O bastante para não correr. 

  Affonso Manta 
(photo Harold LLoyd)

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2.11.15


Os Mortos 

Amo os meus mortos
Quase tanto como os vivos.
Os primeiros dão-me paz
Os segundos, vigor e alento.
No Natal estou com todos.
Por uns rezo, 
Aos outros, alimento.
A vida faz-se com ambos, 
Até que a morte nos leve 
E nos junte aos que já foram.
Para com eles cuidar 
Da vida dos que aqui ficam,
A lembrar os que partiram!

Helena Sacadura Cabral 
(photo Alice Joyce)

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31.10.15


Receita de Bruxa 

A bruxa malvada, a Urraca,
Raivosa que nem jararaca,
Vingou-se do ogro
Que era seu sogro
Com essa receita velhaca:

Bocejo de pulga
Coceira de cão
Espirro de grilo
Rosnar de escorpião
Rangido de dente
Coaxar de gavião
Lambida de mosca
Soluço de anão.

De cada ingrediente um punhado
E o ogro saiu carregado!
E a bruxa Urraca,
Aquela bruaca,
Dançou contente um xaxado.

Tatiana Belinky 
(photo Veronica Lake) 

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30.10.15


 quem me dera
se lá no bar do amor
eu realmente pudesse pedir
uma dose de amor pra beber.

e na oficina esperança
eu entrasse e consertassem
a parte de mim
em que a esperança
está quebrada.

e na relojoaria tempo
eu conseguisse
girar os ponteiros
da minha vida
para o tempo que eu quisesse.

e no borboletário
conseguisse recuperar as
borboletas na barriga.

e no balcão de mapas
me dessem o mapa
que marca
onde ele está.

e no viveiro de pássaros
eu entrasse e saísse
com pássaros que
me pendurassem pela roupa
e me levassem até lá.

 vanessa carvalho
(photo Jean Artur)

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27.10.15


A física do susto 

 O espelho caiu da parede. 
 Caiu com ele o meu rosto. 
 Com o meu rosto a minha sede. 
 Com a minha sede meu desgosto. 
 O meu desgosto de olhar, 
 No espelho caído, o meu rosto. 

  Cassiano Ricardo 
(photo Corinne Griffith)

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22.10.15


Vende-se

A casa 
Foi caiada 
Há pouco tempo

Abriga ainda 
O mormaço 
Dos corpos

A penumbra 
Do beijo 
A ecoar

O estio 
E as estações 
Nas vigas nos moirões

No cercado 
A violência do sol

No quintal 
O cheirar das horas

Verdoengas 
Reacendendo 
O tempo

Oh tempo!

Que as janelas 
Cantavam 
E o riso florescia

Na casa

As vozes

E a indulgência do silêncio

Jorge Andrade
(photo Buster Keaton & Sybil Seely)

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14.10.15


Antimétodo 

Pouco a pouco
Embaralho tudo e nada
Sou meu próprio
Espantalho
Fujo
De mim mesmo
Finjo-me
Da minha própria
Esfinge
Perdido em meu próprio
Labirinto
Sou o que sou
Ou minto? Será isso
Uma regra secreta?

 Sebastião Uchoa Leite
(photo Buster Keaton)

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12.10.15


Ferida 

fer
ida
sem
ferida
tudo
começa
de novo
a cor
cora
a flor
o ir
vai
o rir
rói
o amor
mói
o céu
cai
a dor
dói

 Augusto de Campos
(photo Ellen Terry)

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8.10.15


A Máscara da Dama

Quando se vive curto e tão a fundo,
Se chega fatalmente a um impasse:
Não é mais possível estar no mundo
Sem ver a nossa morte face a face,

E a encontramos nas esquinas,
A vemos nos momentos delicados
E até naqueles mais traquinas
Quando ousados subimos num tablado

E fazemos o nosso show de humor
Que a nós mesmos nos espanta
Pois se apresenta negro e quase horror.

Então tudo que fomos se desvela,
Cai a máscara da Dama e desencanta
E um tardio novo mundo se revela...

 Alma West
(photo Brigitte Bardot)

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7.10.15


Carta para minha namorada 

Eu decorei suas fraquezas, acalmei seus pesadelos.

Conheço histórias de sua infância, dores e repulsas.

Sou sua caixa-preta, sua cópia de segurança, seu diário, seu esconderijo na parede.

Fabrício Carpinejar
(photo Rudolph Valentino & Vilma Banky)

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6.10.15


Culinária sentimental

Primeiro comete-se um erro. Convém escolher um erro de grande qualidade, dos crassos, mesmo. 
 Depois mistura-se-lhe uma generosa quantidade de culpa e bate-se até formar uma massa de consistência uniforme. 
De seguida, num recipiente separado, recria-se a causa de justificação do erro para atenuar a culpa. 
Junta-se tudo e acrescenta-se uma pitada de falta de imaginação. 
Leva-se ao forno e obtém-se um grande amor. 
 Deve servir-se gelado. 

  Cuca, a Pirata
(photo Desi Arnaz & Lucille Ball)

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