"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

22.4.15


Aquela porta

Aquela porta… sim! 
aquela porta
sempre cerrada,
é sentinela morta,
que surge à entrada
do caminho da Vida!
Eu quero passar,
na estrada comprida
e cheia de luar!
Aberta esta porta,
a Vida é lá fora,
por mim a chamar!
Eu quero passar,
viver esta hora…
o resto, que importa?
Há música, há luzes, há gente que vive,
e tem o que eu sonho, e tem o que eu não tive!

É tarde, afinal… já não devo passar!
E caio, de joelhos, à porta, a chorar!

Maria de Santa Isabel
(foto Kay Frances)

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21.4.15


Cair da tarde 

Desfolham-se os rosais do meu jardim...

Tão leve como doce sombra de ave,
Num palpitar suave
De penas de cetim,
Que a noite desça, agora, sobre mim...

Maria de Santa Isabel
(foto Ava Gardner)

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20.4.15


Dona moça

... percebeu o cabelo dançar na frente dos olhos, como se quisesse chamar sua atenção dizendo:
 
 Acorda dona moça, a vida passa lá fora e você fica aí olhando pra dentro, fechada no nada. Flores precisam ser coloridas, sorrisos precisam ser enfeitados, estrelas estão amontoadas num canto esperando para iluminar os beirais das janelas. Hoje, uma borboleta comentou que você esqueceu sua aquarela na esquina da praça e crianças travessas andaram brincando de pintar vidraças, achando que eram cores sem dono, sem casa. O que foi que você perdeu, que de tão distante seus olhos não veem mais nada? O que encontrou pelo caminho que a fez descolorir e cansar de sorrir? Quero pintar um coração vermelho em sua boca, para que você se recorde de falar de amor, quero vaga lumes fazendo morada nas suas pestanas para iluminar seu olhar de flor. Vem dona moça, o tempo é agora, a vida é lá fora e tudo fica sem graça sem sua risada gostosa, sem sua mistura de cor. 

  Renata Fagundes 
(foto Marilyn Monroe)

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18.4.15


Depois de anos acariciando as dores que me deixaram partida, finalmente as deixei partir. 
E fiquei inteira. 

  Fernanda Gaona 
(foto Anita Ekberg)

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17.4.15


Guarde pra você 

Fique com meu sonho.

Embrulhe-o,
leve-o pra casa,
faça o que quiser!

Guarde-o no banheiro,
pendure-o na parede,
qualquer coisa.

Mas, por favor,
de vez em quando,
mande-me um pedaço dele
e venha junto.

Donald Maischitzky
(foto Bing Crosby & Grace Kelly)

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16.4.15


Aquarela 

Peguei minh'alma
para vesti-la com as
cores de minha tristeza.
 
Vesti-a com o azul
da melancolia mais profunda
e o amarelo
das folhas caídas.
 
Adicionei o vermelho
do entardecer da saudade
e o verde do olhar distante.
 
Quando vi,
minh'alma já era um
arco-íris. 

 Donald Malschitzky
(foto Ava Gardner)

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13.4.15


ferida

fer
ida
sem
ferida
tudo
começa
de novo
a cor
cora
a flor
flora
o ir
vai
o rir
rói
a amor
mói
o céu
cai
a dor
dói

Augusto de Campos 
(foto Ginger Rogers)

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12.4.15


 Vivi nesta casa muitos anos.
Agora mudaram já de certo a fechadura
e as pequenas coisas que fazem uma casa.
As chaves já não as trago
ao lado dos meus gestos.

Mudaram os móveis
deitaram fora as cortinas
e as paredes
trazem agora um calendário novo.

Uma casa é sempre
caliça cheiros alianças.
Eu avanço sobre o silêncio de
ainda
esperar por ti.

 João Miguel Fernandes Jorge
(foto desconheço autoria)

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11.4.15


Oração 

Senhor,
Dá-me a serenidade dos rios diante dos temporais
Dá-me a força das rochas diante das guerras
Dá-me a doçura da flor em todo tempo
E se acaso eu fraquejar, perdoa-me
Permita-me recomeçar.

 Arnalda Rabelo 
(foto Ava Gardner) 

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9.4.15


Contemplação primaveril 

Lamento que, quando se abrem as flores,
não as possamos contemplar juntos.
Quando caem, partilhamos as penas,
mas em lugares diferentes.
Alguém pergunta-me:
- Que tempo te provoca
mais sofrimentos de amor?
Eis a minha resposta:
os dias em que se abrem as flores
e também aqueles em que tombam por terra.

Xue Tao
(foto Maggie Cheung Ruan)

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8.4.15


O horizonte claro

Um dia reencontraremos as nossas pombas
e o amor e a beleza serão colhidos à mão.

O dia em que o mínimo canto será um beijo
e cada pessoa um irmão para a outra.

O dia em que ninguém feche a sua porta,
o cadeado se converta em relíquia
e o coração seja suficiente para viver.

O dia em que o sentido de cada palavra seja desejar,
para que não procures a última palavra.

O dia em que a melodia de cada letra seja vida
para que eu não persiga a rima do meu último poema.

O dia em que cada lábio seja canção
para que o mínimo canto seja um beijo.

O dia em que chegues e fiques para sempre
e o amor se identifique com a beleza.

O dia em que voltaremos a atirar miolo de pão às nossas pombas.

Espero esse dia, mesmo que cá não esteja.

 Ahmad Shamlú
(trad. Luis Felipe Parrado) 
(foto Audrey Hepburn)

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7.4.15


A pele

A pele é o meu único limite
atravessa-a
onde a luz é mais forte
não feches lá fora o mundo
nem a mim cá dentro

mostra-me
que o sol no céu
é o sonho em mim própria
a realidade ardente
quando me mordes
e me fazes sentir
que não há diferença
entre lado de fora e lado de dentro
entre dor e carícia
pedra e palavra

porosa às tuas investidas
sou aquela que
se abre em desejo
de existir no mundo
em todo o lado e ao mesmo tempo

dá-me o que tens
de tudo
não exijo mais nada.

Pia Tafdrup 
(foto Adrienne Ames)

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6.4.15


Quando alguém já não tem forças... 

Quando alguém já não tem forças para escrever, 
tem de recordar.
Quando já não tem forças para fotografar,
tem de ver com os olhos da alma.
Quando já não tem forças para ler,
tem de estar repleto de histórias.
Quando já não tem forças para falar,
tem de ecoar.

Quando alguém já não tem forças para andar, 
tem de voar.

E quando chega a hora,
tem de se desprender das recordações
e dos olhos da alma e deixar de ressoar,
calar-se e dobrar as asas.

Mas aconteça o que acontecer a história continua, continua.

 Eeva Kilpi
(trad. Luis Filipe Parrado)
 (foto Bette Davis)

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5.4.15


Domingo 

Era domingo
no teu vestido novo
azul turquesa
aquele onde eu buscava
transparências
encontrei castanhos
os teus olhos
e foi nesse mar
que se afogaram os meus

  Rui de Morais
(foto Cary Grant & Grace Kelly)
 
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3.4.15


Conto 

No meu conto,
Não havia fadas
Não havia príncipes
Não havia sapatinhos
Não havia charrete

No meu conto,
Havia sonhos
Havia amor
Havia saudades

Sem fadas , 
Não vi o príncipe
Não fui ao baile
Não fui princesa
Não perdi o sapatinho
Fui apenas gata borralheira.

  Flor Pedrosa
(foto Mary Pickford) 

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29.3.15


E agora eu sou os meus sapatos. Tenho um par de sapatos dentro de mim. Um dois, dois um... sapatos dentro de mim. Era uma vez eu dentro de uns sapatos, fora e dentro de mim. Era uma vez duas de mim – uma sentindo este ruído na pele como peixe monstruoso, a outra, sentada, observando os sapatos, usurpando aconchego à cadeira. Distraem, prudentes, os sapatos, dançam em meus pés de sabão, evadindo-se de um funeral descalço; brincam, perversos, em voo contrário à amputação; movem-se sedutores, como gatos invisíveis, furtando-me a audição.Oiço-me no vulto das frases, surda do outro. Era uma vez eu dentro de mim. 

Era uma vez os meus sapatos. 

  Ana Marques Gastão
(foto Marlene Dietrich)

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25.3.15


E agora eu 

e agora eu quero 
eu quero para depois não querer
seguir o telefone por uma cidade
a língua de fora morre na ligação mas é sempre
a língua de fora
porque o corpo é objecto do tempo
e eu agora quero 
mas não quero para depois querer
existir no corpo inabitado
nada mais me absolve 
senão o silêncio em pleno voo
este corredor antigo que atravessa o escrito
o passado que lido é uma volta 
a fracção de segundo
e agora eu sou alheia à imobilização do desejo
sobre cada sorriso 
sobre cada noite
sobre cada pequena morte
que se liquidifica na insónia e na lembrança envolta 
numa espécie de melancolia interna
que parece furar a nuvem de fumo
a vontade de ser um aqueduto
uma ponte
uma raiz vertiginosa
um pousar de cabeça 
depois de um raciocínio complexo
e agora eu quero
eu quero partilhar um segredo 
com as palavras que o suportam
escrever no inferno
enlouquecer bela e feliz.

  Sylvia Beirute
(foto Elizabeth Taylor)

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