"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

17.5.13


Em preto e branco
 
 Insisto que um dia partirei de trem; nunca, nunca de avião, nunca de ônibus, nunca de táxi. Partirei como nos filmes antigos: na estação ferroviária, em pleno inverno, com sobretudo e chapéu de plumas. Entrarei na minha cabine e fumarei um cigarro, enquanto espero o cavaleiro à minha frente. Sonharei forte, como só se sonha na década de 50, com o trem apitando em preto e branco. 

  Aeronauta

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16.5.13


A dor é uma coisa muito esquisita; ficamos tão desamparados diante dela. É como uma janela que simplesmente se abre conforme seu próprio capricho. O aposento fica frio e nada podemos fazer senão tremer. Mas abre-se menos cada vez, e menos ainda. E um dia nos espantamos porque ela se foi.

  Arthur Golden

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15.5.13


Despedindo-se do passado

Ela vai no banco de trás do carro, com as mãos no rosto, pois não quer ver para onde vai. Deixou tudo para trás e está indo para onde a vida quiser levá-la. Está querendo encontrar uma saída para se livrar de tudo o que está acontecendo em sua vida. Todos foram embora e a deixaram. É a vez dela ir embora e deixar tudo para trás. 

  Vanessa Carvalho 

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14.5.13


 

há traços no rosto
traços de pensamentos,
abarcados à saudade.

há um olhar baço
de um quadro com tons verdejantes,
reste-as de tempos passados.

há  vozes que se perderam,
um verbo por conjugar,
no cansaço que quem amou e chorou.

há abraços desabitados,
lamentos diluídos…
no âmago da existência.

há o canto num peito naufragado
em caminhos divergentes…

Helena Maltez

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13.5.13


Retratos

Retratos molhados de pranto
Desnudam com propriedades
Amores que a vida descartou
Nas estradas abandonadas

Empoeirados em um canto
Deteriorados pelo tempo
Mostram risos tristonhos
Restos dos muitos sonhos

Como confetes espalhados
Cada qual foi para um lado
Sobraram apenas imagens
Angustiantes paisagens

Sobre antigos aparadores
Pranteiam rostos perdidos
Existenciais desencontros
Escombros na dor vencidos.

 Ana Maria Stoppa

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12.5.13


Relíquia 

Era de minha mãe: é um pobre xale,
que tem p'ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama, já puída e lassa,
deixo os meus dedos p'ra senti-la ainda;
e Ela vem, é Ela que me abraça,
fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
que eu sinto quando toco o velho xale,
que guarda não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
sinto ao tocá-la como alguém que embale
e beije a minha sede de amor puro.

António Patrício

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11.5.13


Momentos 

Finjo que estás
presente... e me habitas,
como quem sente
esta saudade
em mim...

Finjo que me
abraças... e me envolves,
como quem sonha
um arco-iris
distante...

Finjo que não sei,
o que já sei,
só não finjo
esta saudade
que me habita e me envolve!

Luz Lopes 

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10.5.13


Poema da tarde

A tarde move-se entre os galhos de minhas mãos.
Uma estrela aparece no fim deste meu sangue,
Minha nuca recebeu o hálito fino de uma rosa branca.
Todas as formas servem-se mutuamente,
Umas em pé, outras se ajoelhando, outras sentadas,
Regando o coração e a cabeça do homem:

E dentre os primeiros véus surge Maria da Saudade
Que, sem querer, canta.

Murilo Mendes

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9.5.13


Desencontro

Não sei
que gostaria de fazer, 
quem gostaria de encontrar. 

Sei
que não tenho para onde ir, 
e que onde estou
não me encontro...

J. G. de Araujo Jorge 

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8.5.13


Impressão Digital 

Após todos os fins
nasço: 

nos escombros do muro, 
das torres, 
do mundo. 

Eu, 
rascunho permanente, 
de um já escrito
epitáfio.

 Astier Basílio

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7.5.13


De passos leves 

Saí sem destino...
atravessei a porta que me trancava
e fechei os olhos para não escolher caminhos...
De nada careço.
Não sei o que me leva.
Não sei o que me busca.

Minha bagagem é quase nenhuma...
Sonhos abandonados não pesam...
Passos escassos.
Pouca demora.
Breve estadia...

 Sonia Pallone

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6.5.13


Soltava um suspiro de desdém toda manhã antes de enfrentar a vida. Tinha sede de viver, mas tinha fome de desistir. Viu a magia de ser várias vezes por perto, mas nunca com ela. Achava a vida uma coisa tão sem graça, e era tão atormentada a ponto de perder-se na estrada. Agora dilui os tormentos em água e joga no mar, vive na areia e guarda-se no céu. 

  (desconheço autoria) 

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5.5.13


 Um dia não dançou
O som perdeu-se, o sorriso era uma sombra
nas muralhas que se lançavam em cada onda.
Apenas a melodia no cair da noite, eco em cada sonho,
o sonho do rodopiar.
Rodopiar um passado, sem presente.
Descalça
Passos
Sapatilhas
Fios, soltos
Mãos sem gestos
Pés nus
Sem dança.

 Maria P.

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4.5.13


Depois do beijo 

Adormeceste?
Não, dizes.

Flores em Maio
Florindo ao meio-dia.

Na relva junto ao lago,
Ao sol,

Podia fechar os meus olhos
E morrer aqui, dizes.

 Miki Rofu
(trad. José Alberto Oliveira)

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3.5.13


Coberta 

Não preciso de atavios,
de jóias, de elogios.
Não preciso do sol,
da lua, do canto da cotovia.
Não preciso das sedas
nem do perfume da rosa.
Não preciso de nada –
só de minha nudez
e do teu desejo: teu corpo
é a coberta que almejo.

 Giselda Penteado Di Guglielmo 

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2.5.13


Adágio medieval 

Venho não sei de onde,
Sou não sei quem,
Morro não sei quando,
Vou não sei onde,
Espanto-me de ser tão alegre.

 Martinus von Biberach 

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1.5.13


Elegia 

Entrou na sala e ficou em pé tocando piano,
Sua mão pequena batia no teclado duramente.
Lembro que estava de vermelho
Lembro que tinha nas tranças finas uma fita preta
Lembro que era de tarde
E entrava pelas janelas abertas o vento do mar.
Não lembro se tinha flores perto dela
Mas nascia um perfume do seu corpo.

Que amor o meu!

 Augusto Frederico Schmidt 

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