"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Depois do beijo
Adormeceste?
Não, dizes.
Flores em Maio
Florindo ao meio-dia.
Na relva junto ao lago,
Ao sol,
Podia fechar os meus olhos
E morrer aqui, dizes.
Miki Rofu
(trad. José Alberto Oliveira)
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Coberta
Não preciso de atavios,
de jóias, de elogios.
Não preciso do sol,
da lua, do canto da cotovia.
Não preciso das sedas
nem do perfume da rosa.
Não preciso de nada –
só de minha nudez
e do teu desejo: teu corpo
é a coberta que almejo.
Giselda Penteado Di Guglielmo
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Adágio medieval
Venho não sei de onde,
Sou não sei quem,
Morro não sei quando,
Vou não sei onde,
Espanto-me de ser tão alegre.
Martinus von Biberach
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Elegia
Entrou na sala e ficou em pé tocando piano,
Sua mão pequena batia no teclado duramente.
Lembro que estava de vermelho
Lembro que tinha nas tranças finas uma fita preta
Lembro que era de tarde
E entrava pelas janelas abertas o vento do mar.
Não lembro se tinha flores perto dela
Mas nascia um perfume do seu corpo.
Que amor o meu!
Augusto Frederico Schmidt
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Esconderijo...
Eu guardo em mim, um quarto fechado
Que só a música tem a chave
Lá, vive um sentimento que não dorme
E uma razão que nunca acorda
O Amor mora ao lado
E toca piano...
Wania Victoria
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Ainda estranho o corpo que visto
de manhã. Procuro outros
para sentir.
O silêncio arde, lento.
Estendo uma mão que toca
apenas em mim.
O tempo termina. Arrasta-me.
Vou-me evadindo para longe,
cinza inútil voando da fogueira.
João Borges
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Continuar sem ele era começar de novo, de outro chão, como se acabasse de descer do carrinho depois de uma volta assustadora na montanha-russa. De repente, o que era rápido e intenso parou num segundo. Na minha cabeça, tudo continuou rodando. O perigo maior não estava no movimento do brinquedo. O perigo maior era seguir tonta, no silêncio, com o mundo balançando em volta.
Cris Guerra
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Parte de mim...
Parte considerável de mim
Quer ser a parte que perdi
Parte de mim uma estrada
Invisível por onde ando
Parte considerável de mim
Procura incessante outro caminho
Parte quer achar o ninho
Resoluta parte do destino
E quer apagar a solidão
Parte considerável de mim
Quer chorar e sorrir
Parte de mim, uma parte que não fui
Parte espera há longos anos
Há tantos anos quantos sonhos
Parte de tantas parte um fio
Que me une e me impulsiona
A esta parte indissolúvel
Indescritível, indestrutível
De todas as partes que se foram
Partes ficaram e se aglutinam
Se amontoam e se refazem
Nesta parte a que eu mesmo
Não sabia pertencer
Nesta metamorfose
Sabe-se lá que parte acordará amanhã
E vai querer repartir meu destino
Espero pacientemente em parte...
Sem repartir as horas
Sem apagar os sonhos
Sem despedir ilusões
Sem cometer o afobo de partir
Sem a parte que acordará em mim.
Carlos Gildemar Pontes
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Oração de Clara ao seu jardim
Meu espírito clama pelos poderes cicatrizantes do amor.
Neles penso, enquanto escurece ou chove torrencialmente na ravina obscura que atravesso.
Vi levantar-se a ilusão da alegria perene como dádiva.
Que dardo cravas em mim, que assim entenebreço, que nervuras tão densas me crias, se em ti me perco?
Maria Gabriela Llansol
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[Pela terceira vez...]
Pela terceira vez
saio à tua procura.
Procuro-te
nos sítios onde te encontrei até ontem:
nos bares do costume, nos terraços, dando um passeio de bicicleta.
Hoje é dia de festa,
chove pela primeira vez no verão.
Não encontro abrigo para a minha solidão.
Queria encontrar-te debaixo de todos os guarda-chuvas.
Queria abraçar-te debaixo das arcadas.
Tenho vertigens só de pensar que
estás em algum sítio onde não estou.
Jon Benito
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Penso em ti como um desejo interrompido
que se teceu na minha memória.
E sonho-te mais do que te recordo.
Seleciono. Invento-te um nome, um rosto.
Reconstruo. Reconstruo-te.
Peça a peça.
Minuciosamente – real ou irreal,
- Assim te lembro.
Amélia Pais
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Por detrás do vidro
Há no retrato a penumbra
a sombra de uma presença
miragem sem tempo
espelho sem retorno nem alegoria
Um rosto esculpido uma memória antiga
Helena Monteiro
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Completas
A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demônios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.
Manuel António Pina
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Com o perdão dos pássaros
Escrevo estas palavras
sobre a antiga pele das migrações.
Que me perdoe o bosque
Uma sombra de pássaro
há na alma desta página
uma sombra de pássaro.
Perdoem-me
se não voo.
Gustavo Tatis Guerra
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O limiar e as janelas fechadas
O que é certo é que gostei de ti.
O resto não: se exististe,
e se assim foi, qual a cor dos olhos, ora verdes
ora cinzentos, deles levantou-se uma vez
um bando de andorinhas. Quais. As rápidas,
as que não andam, as que se amam no ar.
Como foi. Ficaste doente
ou coisa assim, levaram-te, muito se passou,
acho que ia ter outro filho e esqueci-me de ti
até ouvir-te, esta noite, a horas impossíveis,
vem comigo, é tempo. Larga tudo e sai,
espero por ti ao pé da cancela.
Mas cheguei lá e o trinco
estava solto, batia ao vento
contra o poste, fechei-o, voltei para trás,
a pensar em ti, que estiveste lá,
sabe-o Deus, que abriste a cancela,
que gostei de ti e também
que a porta não encaixava bem.
Eva Gerlach
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Vê como a boca é triste
quando sorri a distância;
quando o inverno das asas
já atravessa os espaços e
cava na terra a sombra de uma
ausência.
Prova difícil é crermos no azul.
Luísa Freire
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Faz-me falta
És agora apenas uma fotografia ao lado da minha insónia. Uma memória que me fala sobretudo, como todas as memórias, daquilo que não existiu.
Neste fotografia te esqueço.
Meticulosamente, de cada vez que me esforço por reter-te e começo a inventar-te.
Tudo em ti tem asas agora - o teu riso, os teus passos. Até nas poucas frases que recordo de ti há um restolhar de penas.
E deslizo para esta solidão demasiado humana de não poder voltar a ser sozinho, como era quando tu existias, nesta mesma cidade, e eu já nem sequer pensava em ti.
Inês Pedrosa
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