"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
O silêncio
Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.
Nuno Júdice
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Família feliz
Telefonou-lhe a dizer
que se ia casar.
Meses depois, que estava grávida,
seria um rapaz.
A seguir, durante cinco anos,
no fim da primavera, o mesmo
telefonema. Ora um rapaz,
ora uma menina, novamente uma
menina. Seis filhos, ao todo.
Quando por fim atravessou o atlântico
e a procurou, descobriu
que na morada que ela lhe dera
vivia outra gente.
Acabou por a encontrar, sozinha,
paraplégica da queda
de seis andares,
oito anos antes,
dois dias depois de ter ido embora.
la mariée
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Fecha-me os olhos
Fecha-me os olhos devagar,
com um beijo leve,
com três palavras apenas:
dorme, parte, adeus.
Assim tenho de me despedir.
Deixo uma buganvília à entrada da porta branca,
um bairro de sombras floridas,
um cão a quem dei o meu nome.
Deixo a casa amarela,
o limoeiro, as hortênsias, duas estrelícias na
jarra vermelha,
translúcida,
sobre a mesa de mogno.
Deixo alguns livros,
algumas paisagens de litorais desvanecidos,
alguns naufrágios que desenhei com o lápis das
tempestades.
Por favor,
não digam que fui feliz, se não me viram
caminhar pelas ruas desertas,
esmagando a serpente dos dias,
construindo muralhas,
que pouco depois se desmoronavam.
Eles também se despediram, os amigos.
Quando me lembro deles,
há um cântico negro,
com labaredas altivas, um eco de metal que vibra.
Não está certo que assim seja, que se soltem do
nosso peito, um após outro,
os delicados fios de ouro da ternura.
Deixo-vos as maçãs verdes sobre a mesa.
Com o tempo, tudo há-de amadurecer.
José Agostinho Baptista
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Habituou-se a chorar mais tarde
no seu quarto em casa das tias
quando ninguém está o ouvir
depois de tudo lhe ter doído
as unhas
os cabelos
e o coração
Adília Lopes
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Que fazer com esse grito?
Sente que deve ser um grito. Rouco, fundo, carregando consigo todo o silêncio guardado. Mas da garganta seca nem um som se faz ouvir e o esgar do rosto quase parece um sorriso. Uma mordaça invisível impede palavras, gestos e, mais que tudo, aquele grito que lhe sobe à boca quando tudo à sua volta louva a vida.
Aterroriza-a o passar dos dias porque o grito perde urgência, aninha-se como memória longínqua. De repente, numa qualquer manhã, sente no corpo suado a dor que do fundo da garganta lhe invade o sangue e a aperta sem dó.
Um dia tudo desaparecerá e o grito ficará bem no fundo, enterrado em camadas de lembranças velhas que só se tornam conscientes quando a angústia o impõe. Até lá, aperfeiçoa as máscaras que escondem a mordaça e que escolhe cuidadosamente em cada dia.
Alice Daniel
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Algumas tardes
Uma tristeza insólita
me invade algumas tardes.
Esta de hoje é uma delas.
No sombrio quarto de estar
triste,
permaneço à espera
que a lua certifique a defunção do dia.
Este é por fim o quarto
minguante de uma lua cheia
de macilenta luz
que me confirma o que eu esperava:
o dia
que tanto me doía está morto.
E a noite é o sonho: enfim, o nada.
Ángel González
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Longe
Longe
Hei-de acabar por me sentir longe
Longe de tudo
Hei-de pertencer cada vez mais
Ao horizonte
Hei-de ficar ao longe
Barco
Conscientemente afastado
De si próprio
Alberto de Lacerda
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Que lhe havemos de fazer
E agora, de alma vazia como tantas
vezes,
contemplo o passar lento dos dias
que me empurram não sei para que destino
escuro, pressentido
já sem curiosidade. É aborrecido
saber e não saber, enganar-se
e acertar. Também estar seguro
é tão insuportável em muitos casos
como duvidar, como ceder, como desmoronar-se.
Seguro, a salvo, agora
que a dor já passou,
observo a borrasca tal como a esteira
fundida nas minhas costas
com o espesso limo
dos sucessos quotidianos, dados
ao esquecimento, antes de serem recordações.
A indiferença ante a própria sorte
não é melhor companheira que a angústia,
nem meu sorriso
(quando o acaso nos põe,
velho amor,
frente a frente)
representa outra coisa do que a ausência
de um gesto mais justo
para significar a seca, dolorosa,
irreparável perda do pranto.
Ángel González
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Nantucket
Flores na janela
roxo-claro e amarelas
alteradas por cortinas brancas
— Cheiro a limpo
— Sol do entardecer
Na bandeja de vidro
Um jarro de vidro, o copo
voltado para baixo, e junto ao copo
uma chave — E o branco leito imaculado
William Carlos Williams
(trad. José Agostinho Baptista)
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Desenho
Quem és tu?
Que me desenhas no espelho um corpo nu...
e a roupa de existir dorme em outro armário
o sono justo dos cansados de mim.
Afinal, quem és tu? Que desbotas no espelho...
Leila Krüger
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Underwater
Afundei-me na banheira e descobri que as lágrimas não se misturam com a água quente perfumada com sais de banho... a espuma fica por cima e as lágrimas caem como pedras em charcos de água. A água quente a correr na banheira não me aquece. Se o meu coração for já uma pedra vou ao fundo e sei que não me ouvirás chorar por ti.
Felisbela Fonseca
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Não sei se era aqui que era suposto chegar, se era este o lugar, se era este o tempo. Cheguei à esquina onde a vida dobra, à foz dos atalhos onde os caminhos novos se fazem e sei que tenho pouco tempo para dar o primeiro passo, o derradeiro, aquele que fará com que tudo o que fica para trás faça sentido, mesmo que sejam só atalhos menores. Não tenho tempo para pensar e o precipício que se adivinha em cada passo errado faz-me engolir em seco, faz-me fechar os punhos com muita força, faz-me inspirar lentamente para conseguir manter convicções.
Felisbela Fonseca
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Regresso
Não vim à procura de nada
Nem de saudades que não tenho
Nem de carga do tempo perdido
Nem de conflitos sobrenaturais
Do tempo e do espaço
Amei desde criança
Certas coisas que não choro
Fui a pureza deslumbrada que não volta jamais
O vidro sem ranhura que o sol atravessa
A pureza
Que me deixou feridas imortais
Vim para ver
Para ver de novo
Para contemplar sem perguntas
Não vim à procura de nada
Não me perguntem por nada
Um rio não se interroga
O vento não se arrepende
Alberto de Lacerda
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A furtiva alegria
Acumulo
retratos desfocados
viagens dispersas danos
moratórias
Mas também a ciência animal
de lamber as feridas, a furtiva alegria
a caminho da noite para matar
a sede na corrente.
Inês Lourenço
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Era música ao longe
era música
ao longe
suave
penetrando em nossos
sentidos
nossos corpos
se misturando
transformando
num só corpo...
depois
quedamos
em silêncio
num abandono
lasso
ficou
o momento...
mesmo distante
sinto o calor
dos seus abraços
sua pele colada
a minha
seu suor
misturado
ao meu
seus toques
explorando
meus segredos
que deixaram
de ser...
Angela Nassim
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Fases
Amanhece...
E o brilho do sol
Invade-me inteira
Despertando a mulher adormecida,
A criança marota,
A menina inocente...
Na tarde que desce
Por do sol no horizonte
A brisa calma
Entristece a mulher ferida,
A criança inquieta
A menina carente...
Na noite que avança
O escuro do nada
Domina minh'alma
E esconde a mulher selvagem
A criança perdida
A menina calada...
Débora Böttcher
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Estou sozinho de olhos abertos para a escuridão. Estou sozinho.
Estou sozinho e nunca aprendi a estar sozinho. Estou sozinho.
Sinto falta de palavras. Estou sozinho. Estou sozinho.
Sinto falta de uns olhos onde possa imaginar. Estou sozinho.
Sinto falta de mim em mim. Estou sozinho. Estou sozinho.
Estou sozinho.
José Luís Peixoto
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