"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
... à mesa sentada. Observo as cadeiras. É final de ano... A casa não mudou. Mudei. Talvez a maior alteração: a interna. Vejo o porta-retrato-amarelado jovial. O olhar está cansado e nublado. Ouço fogos de artifícios comemorando... Pergunto para mim o que celebrarei nesta sala? O piano silencia-se. Abro a janela para dar evasão ao sufoco. Debruço-me no meu diário. Necessito escrever uma bela história sobre um passado recheado de recordações neste momento. A memória falha, mas a saudade lembra. Sentada à mesa. Contemplo um devaneio. Afinal, é final de ano e a casa não está mais cheia... está habitada de móveis e vazia de queridos. O barulho interno é ensurdecedor. Inquieto-me. Pergunto para o tempo se terei mais tempo para gastar pela vida. Aguardo a resposta. Deixo a porta aberta.
Renata Carone Sborgia
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A bicicleta amarela
Quando criança, eu tinha uma bicicleta amarela,
não amarela de nascença,
meu pai que pintou...
Ele dizia:
"pra combinar com a tua alegria"
pois todas as coisas belas,
eram amarelas,
o canário, o caju, a manga rosa,
a luz do dia!!!
O ouro, o sol e a ventania...
Não sei que fim levou
a minha bicicleta amarela...
Mariza Alencastro
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Porta encostada
Um dia tu fostes embora
sem me dar um só adeus
deixastes a porta na escora,
um par de sapatos teus.
Fiquei pensando, pensando
na tua resolução:
Porque que tu foi embora
saindo de pé no chão ?
Inda hoje o sapato tá lá
é a forma do teu pé
a porta inda tá encostada
pode voltar... se quiser.
Deusdeth Nunes
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Pudim de pão
Não é preciso muito:
Uma tigela
(o fundo d'alma)
dois ou três ovos
leite, cravo e canela
(vozes e perfumes vagos)
açúcar, manteiga, fermento e pão velho
(lembranças e sabores amargos)
uma forma e um fogão
(sonhos desfeitos em segundos)
40 minutos de forno e está pronto
Com um copo de suco, engulo
minhas lágrimas condensadas
em pudim de pão.
Asta Vonzodas
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Ainda espero
Eles pensam que sou uma louca rapariga
Sou nada !
Não passo de uma menina cansada da vida,
destinada a ser vista pelos olhos dos outros
como a mais cínica das criaturas.
Eu mesma cheguei a acreditar e a festejar
essa tal façanha.
Mas nunca fui cortejada, nem amada.
Ainda espero ...
Venha cá, corajosamente, e me ama
Leva tudo de mim e não esqueça de sorrir
depois me afastarei sem dizer nada.
Cibele Camargo
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19:40
o relógio da estação marcava
dezanove e quarenta
um alto e entroncado homem
sorria de um dos lados da linha
todos os dias
do outro sorria uma mulher
com os seus dezanove
e quarenta anos
a reter, os brincos da mulher
estridentes de silêncio
e as botas dele
invulgarmente mudas
a dilecção dela
eram homens pontuais
a dele mulheres
sorridentes ao silêncio
dia dezanove de um mês
invernoso
do ano de quarenta
de um lado da linha
não havia vislumbre
de mulher ou homem
e do outro
também não
Nuno Travanca
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As muitas Marias de mim
Olho-me no espelho
Onde está você,
Maria da Imaginação?
Vivo calçada de nuvens
ora opacas
ora translúcidas
Refugio-me
no reino das fadas
do tempo de menina
Ainda ouço o som
da caixinha de música
Recapitulo fantasmas
que arrastam correntes
lá... dentro de mim
Onde está você,
Maria da Lucidez?
Meus personagens
fundam comunidades
de Marias desgovernadas
algumas tristes,
outras felizes
outras contraditórias
Umas que rezam
outras que pecam
São almas desunidas
que se esbarram
se conflitam
deliram assim,
dentro de mim.
Maria José Zanini Tauil
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Para sempre me ficou esse abraço. Por via desse cingir de corpo minha vida se mudou. Depois desse abraço trocou-se, no mundo, o fora pelo dentro. Agora, é dentro que tenho pele. Agora, meus olhos se abrem apenas para as funduras da alma. Nesse reverso, a poeira da rua me suja é o coração. Vou perdendo noção de mim, vou desbrilhando. E se eu peço que ele regresse é para sua mão peroleira me descobrir ainda cintilosa por dentro. Todo este tempo me madreperolei, me enfeitei de lembrança.
Mia Couto
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quase sempre só. nem o corpo o sente quando a vida bate - a história começa onde o fio termina e a vida está por esse fio presa - já tarde lembro o teu rosto e tudo é feito de paz. como nos dias de outono quando me dizias que tudo passa - tudo passa - e eu sorria porque acreditava que passar era uma coisa tão boa quanto ficar. eu que não sabia o significado nem de uma nem de outra - talvez tenhas partido cedo demais para a morte. mas que importa isso. se tudo passa e pouco fica. e o que fica é a memória - com tempo a memória perde-se e o teu rosto só se descobre em fotografias.
Margarete
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A Saudade
Não deviamos ter saudades. De nada. Nem ninguém. Estou aqui sentada. Sem fazer nada. Tenho os olhos (bem) abertos. Os sentidos alerta. A razão a funcionar. E esta coisa. Esta coisa no peito. Tenho tantas saudades tuas que nem consigo respirar. Não devíamos ter saudades. De nada. Nem de ninguém. Não.
Elisa
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Sinto como se tivessem roubado todo o meu ar e agora mal consigo olhar em volta, por que tudo está girando outra vez? Como levantar se tudo o que eu quero é me entregar a esse vazio infinito e a essa facilidade de adormecer sem deixar rastros?
Já não consigo me lembrar de como era doce o gosto da sua voz e de como me fazia suspirar baixinho, sorrir e ter aquela vontade louca de cantarolar. Mas me lembro vagamente de como me deixou sozinha outra vez, como descumpriu a promessa de nunca soltar minha mão e me deixar cair. Talvez tivesse me segurado forte demais por um tempo e depois acabei te deixando sem forças, não te culpo.
Elize Parenko
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Por favor, não me analise
Não fique procurando
cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise
profunda, quanto mais eu!
Ciumenta, exigente, insegura, carente
toda cheia de marcas que a vida deixou:
Veja em cada exigência
um grito de carência,
um pedido de amor!
Amor, amor é síntese,
uma integração de dados:
não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
(ninguém abraça um pedaço),
me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeita, amor!
Mirthes Mathias
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O gozo de estar triste
É tão triste acordar ao meio-dia
de um sábado que soa a vento e frio,
sentir que sobra uma porção de cama
(a cama se não estás é como um túmulo),
abrir os olhos ─ ou, melhor, que seja
a luz que vem abrir-mos ─ e saber
que tudo hoje será inútil, que
este dia nem um milagre o salva.
É triste levantar-se depois, sem jeito,
ir aos tropeções à casa de banho,
olhar-me, bocejar um par de vezes,
ver um homem sozinho no espelho,
um homem sozinho e que o sabe.
É triste que depois, contudo,
o meu corpo continue com o jogo,
e ponha a cafeteira, faça um sumo,
umas torradas e ponha tudo isso
numa mesa, que se sente, que coma
e beba e no mais negro do peito,
sem saber porquê, se lhe solte um pranto.
Torna-se então muito mais triste ainda
olhar pela janela, ver as nuvens
que passam, que ─ tal como a vida ─ passam
sem espaventos, mas que nos comovem,
apoiar-se, por fim, muito lentamente
às costas da cadeira e, isso mesmo,
deixar o olhar fixo e não ver nada.
Juan Miguel López
(trad. Joaquim Manuel Magalhães)
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Pudesse
Pudesse eu
Ter uma gaveta
Onde guardasse
Os teus gestos quentes
Os teus lábios húmidos
O teu cheiro envolvente
Pudesse eu
Abri-la sempre que quisesse
Sempre que a saudade apertasse
Pudesse eu
Encostar o rosto nos lençóis
Fechar os olhos
Reconhecer o tactear dos teus dedos
Em toda a minha pele
E sentir-me repleta de uma aura
Azul e violeta
Que apenas tu sabes tão bem pintar
João
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O trajeto
Me chamou o barulho de uma concha,
um trompete e um violoncello,
ventou orquestra de areia,
madrepérola
fez-me sopro, corda,
elo,
dobrou-me papel em barquinho,
ondas pra não sei onde.
Sabrina Nóbrega
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Entardecer
Hoje entardeci mais despida do que antigamente.
Não sei se pelos bosques tão devastados
se pelas bagas que colheste do meu dorso.
À tua sombra todos os amores são silvestres,
só as amoras são frutos impossíveis.
Catarina Nunes de Almeida
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Último dos poemas de um marinheiro
das paixões só conheci as mais pequenas
aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam
com a água do mar. mas não eram paixões por barcos
ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu
verde e azul e uma casa desabitada
das paixões só conheci as mais pequenas
como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte
ou as aves no seu regresso do norte
de resto, implorei aos deuses uma morada branca
onde nenhum peixe chegasse antes do alvorocer
onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse
implorei aos deuses o seu encantamento
não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas
surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos
que só eu neles poderia poisar como um pescador
sem mar onde navegar ou lavar o rosto.
Francisco José Viegas
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