"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
A Saudade
Não deviamos ter saudades. De nada. Nem ninguém. Estou aqui sentada. Sem fazer nada. Tenho os olhos (bem) abertos. Os sentidos alerta. A razão a funcionar. E esta coisa. Esta coisa no peito. Tenho tantas saudades tuas que nem consigo respirar. Não devíamos ter saudades. De nada. Nem de ninguém. Não.
Elisa
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Sinto como se tivessem roubado todo o meu ar e agora mal consigo olhar em volta, por que tudo está girando outra vez? Como levantar se tudo o que eu quero é me entregar a esse vazio infinito e a essa facilidade de adormecer sem deixar rastros?
Já não consigo me lembrar de como era doce o gosto da sua voz e de como me fazia suspirar baixinho, sorrir e ter aquela vontade louca de cantarolar. Mas me lembro vagamente de como me deixou sozinha outra vez, como descumpriu a promessa de nunca soltar minha mão e me deixar cair. Talvez tivesse me segurado forte demais por um tempo e depois acabei te deixando sem forças, não te culpo.
Elize Parenko
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Por favor, não me analise
Não fique procurando
cada ponto fraco meu
Se ninguém resiste a uma análise
profunda, quanto mais eu!
Ciumenta, exigente, insegura, carente
toda cheia de marcas que a vida deixou:
Veja em cada exigência
um grito de carência,
um pedido de amor!
Amor, amor é síntese,
uma integração de dados:
não há que tirar nem pôr.
Não me corte em fatias,
(ninguém abraça um pedaço),
me envolva todo em seus braços
E eu serei perfeita, amor!
Mirthes Mathias
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O gozo de estar triste
É tão triste acordar ao meio-dia
de um sábado que soa a vento e frio,
sentir que sobra uma porção de cama
(a cama se não estás é como um túmulo),
abrir os olhos ─ ou, melhor, que seja
a luz que vem abrir-mos ─ e saber
que tudo hoje será inútil, que
este dia nem um milagre o salva.
É triste levantar-se depois, sem jeito,
ir aos tropeções à casa de banho,
olhar-me, bocejar um par de vezes,
ver um homem sozinho no espelho,
um homem sozinho e que o sabe.
É triste que depois, contudo,
o meu corpo continue com o jogo,
e ponha a cafeteira, faça um sumo,
umas torradas e ponha tudo isso
numa mesa, que se sente, que coma
e beba e no mais negro do peito,
sem saber porquê, se lhe solte um pranto.
Torna-se então muito mais triste ainda
olhar pela janela, ver as nuvens
que passam, que ─ tal como a vida ─ passam
sem espaventos, mas que nos comovem,
apoiar-se, por fim, muito lentamente
às costas da cadeira e, isso mesmo,
deixar o olhar fixo e não ver nada.
Juan Miguel López
(trad. Joaquim Manuel Magalhães)
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Pudesse
Pudesse eu
Ter uma gaveta
Onde guardasse
Os teus gestos quentes
Os teus lábios húmidos
O teu cheiro envolvente
Pudesse eu
Abri-la sempre que quisesse
Sempre que a saudade apertasse
Pudesse eu
Encostar o rosto nos lençóis
Fechar os olhos
Reconhecer o tactear dos teus dedos
Em toda a minha pele
E sentir-me repleta de uma aura
Azul e violeta
Que apenas tu sabes tão bem pintar
João
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O trajeto
Me chamou o barulho de uma concha,
um trompete e um violoncello,
ventou orquestra de areia,
madrepérola
fez-me sopro, corda,
elo,
dobrou-me papel em barquinho,
ondas pra não sei onde.
Sabrina Nóbrega
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Entardecer
Hoje entardeci mais despida do que antigamente.
Não sei se pelos bosques tão devastados
se pelas bagas que colheste do meu dorso.
À tua sombra todos os amores são silvestres,
só as amoras são frutos impossíveis.
Catarina Nunes de Almeida
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Último dos poemas de um marinheiro
das paixões só conheci as mais pequenas
aquelas que nasciam na palma das mãos e desapareciam
com a água do mar. mas não eram paixões por barcos
ou pássaros ou cabelos teus: só uma fenda no céu
verde e azul e uma casa desabitada
das paixões só conheci as mais pequenas
como se no minuto imediato eu tivesse de esperar a morte
ou as aves no seu regresso do norte
de resto, implorei aos deuses uma morada branca
onde nenhum peixe chegasse antes do alvorocer
onde nenhum nome coubesse, onde nenhum olhar entrasse
implorei aos deuses o seu encantamento
não o seu dó. foi então que, das paixões, das mais pequenas
surgiram os teus olhos tão verdes e tão brancos
que só eu neles poderia poisar como um pescador
sem mar onde navegar ou lavar o rosto.
Francisco José Viegas
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penso sempre que em algum lugar estarás à minha espera. tão longe vai o tempo. tão longas são as horas. que anos atrás de anos passam com os dias onde sei que me esperas - na pele crescem as noites. eu sempre acreditei . madrugada fora e ainda há tantas histórias pela casa. do corpo onde habitaste. dos cabelos que te viram partir - que amanhã nenhum verbo me devolva o teu rosto. ou me incomode o teu nome numa carta sem remetente. escrita na pressa de quem sabe que irá morrer - talvez um dia. quando as noites forem tão demoradas que fechar e abrir os olhos dure anos. que anos sejam tão longos que a vida custe muito. custe tanto que a morte seja o único alívio para todas as dores que o corpo conhece.
Mar
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A árvore que ninguém visita
Então eu fui. Uma tarde subi
Aquela colina íngreme e rochosa,
Parando para descansar e admirar uma flor silvestre
E a vista do lago
No vale lá em baixo.
Teria gostado de uma cabra por companhia.
Uma preta e branca, com um sino
Para ir à frente, pastar um pouco e romper
O silêncio quando este retoma sua ascensão
Até onde uma árvore escura e silenciosa está
Esperando todos estes anos que alguém
Se sente à sua sombra, em calma consigo mesmo.
Até o vento está sempre a inventar
Joguinhos para as suas folhas brincarem,
Sem pressa agora de perturbar a paz.
Charles Simic
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O inferno
Debrucei-me à janela do inferno
e não vi nada que me horrorizasse;
pareceu-me um lugar igual aos outros,
cheio de gente e coisas. E alguém
do inferno me disse para entrar.
Não me lembro quem era ou se eram vários,
nem o que me disseram lá de dentro,
ou se essas pessoas sorririam,
se haveria alguém a lamentar-se
ou se desconfiei por um momento.
Fui e achei a porta do inferno,
abri a porta do inferno, entrei,
desde essa hora vivo no inferno.
É um lugar igual a qualquer outro,
cheio de gente e coisas. Todavia
sei que não pode ser senão inferno
porque neste lugar não estás comigo.
Amalia Bautista
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o início. o sonho. o fim.
eram mais ou menos cinco horas quando o telefone tocou. era você dizendo que ainda me amava. que não suportava mais a ideia de viver tão distante de mim. que o mundo estava cinza. que olhar para o céu não tinha mais graça sem os meus pitacos leigos e desinteressantes sobre as conjunturas planetárias. e foi essa a única vez em que acreditei em você. a única vez.
Flávia Vida
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O menos possível
Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho do fundo
A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães
Ernesto Sampaio
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Ela era uma mulher diferente
Gostava de se apresentar nua
Gostava de constranger
Com tamanha brandura
Ela ficava nua em sua casa de vidro
De longe desejo...
De perto ninguém sabia.
Dafne Stamato
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Bordada de astros
Ir beber-te num navio de altos mastros
No mar alto
Ó grande noite alucinada e pura,
Brilhante e escura,
Bordada de astros;
Para ti sobe a minha inquietação e sobressalto,
O meu caos, desilusão e agonia,
Pois trazes nos teus dedos
A sombra, o silêncio e os segredos,
A perfeição, a pureza e a harmonia.
Sophia de Mello Breyner Andresen
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Fronteiras
tenho navegado sobre duas vidas
duas dimensões
duas fases do tempo
projeções distintas
verdades partidas
mentiras divididas
nesta viagem abstrata
em que a espera
confunde-se com a busca
meu voo é subterrâneo e solitário
eu tenho estado entre dois mundos
entre dois sonhos
entre quatro olhares
trinta e três palavras
infinitas imagens
uma só tristeza
e a única certeza:
do que fui
do que sou
tornar-me-ei
o que me restou
Celso Mendes
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questão noturna
de repente me deu, uma saudade do que nem sei o nome, ou se é que existe além do meu pensar&querer que seja. mais que de repente, em meu meu peito doeu uma dor reconhecida de forma atávica e singular, de gosto amargo feito vinho avinagrado que desce pela garganta a fora com tua imagem por dentro. imagem que gostaria de apagar, mas que insiste neste gosto de giz que se escreve e apaga diante das tempestades desérticas e passadas no lado do mar morto que é este meu coração. ainda sinto, se é que, teu gosto&cheiro no meu corpo que necessita de outro corpo&alma pra ser feliz e diferente do que sempre foi tristeza&perdas. hoje, não sei o que me deu, que desejei te rever além dos espaços cruzados que criaste para nos separar de vez. como se fosse possível. ou necessário.
albanegromonte
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