"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
As noites vestem-se de branco e os dias são de faz-de-conta.
Eu deixo-me ficar, rainha de folhas soltas ao vento, amores primaveris, cartas sem destinatário. Sozinha, que não se partilham silêncios como se fossem bolachas, almas como bocadinhos de rebuçados de café. De coração cheio, que os filtros são mudados, o amor-próprio aquece e a voz é de porcelana. Eu vivo em nuvens-unicórnio, bules de chá que giram num frenesim caótico. Não me importo. Tenho-me a mim, de sóis perdidos. Eu que nunca sou de nada, e tenho sempre tudo.
Inês
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Chegas a casa com as mãos
cheias de sacos e vincadas
pelo esforço. o silêncio é escuro
antes de acenderes a luz; depois
o silêncio é o mesmo, mas ilumina
a solidão nos objectos da casa. largas tudo
logo à entrada. acendes a luz fria da casa
de banho. pegas no elástico, agarras os
cabelos, escuros. e lavas o rosto. ele
vai ficando na água. até que o faças
escorrer pelo ralo: sem nenhum som.
Bruno Béu
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(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano.
Cecília Meireles
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Porque hoje a noite me parece uma invenção em aberto
sobre a cama abandono palavras
tenho o tempo nas pálpebras
assim, quando alguém me perguntar pelo sentido da insónia
eu, parada no meio do quarto,
direi que não sabia que na solidão se grita alto
para sobreviver ao medo
Maria Sousa
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O meu sono será uma longa
viagem sem sobressalto
numa cabine de comboio fechada
e só por minha conta
rumo a um lugar onde não posso
tirar fotografias.
Rogério Rôla
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Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou
José Tolentino Mendonça
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La nuit n'est jamais complète
Il y a toujours puisque je le dis
Puisque je l'affirme
Au bout du chagrin une fenêtre ouverte
Une fenêtre éclairée
Il y a toujours un rêve qui veille
Désir à combler faim à satisfaire
Un coeur généreux
Une main tendue une main ouverte
Des yeux attentifs
Une vie la vie à se partager.
Paul Eluard
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Sono una creatura
Come questa pietra
del S. Michele
così fredda
così dura
così prosciugata
così refrattaria
così totalmente
disanimata
Come questa pietra
é il mio pianto
che non si vede
La morte
si sconta
vivendo
Giuseppe Ungaretti
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Há dia, sabes, em que gostaria de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento - um vago agradecimento? - e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar.
Pedro Paixão
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Há os que passam o tempo
desenrolando sobre a mesa
tapetes de paciencias.
Assim Tolstoi
de noite se aquietava
após as suas homéricas
batalhas contra o invasor.
Assim calma e dignamente
tecem e bordam as mulheres.
António Osório
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Perto da minha dama e longe do meu querer,
tão cheio de desejo e medo ao mesmo tempo,
o coração me falha e nas palavras tremo
quanto a poder dizer o que quero dizer.
Bela, disse eu, de dor fazeis-me estremecer,
e nem sei o que digo, e nem sei o que penso,
perto da minha dama e longe do meu querer.
De todas as demais nem desejo saber,
numa só coloquei todo o bem a um tempo,
Libertar-me ousarei do terror em que tremo
para pedir enfim que me façais valer
perto da minha dama e longe do meu querer?
Alain Chartier
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Peça ligeira
Uma estação sem ninguém nas plataformas,
Um banco na avenida e ninguém perto,
Um armazém abandonado,
O fim de uma via de manobras,
Um autocarro vazio,
Um jardim solitário,
Um comboio sem luzes,
A madrugada,
Um oco.
Eu.
José Ángel Cilleruelo
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Cigarros na cama
Comecei a fumar porque você fuma
e eu certamente não queria viver
mais que você. Agora já sem
o seu hálito, suas bitucas e cinzas
na mesma cama, começo o dia
com um cigarro, exatamente
e ainda pelo mesmo motivo.
Ricardo Domeneck
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Durante o sono
Durante o sono retiraram-me uma costela
Ficou-me no peito um vazio que não consigo preencher
Custa-me a respirar
Eu quero de volta a minha costela
quero de volta todas as costelas
Quero de volta o paraíso
quero de volta o silêncio rumorejante
quero de volta as poluções nocturnas
e diurnas
Quero uma mulher
feita de chuva
e vento
e fogo
e neve
e luz
e breu
e não de argila
como eu
Jorge Sousa Braga
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Não sou dona de nada
Não sou dona de nada
nem muito menos podia sê-lo de alguém.
Tu não devias temer
quando te estrangulo o sexo,
não penso dar-te filhos, nem anéis, nem promessas.
A terra que tenho é nos sapatos.
Minha casa é este corpo a parecer uma mulher,
não preciso de mais paredes e cá dentro
tenho muito espaço:
este deserto negro que tanto te assusta.
Miriam Reyes
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Sombra de Ana
Passa-me a mão no cabelo, Ana,
passa-me a mão.
Serei criança para teus conselhos, Ana,
ou ancião.
Olha a neve que me cobre, Ana
- a desilusão.
Viver pesa-me neste mundo, Ana,
são já mil anos.
A chama viva que me queima, Ana,
não me dá trégua.
E nada vejo porque sou luz, Ana,
e vivo sem corpo.
Passa-me a mão no cabelo, Ana,
passa-me a mão,
não digas nada, vá, dá-me conselhos,
que eu estou cansado.
Josep Palau
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Sobre posições
Deparo-me com o engano do que sou
Fujo dos outros, mas as vitrines subornam:
espelhos
reflexos
adões
evas
josés
marias
Rede de vidas que me dissimulam:
la femme
the man
la donna
don juan
Assim travestida não me enganam…
Sorrio fatal à mulher não fêmea
ao homem não macho
e alço céus e infernos.
Recrio do inventado
revivo minhas criaturas
e me desenlaço dessa divisão.
Feito anjo não caído
sobreponho-me
Feito poeta
visto-me de humanidade.
Carmen Sílvia Presotto
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