"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

4.11.12


 
Lembras-te do jardim irreal e triste?
Do lago onde boiavam peixes de jade?
Existe ainda esse jardim irreal e triste?
Para voltar sempre parece tarde.

Dormias como um deus sobre anénomas brancas:
Como eras tão jovem, tão simples, tão claro!...
Teu rosto e tuas mãos eram anénomas brancas.
Só a memória guarda o teu retrato.

Que fizemos do nosso único momento?
Do grande? do verdadeiro, do exacto?
Agora o que há entre nós não tem momento;
Está fora do tempo e do espaço.

Maria Manuela Couto Viana   

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3.11.12


 
Corri para o telefone mas não me lembrava do teu número
queria apenas ouvir a tua voz
contar-te o sonho que tive ontem e me aterrorizou
queria dizer-te porque parto
porque amo
ouvir-te perguntar quem fala?
e faltar-me a coragem para responder e desligar
depois caminhei como uma fera enfurecida pela casa
a noite tornou-se patética sem ti
não tinha sentido pensar em ti e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade duma ponta a outra
Só para te dizer boa noite ou talvez tocar-te
e morrer

 Al Berto  

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2.11.12


 
 Por vezes ouvia música.  Só ela ouvia música; aliás, era ela que escolhia, mentalmente, as músicas que ouvia, ouvia secretamente essas músicas.  E dançava com essas músicas; dançava com os olhos, com movimentos de cabeça, com os braços.  Podia estar a ouvir pessoas e estar, ao mesmo tempo, a dançar essas músicas.  Dançava; às vezes,  por dentro de si mesma. 

 

  Baptista Bastos 

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1.11.12


 Tenho uma lágrima
Presa nos olhos
E poemas abandonados
No fundo da gaveta
Entre fitas de crepe,
Naftalina, pétalas de rosa
Secas
E mofo.

Tenho coisas tão antigas
Como rabiscos desencontrados
Pedaços de papéis amarelados
E sem data,
Números, contas,
Colarinhos puídos,
Pires rachados.

Tenho, assim, um gosto
De tempo preso nas
Papilas
E manhãs embotadas
De sangue coagulado,
Marcas no rosto,
Cicatrizes e ferrugem
Nalguma camisola de algodão.

Tenho um carinho
Escondido debaixo do colchão,
Uma paixão desconhecida,
Antiga e subconsciente,
Que hoje se faz
Presente
Depois desaparece
Como fumo
Em frente
Ao espelho
Da solidão.

Quero sentir-me inteiro
Como as eternas verdades
Que tocam em mim:
O retrato de uma vida
Nos fragmentos da memória,
Momentos de riso,
Momentos de glória
Em um grande palco
Para contar a
História.

 Paulo Ramos

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31.10.12


 
  Um conto vazio

Pensava a mil por hora e por isso andava sempre cansada... Achava ter a vida uma beleza exaustiva e alinhar os pensamentos dava-lhe muito trabalho. Costumava costurá-los como uma colcha de retalhos, mas não suportava cobrir-se com ela. Foi quando, em um dia estranhamente verde, um gato entrou por sua janela, e, ao puxar um fio, desfez toda a colcha que estava sobre a cômoda, emaranhou-se em linhas e desapareceu no horizonte. E ela então, obtendo alguns instantes de pausa ao perder os pensamentos, encontrou-se em sua essência e sorriu sinceramente. 

  Anna Carolina Paegle

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30.10.12


 Trago nas mãos a lâmina dos anos
que passaram por mim tragando sonhos:
sementes de um passado sem memória,
inúteis fragmentos de silêncio.

As velhas alegrias disfarçadas
tatuam sombras em meu rosto pálido.
Sorrio amargo, o limo transparente
refletido nos dentes amarelos.

Meus olhos baços já não sonham luzes
sob o cantar monótono do vento:
palavras surdas nos meus lábios cegos.

Antúrios se renovam no meu peito
e de meus braços pendem sensitivas.
Nos pés carrego o peso desses sonhos. 

  Zemaria Pinto 

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29.10.12


 
  Penélope

Hoje desfiz o último ponto,
A trama do bordado.

No palácio deserto ladra
O cão.

Um sibilo de flechas
Devolve-me o passado.

Com os olhos da memória
Vejo o arco
Que se encurva,
A força que o distende.

Reconheço no silêncio 
A paz que me faltava, 
(No mármore da entrada 
Agonizam os pretendentes).

O ciclo está completo
A espera acabada.

Quando Ulisses chegar
A sopa estará fria.

Myriam Fraga

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28.10.12


escuta... 

 rasgaram-me as entranhas à procura de vida. o que encontraram foi um deserto árido e vazio.nada tenho para oferecer. nada tenho para dar. apenas eu. nada mais possuo. terá de bastar. escuta...terá de bastar. não me peças que continue a lutar. não me peças mais um combate. escuta... estou cansada. cansada que olhem para dentro de mim. cansada da navalha que me retalha. cansada . quero respirar. preciso. fundo. bem fundo. respirar como quem acaba de nascer. expulsar o fétido ar que mora dentro de mim. preciso. escuta... escuta o que te digo nos longos silencios, nos olhares perdidos, nos gestos contidos. escuta... 

  Mia 

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27.10.12


 
  Delante de la ventania, el rosedal 

Testamento enterrado
a la sombra del rosedal:
Le dejo mi guitarra
al vendedor de la panadería.
La hierba bendita
a la vieja del balcón.
La caldera
que silba Villa Lobos
al Fray Gustavo
que cose almas
los miércoles por la mañana.
El libro de poesía
de Augusto dos Anjos,
al cobrador del Expreso 022.

Firmado:
La niña de los ojos tristes.
Chico Buarque me llamaba de Carolina,
Pero era sólo un disfraz.
Soy yo la niña
que vio el tiempo pasar en la ventana,
sin ver.

  Bárbara Lia

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26.10.12


 
  o sol entra pela janela e repousa na tua face

a casa, parece vazia
escuto o som do vento

estavas lá
vazio como a casa,

senti tua sombra
a, sombra que sobrevoava
entre labirintos da minha alma

bastam tuas mãos
cobertas de vida, para encher a casa

procuro veloz com o olhar
o brilho dos sentidos,

o encher os braços
de sonos adiados,
exaustos, atados à imensidão da noite

misteriosa linguagem
entre um pedaço de mim 
e os risos forçados, sem tempo

perco-me entre a casa
e o destino

caminho, caminho sem máscara
recomeço onde a realidade parou,
sem tempo, longe da memória

sinto-te em casa de novo
cobre-te o sorriso no rosto

  helena maltez 

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25.10.12


Olhava para a fotografia daquela que amei com amor.  Amor. Amor. Amor, gostava de dizer esta palavra até gastá-la ainda mais. Amor, gostava de dizer esta palavra até perder ainda mais o seu sentido.  Amor. Amor.  Amor, até ser uma palavra que não significa sequer uma ilusão, uma mentira. Amor, amor, amor, nem sequer  uma mentira, nem sequer um sentimento vago e incompreensível.  Amor amor amor, até ser nem sequer uma palavra banal,  nem sequer a palavra mais vulgar, nem sequer uma palavra.  Amoramoramor, até ao momento em que alguém diz amor e ninguém virará a cabeça para ouvir,  alguém diz  amor e ninguém ouve,  alguém diz amor e não disse nada.  Sozinho, diante da campa.  O amor é a solidão.  

  José Luís Peixoto 

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24.10.12


 
  Dignidade

Fui falar-te como se fosse a uma casa de penhores 
 Empenhar o meu último casaco 
 Sem flores 
 Sem anéis 
 Sem colares 
 E os saltos tortos dos sapatos 
 Palavras não houve 
 Sorriso apenas meu 
 De pessoa serena sem passado e sem futuro
 Entregaste-me a cautela dos dias inúteis 
 E eu assinei 
 Só eu sabia que vinha nua 

  Matilde Rosa Araújo 

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23.10.12


Escribe una carta de amor solamente 
que tenga la semilla de un gran suspiro 
y después olvídala en la memoria 
para que yo la pueda escuchar. 
De noche, cuando duermes, 
aunque tú no lo sabes, vengo a buscarte: 
mi límite frío de sueño 
se compagina con el tuyo, 
vivimos sobre dos desiertos 
que al atardecer se transforman en colinas 
y desnudo mis senos en la noche 
ansiosa de que tú lo mires. 

  Alda Merini 

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22.10.12


Oferenda 

 Eu falo da profundidade da noite, 
da escuridão abissal. 
 Se vieres a minha casa, amor, 
traz-me luz. 
E uma janela para que eu possa ver 
a felicidade daquela rua repleta. 

  Forugh Farrojzad 
(trad. Luís Parrado) 

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21.10.12


  Já conheci a alegria da manhã 
quando o quarto está em silêncio: 
os gladíolos abrem-se na jarra, 
a água corre da fonte para o jardim 
e ao longe, na vila, as pessoas formigam... 
Para te falar do meu espinho 
só me resta uma língua mais arcaica, 
ouvida na lama de um outono de chuva. 
Nunca cheguei a saber o que quiseste: 
ainda hesitante na vida estendeste 
à minha frente as tuas nuvens, 
 deixei de ver a terra e a ti 
que só a custo te respiro.

  M. S. Lourenço

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20.10.12


A herança 

 A minha mãe ensinou-me a bordar: 
o dedal no dedo médio, 
usar o fio em pequenas meadas, 
ensinou-me a fazer o ponto de bainha dupla 
e a dispor a loiça de porcelana: 
primeiro as bandejas, 
depois os pratos e os copos. 
A minha avó ensinou-me a engomar: 
o lenço de criança dobrava-se
num triângulo, como o de solteira, 
só o de cavalheiro se dobrava 
em forma de rectângulo.

 - Então és filha de boas famílias. 
- Não, sou a filha das criadas. 

  Cristina Morano 

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19.10.12


   O espelho 

 O espelho: atra 
vés de seu líquido nada 
me des
dobro. 

 Ser quem me
 olha
 e olhar seus 
olhos 
nada de 
nada 
duplo 
mistério. 

 Não amo
 o espelho: temo-o 

  Orides Fontela

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