"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

13.10.12


 
Conta-me...

Conta-me 
Conta-me o que se calou ainda. 
Conta-me a memória, os sorrisos, 
a doçura. Põe a música certa a tocar e conta-me. 
Conta-me o sentido, o racionalizado. 
Conta-me das histórias, 
dos equilibrismos. 
Faz-me um desenho, uma pintura. 
Diz-me como estava o céu, 
como brilhavam as estrelas, 
como já se ia embora Vénus 
e a aurora raiava o negro 
de rosas e amarelos. 
Diz-me como foi o dia, 
aquece-me desse mesmo sol. 
Conta-me das metamorfoses, 
 dos crescimentos, dos pés já doridos, 
 dos sonhos acordados. 
 Conta-me. 
Não esqueças nem um pormenor, 
um pensamento, um fio. 
Conta-me. Preenche cada espaço, 
 soletra cada letra. 
Não te enganes nos ondes, 
nos quandos, nos porquês. 
Conta-me. 
Recorda, agora, memória. 
Conta-me tudo o que já começo a esquecer 

  Hipatia 

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12.10.12


 
  Mas não sei o que fazer com a misericórdia 

 Uma tristeza exclusiva do verão, 
das despedidas ou das noites de verão. 
Durante o dia é impossível notá-la, 
tal como no inverno, quando está ocupada 
a combater o frio. 
Os meus sonhos recentes anunciam mudanças 
mas não sei o que fazer com a 
misericórdia. A representação da dor 
é aquilo que dói. Já se pode abrir a janela, 
um pouco, todos os dias, e escutar
 as buzinas, a tarde rebentando. 
Prefiro não fazer nada, que é pior.
 
  Mariano Peyrou

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11.10.12


 
  Ainda estás aqui

Lança teu medo 
aos ares

 Em breve 
acaba teu tempo 
em breve 
cresce o céu sob a grama 
despencam teus sonhos 
nenhures 

 Ainda 
cheira o cravo 
canta o melro 
ainda tens um amante 
e palavras para doar 
ainda estás aqui 

 Sê o que és 
Dá o que tens 

  Rose Ausländer
(trad. Ricardo Domeneck)

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10.10.12


 
  Para a appassionata 

 Vivo como se dormisse 
A sonhar contigo 
Para sempre.

 O mundo é um rumor longínquo
 De mar em ressaca 
A quebrar-se nas amuradas 
Do meu castelo sem pontes.

  Helena Kolody

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9.10.12


De perto

Por que eu nasci pra viver no silêncio, 
evidenciando o que nunca foi dito. 
Nasci pra viver com a força do pensamento, 
do sopro que muda o caminho, 
uma palavra que desnuda a alma, 
um olhar que desvenda destinos 
e contempla futuros. 

 Uma mulher de desejos maiúsculos vivendo 
nas redondezas 
dos detalhes. 

  Priscila Rôde

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8.10.12


 
 Ali visitei as horas mornas 
e me detive 
na sequência dos contornos 
apenas livres 
apenas leves 
das ondas suaves azuis
 espuma 

 Perdi o anel 
que me atava à vida 
sufoquei uma lágrima 
engoli um grito 

 Ali ficou um pedaço de um naco de mim 

  Ângela Marques

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7.10.12


Ausência

Fala

 Ouvir-te-ei 
Ainda que os segredos 
As amoras me chamem 

 Diz-me 
Que existirão lágrimas para chorar
 Na velhice
 Na solidão

 Ainda que acordes os olhos dos deuses 

 Fala

 Ouvir-te-ei
 A coragem 

 Alguém de nós que já não está 

  Daniel Faria

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6.10.12


    Velhas cartas de amor 

 Ah, queimá-las não pude... É que elas - quem diria? 
guardam murchas assim tua morta paixão 
- a febre de uma noite, as lágrimas de um dia - 
como o eco já sem voz de uma ultima canção. 

 Tuas cartas! - num tempo a que eu retornaria –
 fizeram palpitar de amor meu coração... 
Depois, veio o silêncio, a distância, a agonia, 
e o bálsamo do tempo - a cruel consolação! 

 Vivem nelas ainda um romance apagado, 
a luz da mocidade, o fogo de um passado, 
a gloria de uma vida aos vinte anos em flor... 

 Ontem, contava-as, sim - com um gesto indiferente... 
Mas sobre elas caiu uma lágrima ardente ... ... 
E não pude queimar tuas cartas de amor... 

  Hector Pedro Blomberg 

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5.10.12


    Soneto - Rosa Divina

Rosa divina que em gentil cultura 
és, com a tua fragrante sutileza, 
magistério purpúreo da beleza, 
alva lição de excelsa formosura; 

 há em ti como que humana arquitetura, 
exemplo de uma ingênua e vã nobreza, 
em cujo ser fundiu a natureza 
o berço alegre e a triste sepultura. 

 Altiva em tua pompa presumida, 
soberba, a morte afrontas, não te inclinas, 
mas logo, desmaiada e emurchecida, 
 teu ser desfaz-se todo em tristes ruínas! 

E assim, com douta morte e fútil vida, 
vivendo enganas e morrendo ensinas! 

  Soror Juana Inés de La Cruz 
(trad. J.G. de Araujo Jorge)

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4.10.12


 
  Separação 

 Só eu sei quanto me dói a separação!
 Na minha nostalgia fico desterrado 
À míngua de encontrar consolação.
 
 À pena, no papel, escrever não é dado 
Sem que a lágrima trace, caindo teimosa, 
Linhas de amor na página da face. 

 Se o meu grande orgulho não obstasse 
Iria ver-te à noite; orvalho apaixonado 
De visita às pétalas da rosa.

  Al-Mu'tamid 
(trad. Adalberto Alves)

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3.10.12


    Seria o amor português 

 Muitas vezes te esperei, perdi a conta, 
longas manhãs te esperei tremendo 
no patamar dos olhos. Que importa 
que batam à porta, façam chegar 
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
 - tanto pó sobre os móveis da tua ausência. 

 Se não és tu, que me importa? 
Alguém bate, insiste através da madeira, 
que me importa que batam à porta, 
a solidão é uma espinha 
insidiosamente alojada na garganta. 
Um pássaro morto no jardim com neve.

  Que me importa, agora que me importas, 
que batam, se não és tu, à porta? 

  Fernando Assis Pacheco 

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2.10.12


 
  Não me deixes 

 Não me deixes
 antes que o lado sul do vento
 me venha buscar, 
fica e deixa-me contar
 uma história
 sobre as estradas
 onde se escolhe o caminho,
 de mãos agarradas
 ao cajado, livres, 
de pés andarilhos compassados do destino
 que nasce de dentro
 da força de cada jornada.
 
 Não me deixes 
enquanto fores amarra 
deste cais 
onde o meu barco 
repousa,  inquieto. 

Não me deixes 
que preciso dos teus beijos 
e a minha boca 
fala de dentro de ti 
com o sabor das palavras 
que te amam 

  Jorge Bicho 

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30.9.12


   Amor total...
 
 Ama-me antes do fim das rosas
 e da apanha das cerejas.
 
 Ama-me nos braços que nos apressam, 
antes de a madrugada se entregar ao dia, 
 antes que as sombras 
 tomem conta das paredes, 
 e o desejo esmoreça. 

 Ama-me antes que as andorinhas 
 rumem a sul, 
 antes da ceifa do trigo, 
 e do entardecer da aurora.
 
 Ama-me como se fosse um poeta,
 um amante em pecado, 
 um intervalo entre dois tempos. 

 Ama-me à meia-luz, 
 na insensatez, 
 na loucura hipnótica das estrofes, 
 na fusão íntima dos corpos, 
 no breu da noite.

 Ama-me… tão só. 

  Francisco Valverde Arsénio 

 ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨

29.9.12


 
  Flor de fim   
 
Como saber?   
Se a tristeza é breve   
se a alegria é forte   
se a paz é leve.   
Se a fé rebrota   
no inverno gris.   
Se teus dedos   
na madrugada  fazem meu fim.   
Como saber?  
 Entender tua cor.  
 Como saber?   
Se já não sou.   
Como não ser?  
Se nós somos flor...  

  Leila Krüger

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26.9.12


 
  Fui eu

Fui eu essa menina que me espia
 - melancólico olhar, sereno rosto, 
postura fixa e o todo bem composto
 - no retrato que o tempo desafia. 
Fui eu na minha infância fugidia 
de prazeres ingênuos, e o desgosto
 de sentir tão efêmera a alegria
 bem depressa trocada em seu oposto.
 Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa 
e tudo altera nem sequer deixou 
um grão de infância feito esmola escassa. 
Fui eu: e na figura só ficou 
o olhar desenganado, na fumaça 
em que a criança inteira se mudou. 

  Fernando Py 

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23.9.12


 
  A revelação dos espelhos

Tudo em mim é desânimo, cansaço, 
um imenso desejo de morrer.
 Em minhas faces vejo a cada passo 
o lanho de uma ruga aparecer. 

 A cada riso novo, a cada traço 
que a consciência me dá do envelhecer,
 mais a mais se reduz o livre espaço
 em que um laivo de luz se possa ver.

 No atropelo das horas consumidas 
não percebi que em rondas desvairadas 
era eu levado para a destruição. 

 Ao ver-me hoje nas chapas denegridas 
dos espelhos, opacas, desgastadas, 
sinto-me frio e em lenta corrosão. 

  Alfredo Cumplido de Sant'Anna

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22.9.12


 
  O tempo passado

Houve um tempo em que a mão erguia uma lanterna e a noite se afastava um pouco, devagar. Não se anulava. A noite e o dia abriam sulcos para o silêncio como um rio e ao nosso lado caminhava sempre um espaço aberto. Eu não recordo, mas dizem-me que partíamos e tornávamos à casa como o sangue parte e torna ao coração. Mar não havia, mas pisávamos violetas. A cama em que dormíamos era a do parto e a da morte, o pão era solene e a aurora familiar. Ah, dêem-nos, dêem-nos de novo aqueles corpos ignorantes e densos, e ouvidos para o silêncio e boca para acreditar.

  Maria da Saüdade Cortezão

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