"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"
Conta-me...
Conta-me
Conta-me o que se calou ainda.
Conta-me a memória, os sorrisos,
a doçura.
Põe a música certa a tocar e conta-me.
Conta-me o sentido, o racionalizado.
Conta-me das histórias,
dos equilibrismos.
Faz-me um desenho, uma pintura.
Diz-me como estava o céu,
como brilhavam as estrelas,
como já se ia embora Vénus
e a aurora raiava o negro
de rosas e amarelos.
Diz-me como foi o dia,
aquece-me desse mesmo sol.
Conta-me das metamorfoses,
dos crescimentos,
dos pés já doridos,
dos sonhos acordados.
Conta-me.
Não esqueças nem um pormenor,
um pensamento, um fio.
Conta-me.
Preenche cada espaço,
soletra cada letra.
Não te enganes nos ondes,
nos quandos, nos porquês.
Conta-me.
Recorda, agora, memória.
Conta-me tudo o que já começo a esquecer
Hipatia
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Mas não sei o que fazer com a misericórdia
Uma tristeza exclusiva do verão,
das despedidas ou das noites de verão.
Durante o dia é impossível notá-la,
tal como no inverno, quando está ocupada
a combater o frio.
Os meus sonhos recentes anunciam mudanças
mas não sei o que fazer com a
misericórdia. A representação da dor
é aquilo que dói. Já se pode abrir a janela,
um pouco, todos os dias, e escutar
as buzinas, a tarde rebentando.
Prefiro não fazer nada, que é pior.
Mariano Peyrou
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Ainda estás aqui
Lança teu medo
aos ares
Em breve
acaba teu tempo
em breve
cresce o céu
sob a grama
despencam teus sonhos
nenhures
Ainda
cheira o cravo
canta o melro
ainda tens um amante
e palavras para doar
ainda estás aqui
Sê o que és
Dá o que tens
Rose Ausländer
(trad. Ricardo Domeneck)
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Para a appassionata
Vivo como se dormisse
A sonhar contigo
Para sempre.
O mundo é um rumor longínquo
De mar em ressaca
A quebrar-se nas amuradas
Do meu castelo sem pontes.
Helena Kolody
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De perto
Por que eu nasci pra viver no silêncio,
evidenciando o que nunca foi dito.
Nasci pra viver com a força do pensamento,
do sopro que muda o caminho,
uma palavra que desnuda a alma,
um olhar que desvenda destinos
e contempla futuros.
Uma mulher de desejos maiúsculos
vivendo
nas redondezas
dos detalhes.
Priscila Rôde
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Ali visitei as horas mornas
e me detive
na sequência dos contornos
apenas livres
apenas leves
das ondas suaves azuis
espuma
Perdi o anel
que me atava à vida
sufoquei uma lágrima
engoli um grito
Ali ficou um pedaço de um naco de mim
Ângela Marques
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Ausência
Fala
Ouvir-te-ei
Ainda que os segredos
As amoras me chamem
Diz-me
Que existirão lágrimas para chorar
Na velhice
Na solidão
Ainda que acordes os olhos dos deuses
Fala
Ouvir-te-ei
A coragem
Alguém de nós que já não está
Daniel Faria
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Velhas cartas de amor
Ah, queimá-las não pude... É que elas - quem diria?
guardam murchas assim tua morta paixão
- a febre de uma noite, as lágrimas de um dia -
como o eco já sem voz de uma ultima canção.
Tuas cartas! - num tempo a que eu retornaria –
fizeram palpitar de amor meu coração...
Depois, veio o silêncio, a distância, a agonia,
e o bálsamo do tempo - a cruel consolação!
Vivem nelas ainda um romance apagado,
a luz da mocidade, o fogo de um passado,
a gloria de uma vida aos vinte anos em flor...
Ontem, contava-as, sim - com um gesto indiferente...
Mas sobre elas caiu uma lágrima ardente ...
...
E não pude queimar tuas cartas de amor...
Hector Pedro Blomberg
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Soneto - Rosa Divina
Rosa divina que em gentil cultura
és, com a tua fragrante sutileza,
magistério purpúreo da beleza,
alva lição de excelsa formosura;
há em ti como que humana arquitetura,
exemplo de uma ingênua e vã nobreza,
em cujo ser fundiu a natureza
o berço alegre e a triste sepultura.
Altiva em tua pompa presumida,
soberba, a morte afrontas, não te inclinas,
mas logo, desmaiada e emurchecida,
teu ser desfaz-se todo em tristes ruínas!
E assim, com douta morte e fútil vida,
vivendo enganas e morrendo ensinas!
Soror Juana Inés de La Cruz
(trad. J.G. de Araujo Jorge)
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Separação
Só eu sei quanto me dói a separação!
Na minha nostalgia fico desterrado
À míngua de encontrar consolação.
À pena, no papel, escrever não é dado
Sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
Linhas de amor na página da face.
Se o meu grande orgulho não obstasse
Iria ver-te à noite; orvalho apaixonado
De visita às pétalas da rosa.
Al-Mu'tamid
(trad. Adalberto Alves)
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Seria o amor português
Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis da tua ausência.
Se não és tu, que me importa?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.
Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?
Fernando Assis Pacheco
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Não me deixes
Não me deixes
antes que o lado sul do vento
me venha buscar,
fica e deixa-me contar
uma história
sobre as estradas
onde se escolhe o caminho,
de mãos agarradas
ao cajado, livres,
de pés andarilhos
compassados do destino
que nasce de dentro
da força de cada jornada.
Não me deixes
enquanto fores amarra
deste cais
onde o meu barco
repousa, inquieto.
Não me deixes
que preciso dos teus beijos
e a minha boca
fala de dentro de ti
com o sabor das palavras
que te amam
Jorge Bicho
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Amor total...
Ama-me antes do fim das rosas
e da apanha das cerejas.
Ama-me nos braços que nos apressam,
antes de a madrugada se entregar ao dia,
antes que as sombras
tomem conta das paredes,
e o desejo esmoreça.
Ama-me antes que as andorinhas
rumem a sul,
antes da ceifa do trigo,
e do entardecer da aurora.
Ama-me como se fosse um poeta,
um amante em pecado,
um intervalo entre dois tempos.
Ama-me à meia-luz,
na insensatez,
na loucura hipnótica das estrofes,
na fusão íntima dos corpos,
no breu da noite.
Ama-me… tão só.
Francisco Valverde Arsénio
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Flor de fim
Como saber?
Se a tristeza é breve
se a alegria é forte
se a paz é leve.
Se a fé rebrota
no inverno gris.
Se teus dedos
na madrugada
fazem meu fim.
Como saber?
Entender tua cor.
Como saber?
Se já não sou.
Como não ser?
Se nós somos flor...
Leila Krüger
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Fui eu
Fui eu essa menina que me espia
- melancólico olhar, sereno rosto,
postura fixa e o todo bem composto
-
no retrato que o tempo desafia.
Fui eu na minha infância fugidia
de prazeres ingênuos, e o desgosto
de sentir tão efêmera a alegria
bem depressa trocada em seu oposto.
Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa
e tudo altera nem sequer deixou
um grão de infância feito esmola escassa.
Fui eu: e na figura só ficou
o olhar desenganado, na fumaça
em que a criança inteira se mudou.
Fernando Py
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A revelação dos espelhos
Tudo em mim é desânimo, cansaço,
um imenso desejo de morrer.
Em minhas faces vejo a cada passo
o lanho de uma ruga aparecer.
A cada riso novo, a cada traço
que a consciência me dá do envelhecer,
mais a mais se reduz o livre espaço
em que um laivo de luz se possa ver.
No atropelo das horas consumidas
não percebi que em rondas desvairadas
era eu levado para a destruição.
Ao ver-me hoje nas chapas denegridas
dos espelhos, opacas, desgastadas,
sinto-me frio e em lenta corrosão.
Alfredo Cumplido de Sant'Anna
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O tempo passado
Houve um tempo
em que a mão erguia uma lanterna
e a noite se afastava um pouco, devagar.
Não se anulava.
A noite e o dia
abriam sulcos para o silêncio como um rio
e ao nosso lado caminhava sempre um espaço aberto.
Eu não recordo,
mas dizem-me que partíamos e tornávamos à casa
como o sangue parte e torna ao coração.
Mar não havia,
mas pisávamos violetas.
A cama em que dormíamos era a do parto e a da morte,
o pão era solene
e a aurora familiar.
Ah, dêem-nos, dêem-nos de novo
aqueles corpos ignorantes e densos,
e ouvidos para o silêncio
e boca para acreditar.
Maria da Saüdade Cortezão
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