Dentro da caixa
Ao abrir...
Reparo sempre que ela própria não consegue dar à corda a sua própria manivela de bailarina de caixinha-de-música.
Reparo sempre que as mãos não chegam às costas, estão sempre na mesma posição: levantadas para o tecto, como as pontas dos pés e dos cabelos.
Reparo sempre que é um corpo esticado em "i" que roda com as notas musicais e faz rimas de coisas que ouve da boca de quem abre a caixa: sonho, senha, ranho, lenha, canto, acanto... - Que são folhas de acanto? Pensará ela, mas nunca me diz nada, só se olha ao espelho da tampa da caixinha que a engole no escuro sempre que ninguém lhe dá à corda.
Reparo sempre que é uma cariátide no vazio, sem nada que segurar para além da imensidão do nada quadrado duma caixa que a melodia do xilofone martela.
Reparo sempre que é um corpo rotativo de pés presos onde só a cabeça e o coração voam em sonhos.
Ao fechar...
Reparo sempre que me pareço a ela e por isso volto a abrir a caixa e faço-lhe companhia.
Bruna Pereira
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