O tempo passado
Houve um tempo
em que a mão erguia uma lanterna
e a noite se afastava um pouco, devagar.
Não se anulava.
A noite e o dia
abriam sulcos para o silêncio como um rio
e ao nosso lado caminhava sempre um espaço aberto.
Eu não recordo,
mas dizem-me que partíamos e tornávamos à casa
como o sangue parte e torna ao coração.
Mar não havia,
mas pisávamos violetas.
A cama em que dormíamos era a do parto e a da morte,
o pão era solene
e a aurora familiar.
Ah, dêem-nos, dêem-nos de novo
aqueles corpos ignorantes e densos,
e ouvidos para o silêncio
e boca para acreditar.
Maria da Saüdade Cortezão
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