2.10.10

Voltei à casa das heras.
A varanda, as paredes, estão carcomidas de bichinhos persistentes e raízes tentaculares. Penetro no escuro, no inóspito do bafio e do sonâmbulo. A velha casa está calada. Abro-lhe as portas, as portadas das janelas, e as réstias de sol arrumam-se oblíquas por entre grãozinhos flutuantes de poeira. Vê-se que lhe dói o esforço de voltar a ser espaço: o chão queixa-se e range sob os meus passos.

Venho ao pátio, de onde se avista o jardim e o cerne das colheitas. A terra está atapetada de velho, no lugar onde antes havia alegria e ornamentação. Volto ao interior da casa, ao seu desconfortável de agora. A antiga grafonola ainda se recorda das canções de há vinte anos. Sento- me, o olhar entrecortado nos retratos empoeirados.

Fico especada, a discorrer sobre o passar das canções: Fauré, Poème d’un jour. Onde se diz do encontro, do estar e do adeus. E neste ouvir, visto velhas memórias, antigos dizeres. Mas agora isto é apenas uma casa com uma história. Com princípio, meio e fim. Ninguém a pode mudar. São irreversíveis as heras da casa.

Se voltar, a história não há-de nunca ser igual.
Faz-me pena o tempo que foi.

Elvira Santiago

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Um comentário:

  1. Bom dia Helena...
    Quantas vezes não queremos simplesmente voltar à alegria vivida...mas devemos saber guardar apenas na memória e viver sempre, intensamente o presente!
    Um lindo domingo!
    Beijos

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