17.6.10

Sonata

O violoncelo encosta a cabeça ao teu ombro
e é um lamento ainda vegetal que lhe sai do sangue
quando o arco rasga o ar, o silêncio, a mão.

Fechas e abres os olhos, há gente a escutar,
as paredes curvam-se e estalam, tudo é frágil,
e a partitura é sempre um pouco além do olhar.

Os dedos levitam sua dureza sobre as cordas,
estremeces amarrada à vertigem da tua
própria queda - nisto se ergue a música.

Também tu não possuis trastos, tacteias
interiormente em busca das notas particulares
e do movimento inspirado.

Há uma demorada e subtil alquimia nesta sala.

E o violoncelo é o imóvel instrumento
da tua trágica, suave aparição.

Vasco Gato

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4 comentários:

"Há demonstrações de carinho que nos imensam!"
Manoel de Barros

Demonstre seu carinho...