"A todos os visitantes de passagem por esse meu mundo em preto e branco lhes desejo um bom entretenimento, seja através de textos com alto teor poético, através das fotos de musas que emprestam suas belezas para compor esse espaço ou das notas da canção fascinante de Edith Piaf... Que nem vejam passar o tempo e que voltem nem que seja por um momento!"

11.5.15


Teatro de sombras

Alguém joga xadrez com minha vida,
alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Alguém me inventa e desinventa
como quer:
talvez seja esta minha condição.

Alguém dirige o teatro de sombras
no qual fui ré sentenciada.
Finjo entender de tudo:
ando de um lado para o outro,
faço gestos com as mãos,
cuspo as sementes do fruto
entalado na garganta
com um grito: alguém aí pode me ouvir?

Ninguém reage, ninguém tenta aplaudir:
nesse reino todos usam disfarces,
menos a solidão.

 Lya Luft 
(foto Jean Patchett )

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10.5.15


(...) A vida quer da gente é peito aberto, coragem e a cara para bater. Mãe, minha cara está dormente, mas não desisto não. Eu tropeço tantas vezes e tantas me reequilibro de novo. Mãe, eu mato a barata com medo mesmo. Eu desafio a esfinge com medo mesmo. Eu encaro o dragão com medo mesmo. Do jeito que sei e posso. Obrigada por não ter criado uma princesa (...)

  Maria Gabriela Verediano 
(foto Ann-Margret) 

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9.5.15


Pequeno Poema

Quando eu nasci, 
ficou tudo como estava. 

Nem homens cortaram veias, 
nem o Sol escureceu, 
nem houve estrelas a mais... 
Somente, 
esquecida das dores, 
a minha Mãe sorriu e agradeceu. 

Quando eu nasci, 
não houve nada de novo 
senão eu. 

As nuvens não se espantaram, 
não enlouqueceu ninguém... 

Pra que o dia fosse enorme, 
bastava 
toda a ternura que olhava 
nos olhos de minha Mãe... 

Sebastião da Gama 
(foto Elizabeth Taylor & Liza Todd)

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8.5.15


âmago 

(ventre
nau caleidoscópica
de vir a ser)

potência em latência
crua
grela em cada entranha
de ela ,
algo que não existia.

e germina ou floresce
e vem a parir
nua
porque fazer surgir
é desfazer-se do acaso
desde o Início
com 1´nome
.
.
.

Filho

Ana Paula Perissé
(foto Mia Farrow)

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7.5.15


Estamos equivocados 

Estamos equivocados,
nunca fomos iguais,
tu és teimoso e eu dócil.
Há que penetrar,
adentrar-se demasiado
no que tu insinuas,
mas esse é um modo de te perder.
O segredo é não tentar que fiques.
Não somos iguais, poema,
tu desistes, eu ardo.

 Zoé Valdés
(foto Gordon MacRae & Doris Day) 

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5.5.15


Flores Incandescentes 

Como um rio ele molha as flores do meu vestido,
e em suas águas me convida a mergulhar.
Meu corpo se aquece,
meus pensamentos se incendeiam,
ao seu doce sussurrar...

Suas doces carícias são ondas suaves
que embalam e fazem desabrochar
as flores molhadas do meu vestido,
que nessas águas de rio,
logo se deixam levar...

Rosa Clement
(foto Lori Dennis)

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4.5.15


Ave, Maria 

Quando é ave 
é poesia
Ave, Maria cheia de cor
ave de espaço, de fé na vida
Ave, alegria cheia de amor

Ave Maria
e o canto ecoa
ave que voa

Ave Maria, cheia de árvore
invade a minha casa,
meu corpo e eu, em ventania
ergo a mão em prece
Ave Maria cheia de amor
no jardim que colore o dia

Ave Maria, cheia de sol
que brilha, 
que contagia com seu calor
Ave, Maria cheia de tanto
meu canto é seu
Ave Maria cheia de flor

 Mariana Gouveia 
(foto Elizabeth Taylor)

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2.5.15


O áugure 

Sou um prisma às avessas
as cores em mim se confundem
sou um tapete de ecos
uma cachoeira de gritos
uma cordoalha de muitos tempos

A esfera de lantejoulas
- passado presente futuro -
roda refletindo mil sóis

Sou essa colméia de incêndios
essa assembléia de sinais
esse rumor insone

Hélio Pellegrino
(foto Tamara de Lempicka) 

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1.5.15


 Ela só queria desabotoar os sonhos
revelar em tons de sépia a sua natureza envelhecida
respirava em longas escaladas
diamante puro

Ela só queria 
desnudar-se 

Flor de sal 
(foto Loretta Young)

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30.4.15


 
Beija-flor voava perdido
Não achava sua moça... Onde ela estaria?
Precisava tanto dela...
Quem colocaria palavras de amor em suas asas?
Quem lhe daria tanto carinho?
Beija-flor pousou e pensou...
- Ela deve estar presa na lágrima da lua
No pranto que a noite chorou
E como já é dia...
Fiquei sem minha poesia...

 Dina Isserlin
(foto Marceline Day)

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29.4.15


Desalento 

Tristeza destas minhas mãos 
demasiado pesadas 
para não abrirem feridas, 
demasiado leves 
para deixarem marca – 
tristeza desta minha boca 
que diz as mesmas 
palavras que tu 
– significando outras coisas – 
e esta é a expressão 
da mais desesperada 
distância.

 Antonia Pozzi
(foto Jean Harlow)

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28.4.15


Nada mais triste. Um carrossel à chuva. Eu hoje sou o carrossel molhado. Que girou sob o sol que não havia. Mas havia. Que se deixou ficar. Parado. Ferrugento. Chiando com o vento. À chuva. Sabendo que não houve nunca sol. Mas houve. Que só a chuva é real. Mas não. Neste decisivo momento como são todos podia fingir que canto. Que não me importo de estar ao sol ou à chuva. Que não sou esta imagem de desalento ou estas notas que parecem gotas. Mas não. Nada mais triste. Não conseguir fingir. Que canto. Ou que enlouqueço.

  Elisa
(foto Catherine Deneuve)

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27.4.15


Ruído das águas 

Não sei de mim nem uma gota
Sou oceano de águas abissais
Superfície pouca
O que tremula em minhas águas visíveis
É reflexo mal projetado do que sou
Há segredos ancorados em meu interior
Sombreando o que entendo ser
O que realmente sou

Entre uma onda e outra
Caminho no ritmo dos meus pensamentos
Busco no mar um alento
Meus pés conhecem a lápide das pedras rochosas
Deixam na areia úmida, uma marca porosa
Há uma âncora que me prende com gancho afiado
Todavia, meu caminhar sabe ser leve e solto
A brisa da reflexão passeia a meu lado

Úrsula Avner 
(foto Brigitte Bardot) 

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26.4.15


Ave alegria

Ave alegria,
cheia de graça,
o amor é contigo
bendita a risada
e a gargalhada!
Salve a justiça
e a liberdade!
Salve a verdade,
a delicadeza
e o pão sobre a mesa!
Abaixo a tristeza!
Ave alegria!

Sylvia Orthof
(foto Shirley Temple)

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25.4.15


Confeitos em alto mar

A menina queria
uma história
que fosse doce
e que falasse
dos bichinhos
que vivem no
fundo do mar.
E gostou de
ouvir sobre os
biscoitos em
forma de estrela
que dançavam
à noite sobre
as ondas para
a sobremesa
do siri dengoso
e das baleias

Alvaro Bastos
(foto Lily Elsie)

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24.4.15


O sótão 

Entrar com os olhos muito abertos
porque a luz se esconde
atrás do pó, das coisas
que esquecemos, alguma há-de
ser a nossa infância, trará sapatinhos
de verniz, um laço
dos casamentos das tias
uma tabuada com as contas
furadas de um dos filhos
cadernos com línguas estranhas
um Ferrari
repentino sem uma roda
uma subida até ao Himalaia
de uma teia de aranha remendada
Por que será que o sótão
está sempre no derradeiro andar da vida?

João Tomaz Parreira
(foto Martita Hunt) 

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23.4.15


 
ando cansada sabes...

há anos que me deito nesta banheira cheia de mim

deste sabor a sal que me conserva submersa

quase ilesa quando saio por enxugar

não te posso prometer o mar

porque estou confinada a esta banheira

limite do que sou

não tenho águas limpas que te deem força

ou um rio imenso a correr constante

sem o variar das estações

não te vou enganar...

mais não posso fazer do que molhar-te ainda mais

do que agitar as águas aparentemente calmas

da banheira

desta banheira branca

estou cansada sabes...

precisaria de coragem para abrir o ralo

deixar a água sair lentamente

cabeça

pescoço

ombros

barriga

pernas

últimas gotas a saírem-me pelos pés

até ficar vazia

seca

e depois...

depois esperaria que o ar me comovesse para além da pele

que as gotas evaporassem em redor de mim

e aí deixaria que fosses tu a abrir a torneira inchada

ferro preso da memória

ando cansada sabes...

vou abrir o ralo!!!

vem!!!

 sophiarui
(foto Jeanne Moreau)

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